domingo, 30 de outubro de 2011

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Debate sobre tauromaquia

... NA TVI - 31 DE OUTUBRO


Para começar gostaria de lembrar o que disse Charles Darwin, o homem que mais conviveu com animais não humanos:


«Não há diferenças fundamentais entre o homem e os animais nas suas faculdades mentais. Tanto os animais, como os homens, demonstram sentir prazer, dor, felicidade e sofrimento».

Na próxima Segunda-feira, dia 31 de Outubro, no programa «Você na TV», na TVi, realizar-se-á um debate sobre Tauromaquia.

Pela luta anti-tourada estarão presentes o Comendador Tomé de Barros Queiroz, presidente da Sociedade Protectora dos Animais, o Dr. Vasco Reis, médico veterinário, e o Professor Paulo Borges, da Universidade de Lisboa, grande defensor da causa animal, e presidente do PAN (Partido pelos Animais e pela Natureza).

Do lado pró-tourada estão confirmados os administradores do site TouroeOuro.com, o Secretário-Geral da PróToiro, Dr. Diogo Costa Monteiro e o Prof. Doutor Joaquim Grave.

Deste debate espera-se que se esclareça, de uma vez por todas, algumas das questões mais pertinentes relacionadas com este espectáculo que não dignifica o ser humano, nem o povo português, nem Portugal, nem o ser não humano que é sacrificado, num ritual obscuro e primitivo – o Touro.

As principais questões poderão ser as seguintes:

*** O MASSACRE DE TOUROS onde a tortura, a crueldade, o sadismo e a impiedade imperam será:


ARTE?

FESTA?

PATRIMÓNIO?

CULTURA?



*** Será um espectáculo que imprime DIGNIDADE ao ser dito humano, que nele participa, ou ao Touro, um mamífero superior, cujas entranhas são de todo semelhantes à do homem, e portanto sofrerá horrores às mãos dos seus carrascos?

*** Que se diga se um Touro, tal como TODOS os outros animais vertebrados e com sistema nervoso central não sente DOR, quando é bárbara e covardemente torturado.

*** Que se diga se o Touro não sente MEDO, FOME, SEDE, tal como qualquer animal humano.

Os pró-tourada baseiam-se em três argumentos que caem pela sua fragilidade:


TRADIÇÃO (que não é argumento) porque uma tradição só sobrevive se acompanhar a evolução de mentalidades;


CULTURA (algo demasiado sangrento para ser cultura);


E ARTE (a arte da tortura, do fazer sangrar, da crueldade e da morte).

Também se espera, que nesta questão sejam envolvidas as seguintes entidades que, neste momento, além de serem CÚMPLICES do MASSACRE DE TOUROS em Portugal, são SUBMISSAS ao lobby tauromáquico, o que não deixa de ser um acto indigno de subserviência, que poderá ficar para a História.


O GOVERNO PORTUGUÊS (que não cumpre o seu papel).


OS DEPUTADOS DA NAÇÃO (que têm medo de se pronunciarem).


O PRESIDENTE DA REPÚBLICA (que se remete ao silêncio, quando devia interferir)


A IGREJA CATÓLICA (que “abençoa” os Massacres, não cumprindo com as suas funções cristãs)


A ORDEM DOS MÉDICOS VETERINÁRIOS (que despreza a Ética que os levaram a abraçar esta profissão)


A COMISSÃO NACIONAL DA UNESCO (que ainda não tomou uma posição pública definitiva, apenas fez uma Declaração em 1980)


OS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL (que dão cobertura à violência e à tortura de um ser vivo)


DOM DUARTE PIO DE BRAGANÇA (que ainda promove as Touradas Reais, muito tempo depois do Marquês de Pombal as ter proibido)


E TODOS OS QUE DIRECTA OU INDIRECTAMENTE SE ENVOLVEM NESTES MASSACRES: CLUBES, MARCAS E ASSOCIAÇÕES DE SOLIDARIEDADE.



Victor Hugo dizia que a proteção dos animais faz parte da moral e da cultura dos povos.


Se estas entidades nada fizerem no sentido da ABOLIÇÃO DO MASSACRE DE TOUROS EM PORTUGAL, os seus nomes e as suas caras ficarão para sempre ligadas a esta barbárie, como gente que não soube proteger a Moral e a Cultura do seu povo.

Isabel A. Ferreira

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

domingo, 23 de outubro de 2011

Alterações Climáticas - Somos Todos Responsáveis


No dia em que mais uma tragédia aconteceu, desta vez na Turquia, vale a pena reflectir sobre as alterações climáticas e sobre todos os horrores que as mesmas têm provocado e provocarão, enquanto não se tomar consciência da gravidade deste problema e da importância de uma tomada de posição a nível mundial que passe pela adopção de uma Política - Política de Ambiente - verdadeiramente séria para o planeta, a cumprir, na prática, por todos os intervenientes, particularmente os países mais poluidores e com maior capacidade de intervenção a este nível, e que não se fique meramente pelos acordos de ocasião ou tratados, que, na prática, não cumprem ou fingem cumprir. 
São cada vez mais frequentes e cada vez mais graves os desastres ambientais que acontecem pelo mundo fora, com consequências terríveis a todos os níveis, sobretudo, as perdas humanas que têm ceifado com os sismos, inundações, seca, tsunamis, furacões, entre outros, e com as fomes e desastres humanitários daí resultantes.

As mudanças climáticas são a maior ameaça ambiental do século XXI, com consequências profundas e transversais a várias áreas da sociedade: económica, social e ambiental. Todos nós, sem excepção, estamos a ser afectados por esta questão: cidadãos comuns, empresas, governos, economias e, mais importante de todos, a natureza.

Sempre foram registadas ao longo dos milhares de anos que o planeta Terra tem. O problema prende-se com o facto de, no último século, o ritmo entre estas variações climáticas ter sofrido uma forte aceleração e a tendência é que tome proporções ainda mais caóticas se não forem tomadas medidas.

A ocorrência de ondas de calor e secas são fenómenos cada vez mais frequentes, e as consequentes perdas agrícolas representam uma ameaça real para as economias mundiais.

No cerne destas mudanças estão os chamados gases de efeito estufa, cujas emissões têm sofrido um aumento acentuado. O CO2 (dióxido de carbono) é o principal gás negativo desses designados de efeito estufa, e são consequência directa do uso/queima de combustíveis fósseis como o carbono, o petróleo e o gás com fins de produção energética.


É, por isso, imprescindível reduzir as emissões deste tipo de gases. Como? Eliminando, progressivamente, o uso massivo dos combustíveis fósseis, substituindo-os pelas energias renováveis, fomentando a poupança de energia e eficiência energética.

A actividade humana foi apontada, em 2007, por cientistas especializados nesta área e reunidos sob o Painel Intergovernamental de Alterações Climáticas, como sendo a principal causa destas mudanças do clima.


Ao mantermos uma atitude inerte e apática perante esta questão, corremos o risco de sermos expostos a eventos climáticos extremos e imprevisíveis (como os que têm vindo a ser noticiados nos últimos tempos) e com efeitos nefastos para todo o mundo!

A temperatura, no século passado, registou um acréscimo de 0,76ºC. A previsão é que no presente suba entre 1,1 a 6,4ºC, dependendo das medidas mitigadoras que sejam encetadas.

Este incremento da temperatura média tida como normal em mais 2ºC pode induzir respostas céleres, imprevistas e não-lineares que podem desencadear danos irreversíveis nos ecossistemas terrestres.




O EFEITO DE ESTUFA

sábado, 22 de outubro de 2011

"As pessoas estão zangadas, infelizes e frustradas"

Entrevista à criminologista Suzella Palmer*

(Foto de Stefan Wermuth/Reuters)

A criminologista Suzella Palmer é especialista em gangs, crime e juventude na Universidade de Bedfordshire. Fez pesquisa intensa sobre o crime juvenil na comunidade negra e participou num documentário sobre gangs para a BBC em 2009. Conhece de perto a realidade das ruas.

Como lê os motins em Inglaterra?

Não aprovo a violência, os incêndios, os roubos, mas percebo e há razões muito importantes por detrás do que se está a passar. Precisamos de olhar para as causas. Acho que isto é uma chamada de atenção para toda a sociedade britânica.

Que tipo de chamada de atenção?

As pessoas estão zangadas, infelizes, frustradas. Estamos a atravessar problemas económicos, mas comparando com outros países ainda somos um país próspero. Muitas das nossas crianças estão zangadas e infelizes com muitas coisas e precisamos de ter tempo para as ouvir, coisa que não temos feito.

Há a ideia de que isto é mais sobre telemóveis e televisões plasma do que propriamente um protesto.

Acho que é um protesto contra o facto de não estarem a ser ouvidos. É interessante que os assaltos sejam feitos por miúdos que saem à rua e agarram em qualquer coisa: telemóveis, bebidas, qualquer loja. É quase uma reacção à prosperidade do país a que estes jovens não têm acesso. Quando se olha para as multinacionais, vê-se que direccionam as suas campanhas de marketing para os jovens. E eles sentem uma enorme pressão para consumir, só que não têm oportunidade de ganhar o dinheiro de forma legítima para o fazer. E isso é um problema. Depois os cortes todos que afectam os benefícios sociais, as propinas e a falta de oportunidades de trabalho não deixam os jovens na posição de serem os consumidores que são pressionados a ser. E isso gera frustração.

Também há questões que têm a ver com respeito. Eu sinto e vejo que os jovens são totalmente desrespeitados pela sociedade. Quando olhamos, por exemplo, para a justiça criminal, os jovens estão a ser criminalizados a um ritmo acelerado. Aquilo que temos de perceber é que é normal que os jovens se rebelem e se envolvam em comportamentos anti-sociais. Há muitas coisas que os jovens fazem hoje que são feitas há milénios, mas hoje eles são criminalizados. Estou a pensar, há 30 anos podia ser estridente em público falar alto, mas hoje os jovens são criminalizados por isso. Claro que não se trata de ignorar o facto, mas faz-se através de orientação e apoio, e se os vamos punir então que não seja através do sistema criminal - porque aí sentem-se criminosos. Colocam-lhes rótulos, tratam-nos como criminosos e eles começam a agir como se fossem.

Da sua experiência, como é que um protesto que começou pequeno comparado com as proporções que atingiu agora, cresce e se alastra?

Pelo sentido de injustiça partilhado por muita gente e por diversas razões. Alguns porque não têm acesso ao mercado de trabalho, alguns porque não têm acesso ao ensino superior, outros pela forma como são tratados pela polícia - em particular os negros e as minorias étnicas. Há uma longa história de problemas da polícia com os negros neste país. Ou seja, é um sentimento de injustiça, mas a forma como cada um sente e é afectado por elas é diferente.

Tudo começou com o protesto contra a polícia (pela morte de Mark Duggan) e as pessoas, brancos e negros, sentem-se frustradas com a polícia e com a Comissão Independente de Queixas contra a Polícia. Nunca aconteceu um polícia ser punido apropriadamente por ter morto um civil - e isso gera descontentamento com mais uma morte às mãos da polícia.

A psicologia explica o comportamento em grupo: individualmente, podemos não agir com violência, mas se outras pessoas no grupo o fazem é quase como se sentíssemos que também o podemos fazer - deixamos de nos ver como indíviduos para passar a vermo-nos como parte de um grupo.

Depois há outro factor: como sociedade, não desafiámos suficientemente a polícia - não o podemos fazer de nenhuma maneira, seja fisicamente, seja em tribunal - e isto está a ser um desafio à polícia. As pessoas vêem que a polícia pode ser desafiada. Se se olhar para os incidentes dos últimos dias, houve muitos confrontos e grupos de jovens que foram para a rua apenas para desafiar a polícia. Sentem-se com poder: são constantemente parados e presos e vejo muitos relatórios na minha extensa pesquisa de jovens serem agredidos pela polícia sem razão há gerações e gerações. Eu aconselho a fazerem queixa mas as respostas que tenho é que acham que ninguém os vai ouvir. A geração mais velha falhou em perceber as necessidades da nova geração - eles dizem muitas vezes que se sentem deixados para trás.Os relatórios mais recentes sobre os motins falam de uma massa que não é apenas composta de jovens, nem apenas de negros, mas que atravessa raças e gerações.

São pessoas que sentem injustiça por diferentes razões mas juntam-se porque vêem um grupo a confrontar o sistema e o Estado e partilham este sentido de injustiça. Pode ser um jovem branco que sente injustiça pelo aumento de propinas ou pela falta de trabalho, pode-se encontrar a classe trabalhadora mais velha que se sente discriminada. Há um sentido partilhado de injustiça. É importante não fazer generalizações: não se trata apenas de jovens a roubar. É mais complexo. Mas é bastante importante aqui a questão entre a polícia e a comunidade negra.

Joana Gorjão Henriques, Londres, In PÚBLICO de 11.8.2011


*A criminologista Suzella Palmer é especialista em gangs, crime e juventude na Universidade de Bedfordshire. Fez pesquisa intensa sobre o crime juvenil na comunidade negra e participou num documentário sobre gangs para a BBC em 2009. Conhece de perto a realidade das ruas.

Amnistia Internacional: change minds, change laws, change lives.


Desde que começaram as campanhas em 1961, a AMNISTIA INTERNACIONAL - AI tem trabalhado em todo o mundo para pôr termo ao abuso dos Direitos Humanos.

Em 1961, um advogado Inglês, Peter Benenson lançou uma campanha mundial (“Apelo para Amnistia 1961”) com a publicação de um artigo proeminente “Os Prisioneiros Esquecidos” no Jornal “The Observer”. A notícia da detenção de dois estudantes portugueses que elevaram os seus copos para brindar em público à liberdade, levou Benenson a escrever este artigo. O seu apelo foi publicado em muitos outros jornais pelo mundo fora tornando-se assim na génese da Amnistia Internacional.

A primeira reunião internacional teve lugar em Julho de 1961, com delegados da Bélgica, do Reino Unido, França, Alemanha, Irlanda, Suíça e dos EUA. Decidiram estabelecer “um movimento permanente em defesa da liberdade de opinião e de religião ".

Um pequeno escritório e uma pequena biblioteca, dirigida por voluntários, abriu em Peter Benenson’s chambers, em Mitre Court, Londres. A “Rede dos Três” foi então estabelecida consistindo no facto de cada grupo da Amnistia Internacional adoptar três prisioneiros de diferentes áreas geográficas e políticas de modo a enfatizar a imparcialidade do trabalho de cada grupo.

No Dia dos Direitos Humanos, 10 de Dezembro, a primeira vela da Amnistia (o logotipo da Amnistia é uma vela envolta em arame farpado) foi acesa na Igreja de St-Martin-in-the-Fields, em Londres.

Para saber mais:
http://www.amnistia-internacional.pt/
http://www.amnistia-internacional.pt/files/relatorioanual/Relatorioanual2011/RA2011_Introducao_Secretario_Geral.pdf

Balada para a velha ilha

Ilha de Moçambique

Horas mortas, quando o luar passeia,

As brancas tranças desfeitas, pela areia,

Há sombras do passado a deslizar

Por entre os muros, no cimo dos portais,

Nas rochas e nas pedras carcomidas,

Contando histórias velhas, já perdidas

Na distância e na bruma do não-mais.

Tinem ferros, há vozes e canções,

Soluços e murmúrios de orações

(Há quem afirme e teime que é o mar... )

Subindo em espirais feitas de mistério

Ao encontro dos passos de quem passa.



Ecos dispersos de um longínquo império,

roçar de sedas nos salões desertos

dos seculares palácios sem vivalma.

E dizem que de túmulos abertos

Surgem guerreiros, bispos e donzelas



Que vão depois seguindo, à luz da lua,

Tacteando as paredes, rua em rua,

Até que a aurora venha e se debruce

Em rubores de menina, pelas janelas.



E dizem mais... e contam... e afirmam...

(Bem sei que é lenda. É lenda e fantasia

— Mas que seria a vida sem o sonho

E que seria duma velha ilha

Sem o perfume, a estranha maravilha,

Da lenda a envolvê-la em poesia?... )



Guilherme de Melo

*Ilha de Moçambique

Foto in http://olhares.aeiou.pt/noite_de_luar_na_ilha_de_mocambique_foto2119476.html?nav1

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Os finlandeses querem que os filhos sejam professores


A Finlândia surge sistematicamente no topo dos estudos PISA, em que tri-anualmente a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) examina as capacidades dos alunos de 15 anos em Ciência, Matemática e Leitura. O investigador finlandês Jouni Välijärvi surgiu numa sala apinhada de professores portugueses, num encontro organizado pelo Ministério da Educação na quarta-feira, em Lisboa, no papel de mestre a quem pedem que ensine "como se faz". No fundo, queriam saber o que é a Finlândia tem de especial? Välijärvi, director do Instituto Finlandês para a Investigação em Educação, na Universidade de Jyväskylä, explica que muito está na base, no ensino primário, onde um professor motivado e bem preparado acompanha os alunos durante seis anos.


Muito do trabalho a fazer é na primária (Ricardo Silva)

Defende que um dos segredos do sucesso finlandês é a qualidade do ensino primário. Por que é que os professores da primária têm tanta popularidade?

Tem muito a ver com a nossa história. A Finlândia só é independente há 100 anos e os professores primários eram colocados por todo o país para espalhar a identidade nacional. É umas razões que explicam uma popularidade tão alta. Ser professor primário é tão prestigiado como ser médico ou advogado: os pais querem que os filhos sejam professores primários e, quando perguntam aos miúdos que acabaram o secundário que carreira querem seguir, a profissão surge nos dois primeiros lugares. E muitos dos que têm essa ambição não a conseguem alcançar, porque é muito difícil entrar para o curso.

A popularidade estende-se aos professores do secundário?

Depende das áreas. No secundário, muitas vezes ir para professor não é uma primeira escolha, é um recurso, e isso tem reflexos na motivação dos professores e na aprendizagem.

Por que é que ser professor primário é tão apelativo?

Uma das coisas mais importantes é a autonomia, em que cada professor organiza o trabalho como entende, por isso a questão da avaliação é muito sensível. As aulas estão muito fechadas sobre si mesmas, o que é uma força do sistema mas também uma fraqueza. Mas o facto é que os pais confiam nos professores e nas escolas.

Na Finlândia, o ensino primário prolonga-se por seis anos, as crianças ficam durante este período com o mesmo professor. Isso é importante?

Sim, é a base de tudo. Costuma ser um professor que trabalha com eles ao longo dos seis anos, mas há escolas que dividem os anos por dois professores e pode haver outros professores que ajudam nalgumas matérias, por exemplo, em Matemática ou Desporto. Fica ao critério da escola.

Os poucos chumbos que existem são na primária...

Analisando os alunos do 9.º ano, constata-se que só 2,6 por cento chumbaram e a grande maioria foi na primária. É mais eficaz reter um aluno um ano no início do que este ter que repetir um ano mais tarde, porque é uma altura em que estão a ser dadas as bases. Os professores finlandeses têm expectativas muito altas em termos académicos, incluindo os primários, mais até do que noutros países nórdicos. Por exemplo, na Dinamarca o ensino está mais centrado no bem-estar e felicidade das crianças do que nos resultados académicos. O modelo finlandês mistura os dois factores, preocupa-se com a felicidade e com a parte cognitiva, o que se traduz na aquisição de certos níveis na Escrita, Leitura e Matemática, algo que também já é importante na pré-primária.

O que faz com que um professor seja bom?

Perguntámos isso a alunos e concluímos que é quando sentem que percebe do tema que ensina e também, e este aspecto é interessante, quando sentem que se interessa por eles e está disposto a ter conversas que lhes dizem algo e que não têm necessariamente a ver com a cadeira que lecciona.

Questões como a sexualidade?

Sim, mas também quando o professor os ajuda a escolher o caminho que vão seguir, que está disposto a discutir com eles o porquê das suas escolhas.

As escolas finlandesas têm turmas pequenas. Este poderá ser outro factor de sucesso?

São pequenas e os professores defendem que devem ser ainda mais pequenas. Eu sou céptico em relação à utilidade de reduzir as turmas. Actualmente, na primária, em média, temos 21 alunos por turma, no secundário 19. Eu acho que não é possível chegar a um número óptimo, que a dimensão das turmas deve depender dos alunos, do que se ensina. Até porque ter turmas mais pequenas significa ter mais professores e isso implica aumentar gastos. Penso que o dinheiro pode ser usado para criar mais apoios de acordo com o contexto de cada escola: há escolas em que 15 por cento são imigrantes.

Uma das conclusões da OCDE é a de que pagar bem a professores resulta em melhores resultados, porque aumenta a sua motivação. Até certo nível. O importante são as condições de trabalho como um todo, o salário é um sinal. O mais importante é os professores sentirem que, quando têm dificuldades, não estão sozinhos, o que não é o caso em muitos países.

A Finlândia é um dos países onde se passa menos tempo na escola.

Quando se está na escola está-se concentrado na escola, quando se sai vai-se fazer outras coisas, são tempos perfeitamente separados. Na Coreia [outro país bem classificado no PISA], os alunos levantam-se às 6h00 e voltam a casa às 21h00, e ainda têm que fazer trabalhos de casa. Para estes jovens, a escola e a educação são tudo na vida. Os finlandeses, entre tempo na escola e trabalhos de casa, passam um total de 30 horas por semana, face a 50 horas da Coreia.

Moral da história?

A forma como os países conseguem bons resultados é completamente diferente. Esse é o reverso da medalha destes estudos internacionais que incentivam a imitação. Os países podem aprender uns com os outros, mas tem que se ter muito cuidado em transplantar modelos.

Por Catarina Gomes in Público on-line 2.5.11

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O discurso de Passos Coelho




O discurso da praxe. Mais do que ensaiado para convencer quem convencido nunca ficou ou ficará com este malabarismo verbal a que já nos habituámos nos PM em cenários de crise. O discurso da treta dito por mais um primeiro-ministro que mentiu aos portugueses. Um PM sem coragem política para fazer o que prometera, que defraudou as expectativas dos que o ajudaram a chegar onde está e que desonrou o compromisso assumido aquando da sua tomada de posse.


Demagógico e com uma arrogância política que já vem fazendo escola por S. Bento, apresenta-se-nos completamente rendido aos centros financeiros mundiais, perfeitamente ciente de que o problema se resolve roubando aos que quase nada de seu têm, servindo compulsivamente planos perversos de uma política externa claramente e exclusivamente vendida aos interesses do capital e rendida aos encantos de Bruxelas e do FMI.

Retrocedemos em matéria de direitos constitucionalmente adquiridos e assistimos à delapidação gradual da democracia e da justiça social.

Governa-se para as elites, “para inglês ver”, não se governa para quem poder lhes delegou e assim lho confiou.

Fazem da governação um clube privado, como se a política ao povo não diga respeito.

Fazem pouco do povo. Indignam o povo.

Tomam medidas que na prática roubos são e servem-se dos míseros salários de quem trabalha para tentar “salvar a economia”, como se não houvesse grandes fortunas onde mexer, legislação para aplicar e cortes a fazer em bens sumptuários constantemente adquiridos pelo estado para proveito das elites políticas, bem como, o desperdício financeiro que escandalosamente comete e não pára de aumentar.

Passos Coelho já sabia da situação que o esperava e de nada lhe vale andar sempre com o nome de José Sócrates na boca para justificar os roubos que continua a fazer a quem trabalha e os atropelos constitucionais que tem cometido com o auxílio de certas bancadas da AR e do próprio PR, como também já vem sendo hábito.

Se votaram nele não foi para que continuasse as políticas antidemocráticas que já vinham sendo seguidas e cujos alvos principais foram justamente a função pública e a classe média em geral, sem falar dos desempregados e da maioria dos reformados.

Um dos seus ministros – o da Solidariedade e Segurança Social – teve a ousadia de dizer há dias que as medidas de austeridade acautelaram sectores estratégicos da economia nacional.

Acautelaram o quê, senhor ministro? A Educação? A Saúde? A Produção Nacional?

Acautelaram, sim, o contínuo enriquecimento das personagens habituais, as reformas chorudas de gente da política, alguns com passagem meteórica pela AR, ministérios ou secretarias de estado, PR, bancos e outras empresas públicas, fundações que ninguém sabe onde estão e o que fazem, subsídios a clubes de futebol onde impera a maior corrupção e tráfico de influências e onde os salários que se pagam são escandalosamente escondidos ao fisco que só não vê porque não quer…

Haja vergonha! Haverá?

O povo sairá à rua para exigir o que lhes prometeram e que agora lhes negam. Em nome da Banca, em nome do capital estrangeiro e em nome da dependência e servilismo que continuamos a preferir em vez do investimento interno e da aposta nacional nos sectores-chave, caso da Agricultura e da Educação.

Neste, tem-se cortado a torto e a direito com uma indiferença e desprezo completo pelo analfabetismo científico e cultural do país, perante o qual fazem vista grossa.

"Só seremos competitivos se acrescentarmos valor económico àquilo que produzimos", afirmou recentemente o Dr. Artur Santos Silva que, tal como o Professor Carlos Fiolhais, consideram "prioridade das prioridades" a melhoria da qualidade do ensino, a começar pelo ensino básico.

No entanto, que têm feito estes governos?

Têm posto de lado gente qualificada e recursos humanos de âmbito diverso com os quais se desenvolveria o país se houvesse vontade política e verdadeiro espírito de inovação e empreendedorismo, decisivo para a saída da crise económica e social e da dependência do exterior.

Um PM em condições olha para o seu país e incentiva-o a produzir mais, a trabalhar mais, com uma dinâmica que passa pela concertação social e harmonização de interesses. Não faz o que tem feito e pretende continuar a fazer, tornando mais miserável um povo sacrificado e já faminto, a quem roubam dinheiro, direitos e dignidade.

Um PM em condições e um governo em condições jamais iria mexer nos míseros 1.000 euros sabendo a pouca vergonha que por aí anda, camuflada ou não, de grandes fortunas, fraudulentas ou não.

Pouco falta para o regresso de uma nova ditadura, desta vez muito mais cínica e perversa, com gente que se aproveitou do voto popular e da vulnerabilidade dos cidadãos cada vez mais pobres e mais roubados, para ascender nacional e internacionalmente, agir despoticamente e daí tirar proveitos político-partidários.

Muito mal se tem feito a quem honestamente vive do seu mísero salário, seja de 1.000 euros, 1.500 euros, 300 euros, 500 euros… como este corte que mais roubo é, de ir buscar parte do subsídio de Natal a quem dele sempre precisou para viver.

Hoje, tudo serve para cortar pequenas regalias de pleno direito conquistadas desde Abril de 1974. Como se mais nada houvesse para corrigir défices escandalosos de governos e governos de “sacanas sem lei” que tudo fizeram para se governar mas que não governaram efectivamente. Pelo contrário.

Vivemos demasiado tempo um “centralismo democrático” que pôs em perigo, durante muito tempo, a democracia e a capacidade de reivindicação do povo, num estranho torpor e estranho aceitacionismo, tal a tentativa de o minar na sua intervenção cívica.

Mas o povo reergue-se e reerguer-se-á sempre para enfrentar os ditadores e os que lhe tolhem os gestos e lhes amordaçam as bocas.

E contra os manipuladores da lei e usurpadores dos direitos se levantarão as gentes em busca do que é seu.

Continuam as desigualdades sociais, injustiças sociais, compadrios, clientelismo e discursos populistas.

Que faz esta “nova gente”? O mesmo ou pior do mesmo, até na oposição que se faz no hemiciclo ou na imprensa habitual, reduzidos que estão a uma mera e pobre retórica de ocasião, repetida e estéril em ideias e projectos.

Não é pelo que dizemos que o somos mas sim pela forma como o fazemos. Albert Schweitzer, a propósito, dizia que dar o exemplo não era a melhor maneira de influenciar os outros – era a única!

Pelos vistos, continuamos a ter maus exemplos, maus políticos e, claro, más políticas.

Tem singrado quem é corrupto, continuam as impunidades e os favorecimentos para os do costume, a insensatez e injustiça nas medidas político-económicas, agora, escudadas nas exigências da troika ou UE, o desemprego, a precariedade e a miséria dos que sempre trabalharam para sobreviver (e mal) aumenta tragicamente e a falta de condições e de investimento colocam-nos perigosamente ao lado do abismo. Abismo social.

As negociações não tiveram nem têm em conta o sacrifício constante dos explorados de sempre e a austeridade não está a ser para todos.

Como é que se pode falar de justiça social com pessoas a viver no limiar da pobreza, com 300 e tal euros por mês, famintas, doentes, enquanto outros arrotam a dinheiro e o desperdiçam em futilidades que uma certa imprensa faz o favor de nos recordar?

O Sr. PM engana-se quando diz que “Todos os Portugueses estão a sentir nas suas vidas os efeitos de um terrível estrangulamento financeiro da nossa economia”.

O Sr. viabilizou o orçamento para 2011 mas rápido se esqueceu das reais motivações por que o fez, isto é, fez questão que nele estivessem contidas reduções significativas da despesa pública e partiu desse pressuposto para resolver os problemas mas, já viu que não chegou e, sobretudo, que ao cometer os mesmo erros de Sócrates penhorado continuará a ter o país.

A meio do ano esperava que metade desse orçamento tivesse sido devidamente executado, mas, segundo o INE, nada disso aconteceu. No entanto, isso não pode constituir justificação para a penalização brutal e cruel a que condenou a maioria da classe trabalhadora deste país, designadamente, os funcionários públicos que ganham os tais míseros 1000 euros.

“É preciso que os Portugueses compreendam todos os contornos da situação actual” – só pede, Sr. PM, só corta e só ameaça. Afinal, o que é que dá, a quem dá e quanto dá, Sr. PM?

Acho graça quando diz que no passado nos habituámos a tolerar as derrapagens orçamentais e que isso se tornou num hábito político que é urgente reparar! E que este ano todos tinham a obrigação de já ter aprendido a lição. Que é isto, Sr. PM? Ironia de mau gosto? “Todos deviam?” Por que é que não se tem a coragem, a dignidade, se faz justiça indo aos bolsos de quem o tem, acabando com mordomias milionárias como as que vemos na política, em certas empresas estatais, privadas, semi-privadas, administradores das mesmas, gestores das mesmas, reformados da política que acumulam, ainda, funções e salários milionários, carros, gabinetes, secretárias, motoristas… certos clubes de futebol, certos jogadores de futebol, certos dirigentes e certas SADs que se arrogam de intocáveis em matéria de fiscalidade sob a bênção dos governos e secretarias de estado?

Negociar sem agravar socialmente é possível, sim, mas é preciso querer fazê-lo com transparência e rigor. Com ética.

Fernando Savater, um homem que muitos deveriam ler, disse um dia: “ O nosso primeiro interesse enquanto homens está em sermos realmente humanos. A crença perigosíssima de que tudo o que se faz em favor do partido é bom e tudo o que prejudica o partido é mau deve ser combatida”.

O endividamento do Sector Público empresarial é obsceno e o senhor bem sabe porquê. O Sr e o Srs que o antecederam, incluindo o Sr. Presidente da República que nesta matéria inocente não é.

É revoltante voltar a ouvir-se que em termos orçamentais - para 2012 - haverá cortes muito substanciais nos sectores da Saúde e da Educação e que foram até onde puderam ir! Que hipocrisia, Sr. PM e que falta de visão política e social. Dois sectores imprescindíveis mais uma vez sacrificados. Corte, isso sim, nos gastos supérfulos dos gabinetes de ministros, secretários de estado, deputados… proponha medidas que levem a uma moralização da vida política! Proponha e defenda a todo o custo que o exemplo venha de cima e que a Justiça tenha mão pesada nos casos de enriquecimento ilícito, evasão fiscal e fuga de capitais, entre outros.

Que impede um governo de o fazer?

Temos forma de amortizar o défice e compor as finanças internas? Precisamos de dinheiro? Sim, temos, mas não se busque onde nunca farto foi, pelo contrário.

Quando recordo as palavras de Warren Buffett no seu artigo Stop coddling the super-rich (Deixem de mimar os super-ricos), no New York Times de 14 de Agosto, no qual se questiona sobre a razão que justifica que os ricos paguem menos impostos que os pobres, fico revoltada, precisamente porque, tal como eu, também ele responde “Absolutamente nada!”.

E a revolta é sobretudo por saber que os ricos, nos EUA como aqui, sabem que os governos os têm apoiado nestas benesses fiscais que continuam a manter-lhes, estejamos em crise ou não. E isto é nojento: pedem-se sacrifícios aos pobretanas do costume enquanto descaradamente se protege e poupa quem muito ajudar podia sem que daí mal não lhes viesse.

Aquele multimilionário conta, inclusive, que pagara em 2010 apenas 17,4% de impostos sobre os seus rendimentos enquanto os seus empregados pagaram 33 a 41%!!!

O que é isto, meus senhores?

Democracia não é.



Nazaré Oliveira

domingo, 16 de outubro de 2011

A Educação em Portugal: um retrato europeu

Com a devida vénia, um artigo publicado no De Rerum Natura - 14 de Outubro de 2011


"Educação: o futuro de Portugal" foi o tema da sessão desta quinta-feira do ciclo "Grandes Debates do Regime", que decorreu, como tem sido hábito, no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Carlos Fiolhais, professor catedrático de Física da Universidade de Coimbra, Artur Santos Silva, Presidente do Conselho de Administração do BPI e Marioa de Lurdes Rodrigues, ex-titular da pasta da Educação, foram os oradores convidados.

A taxa de abandono escolar precoce em jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos é, actualmente, "o maior flagelo" de Portugal no domínio educacional, segundo revelou Carlos Fiolhais, que abordou o tema da palestra num contexto europeu, recorrendo para isso a diversos indicadores comparativos com o cenário registado, ao longo das últimas décadas, na União Europeia (UE).

Segundo o docente da Universidade de Coimbra, que é também responsável pelo programa de Educação da Fundação Francisco Manuel dos Santos, essa taxa, que em 2000 se cifrava nos 44%, desceu para 31% em 2009, um resultado positivo, mas que, na sua óptica, ainda é "mau", pelo facto de a UE ter registado uma média de 14% e pretender chegar a 10%, em 2020.

"Melhorámos bastante neste domínio, mas ainda estamos muito longe das metas pretendidas, pois, pior do que nós, só Malta", adiantou, referindo que, em Portugal, a taxa de abandono escolar é mais elevada nos homens do que nas mulheres.

Para Carlos Fiolhais, o grau de qualificação dos portugueses é, de uma forma geral, muito baixo, consequência - adiantou - de um forte "passivo" acumulado a esse nível ao longo dos anos. A percentagem da população activa com um grau superior nas áreas da ciência e tecnologia, ou equivalente, coloca Portugal no fundo da tabela europeia, entre a Roménia e a Turquia.

Em contrapartida, de 2000 a 2008, Portugal foi o país da UE que mais cresceu (193%!) em termos da formação de alunos diplomados em Ciência e Tecnologia, contribuindo assim para que o objectivo europeu de crescimento, que era apenas de 15%, tivesse sido largamente superado.

Ao nível da Ciência, que, para o orador, é indissociável da Educação ("sem Educação não há Ciência", afirmou), destaque para o facto de Portugal figurar no quarto lugar a nível europeu, no que respeita à percentagem de mulheres cientistas.

No entanto, apesar dos progressos registados, ainda há, em sua opinião, um défice acentuado no ensino das ciências, no que qualificou de "literacia científica". "O nosso problema, hoje, já não é, felizmente, o analfabetismo, mas sim o que poderemos chamar de 'analfabetismo científico'", observou, preconizando a necessidade de "mais e melhor Ciência, em particular na escola básica, incluindo até no jardim-de-infância.

"O factor chave é a preparação do professor ou educador, pois só alguém que trate a Ciência por tu a consegue transmitir aos jovens", afirmou Fiolhais, confessando nunca ter compreendido o significado do velho aforismo de que é "de pequenino que se torce o pepino".

"Nunca percebi essa história do pepino, pois é de pequenino que se torce o... destino", concluiu.



Ver intervenções na íntegra do Professor Carlos Fiolhais, Doutor Santos Silva e Professora M Lurdes Rodrigues aqui.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O que falta a israelitas e palestinianos





Entrevista exclusiva do repórter Henrique Cymerman a Mahmoud Abbas, o líder que, ao pedir diretamente na ONU o reconhecimento do Estado Palestiniano, transformou as relações de poder na região e recolocou a diplomacia em primeiro plano.

Nesta entrevista, Abbas analisa o que ainda é necessário para resolver o conflito e afirma que uma negociação pacífica é imprescindível.

“Estou a lutar por um direito nas Nações Unidas que o Sudão do Sul conseguiu em apenas meia hora. Por que é que este direito tem que ser protelado e sofrer obstáculos e restrições?
Não há lógica”, questiona Abbas.


A Palestina apresentou oficialmente o seu pedido para ser membro de pleno direito da Organização das Nações Unidas (ONU), há duas semanas em Nova Iorque. Um momento histórico porque pode mudar a geografia da zona mais problemática dos conflitos mundiais.
O porta-voz desse pedido, que divide o Mundo, foi naturalmente o actual líder da Palestina, Mahmoud Abbas.

Excelente trabalho jornalístico num momento de grande apreensão para o mundo.
Excelente trabalho em prol da Paz e da Harmonia entre estes dois povos.

Nelson Mandela


Há pessoas que nunca se esquecem e imagens que nos ficam para sempre.

Era pequenita, sim, mas ainda me lembro de ver lá em casa, no jornal, a foto de Mandela no dia em que entrara na prisão - jovem, muito jovem - com outra ao lado, já mais envelhecido, mas com o mesmo olhar, o mesmo sorriso.

E chocou-me ter sabido que esse fora o preço da sua luta pela liberdade e dignidade do povo sul-africano, dos negros sul-africanos, sistematicamente humilhados e violentados pelo terrível e monstruoso regime do apartheid.

Foi nesse dia que conheci e passei a admirar Nelson Mandela para sempre. A admirar a sua coragem e determinação, a sua inteligência, a sua bondade, a sua capacidade de entrega à luta pela liberdade e pelos direitos cívicos e políticos, sempre negados e roubados ao seu povo, de forma vil e desonesta, desumana e criminosa.

A 26 de Junho de 1961, o Dia da Liberdade dos opositores ao apartheid, Mandela, dirigindo-se à imprensa londrina, dizia aos seus compatriotas:

“Lutarei contra o governo, lado a lado convosco, metro após metro, milha após milha, até que seja alcançada a vitória. O que querem fazer? (…) Da minha parte, a decisão está tomada. Nem deixarei a África do Sul nem me renderei. A liberdade só pode ser alcançada através de sofrimento, sacrifício e acção militante. A luta é a minha vida. Lutarei pela liberdade até ao fim dos meus dias”.

Que palavras e que força, a deste homem, que cumpriu 10.000 dias de cativeiro!

O livro NELSON MANDELA, de Albrecht Hageman, editado pelo Expresso este ano e com prefácio do jornalista Mário Crespo, é um livro fabuloso e riquíssimo, quer para a história da vida de Mandela quer para a história do apartheid e da África do Sul.

E que ensinamentos dele retiramos!

No ano passado, no dia do seu aniversário, Mandela decidiu convidar antigos guardas prisionais da cadeia de alta segurança de Robben Island, onde esteve preso, sendo o seu carcereiro um dos convidados de honra.
É extraordinário este gesto de Nelson Mandela!

Quem conhece a minúscula cela onde viveu e sofreu longas penas diz que a sua capacidade de perdão é inesgotável.

Um grande ser humano que um dia dissera que em lutas e jogos com os da sua idade reconhecia que humilhar outra pessoa significaria submetê-la a um destino desnecessariamente cruel, e que aprendera desde pequeno a vencer o seu adversário sem o desonrar.

Mandela, que o teu exemplo permaneça para sempre! Como o dos meus pais, que, ainda pequenita, me falaram de ti.


Nazaré Oliveira



Obs.: Vale a pena ler, também, Um Longo Caminho Para a Liberdade, a autobiografia em que Nelson Mandela relata episódios incríveis da sua vida.

Jurrasic Park

Jurassic Park - Grande filme, grande realização, excelente banda sonora!

Liberdade - Ensaio sobre um novo compromisso social pela Educação

Com a devida vénia, um excelente artigo do Sr. Dr. Guilherme d`Oliveira Martins, publicado no blogue do Centro Nacional de Cultura no dia 3.10.2011.

«Liberdade– Ensaio sobre um novo compromisso social pela Educação» de Joaquim Azevedo (Fundação Manuel Leão, 2011) é um conjunto de reflexões sobre a educação e a aprendizagem de alguém que conhece bem esse mundo e que nos propõe, com seriedade, pistas de ação, para além dos lugares comuns e das simplificações que tantas vezes são ouvidas quando se trata destes temas.

DIGNIDADE E AUTORIA

Começo por referir um amigo comum, que nos deixou não há muito e que Joaquim Azevedo cita no início deste seu livro – falo de Joaquim Pinto Machado, cidadão exemplar, homem bom, que ao longo da vida nunca se poupou na tarefa de pôr a dignidade e a liberdade no primeiro lugar das preocupações da sociedade portuguesa. Disse ele, um dia, «a dignidade do ser humano é ser autor». Esta referência é fundamental e está ligada à ideia de «autoridade moral», já que etimologicamente vem da autoria, da criatividade, da responsabilidade, da afirmação prática da dignidade. Ao longo da vida, ouvi sempre Joaquim Pinto Machado a falar dos valores éticos enraizados na vida, ligados ao facto de a pessoa humana ter de ser colocada no centro da história e da sociedade. E quando falamos de educação é essa centralidade que tem de ser afirmada (como no-lo ensinou, por exemplo, Henri Marrou). Tenho encontrado, porém, uma grande dificuldade em debater seriamente os temas da educação, há demasiados preconceitos e grandes resistências a pôr na mesa o que realmente está em causa. Há muitas pessoas convencidas de que têm soluções, mas assentam em pressupostos tantas vezes errados que prejudicam seriamente a apresentação de pistas viáveis no sentido de melhorar a educação e a aprendizagem e de as tornar um fator de exigência e de qualidade. Este livro de Joaquim Azevedo é um contributo sereno para o debate. Contém uma análise correta, fundamentada e recusa a demagogia simplificadora.

UM CAMINHO DE PROGRESSOS

Ao falarmos de Educação temos de começar por dizer, como faz o autor desta obra, que vivemos em Portugal nos últimos quarenta anos um caminho longo de progressos, mas também de perplexidades, de avanços e recuos. Em 1974, havia vinte cinco por cento de analfabetos, que era a taxa mais elevada da Europa, a grande distância dos demais Estados. Apesar dos esforços efetivos, sobretudo depois do final dos anos sessenta, em razão da internacionalização e do fim da autarcia, a democratização ocorreu como consequência direta da nova ordem constitucional iniciada em 1974, consolidada a partir de 1976 e 1982, e que deu lugar à Lei de Bases do Sistema Educativo de 1986. No entanto, houve desde o início hesitações e erros com consequências irreversíveis, em especial a prevalência de uma via única no ensino secundário, ao invés da diversidade prevista na reforma não concretizada de Veiga Simão. E importa reconhecer que desde muito cedo o autor deste livro teve a exata compreensão do papel crucial que o ensino secundário desempenha – como resultou da sua ação no âmbito das escolas profissionais, experiência fundamental para romper a velha inércia da indiferenciação de vias. De facto, como nos diz Joaquim Azevedo: «não podemos oferecer o mesmo tipo de formação a todos, pensando que estamos a oferecer o melhor percurso a cada um» (p.55). E o certo é que «o sistema escolar continua muito ineficaz e ineficiente, sobretudo nas transições entre ciclos de estudo e no ensino secundário» (id.). Impõe-se, assim, inscrever a educação no espaço público. Se o «santuário ruiu» (porque o saber deixou de ser administrado isoladamente do mundo, acessível a poucos, passando a apontar-se para uma escola de qualidade para todos) é fundamental empenharmo-nos em superar os bloqueamentos perante os quais estamos: a educação não é um problema técnico, mas político e de cidadania; exige o apoio às famílias; a diferenciação das aprendizagens; a mobilização dos professores para as tarefas que lhes cabem; o estabelecimento de um clima de confiança com as escolas, de modo a favorecer a autonomia; o primado da responsabilização; a superação da dicotomia Estado / mercado; e a recusa do populismo, do cinismo e da demagogia. Em vez da desconfiança e da irresponsabilidade, do que se trata é de pôr a autonomia como ideia e prática no centro do funcionamento das escolas.

LEMBRAR CELESTIANO…

O velho Celestiano, de Mia Couto, acusa a facilidade quando diz «onde é sempre meio-dia, tudo é noturno». De facto, a facilidade na escola, a festa e a tentação de deixar tudo pela rama, tem consequências dramáticas. O que distingue o progresso do atraso é a capacidade de aprender. Não basta investir em Educação, importa traduzir as apostas em qualidade, exigência, avaliação e prestação de contas (no sentido da responsabilidade cidadã). E quando se discute se o objetivo da educação é a preparação para o mercado trabalho – temos de contrapor, com coragem e determinação, que formamos pessoas, que queremos criar cidadãos livres e responsáveis – os bons profissionais virão por acréscimo. Daí que a autonomia seja pedagogicamente ativa – exerce-se em nome da cidadania responsável, por contraponto à irresponsabilidade. Por isso a autonomia assenta: na pessoa humana, no centro da escola, na solidariedade como método de entreajuda e cooperação e na subsidiariedade, resolvendo os problemas o mais próximo possível das pessoas. Mas exercer a autonomia, tornando a escola central e não periférica, obriga ao gradualismo, ao aperfeiçoamento permanente, e ao exercício das tarefas cometidas a cada um. O triângulo escola / família / comunidade tem de ser levado a sério. Os pais devem participar na escola, mas não confundir o seu papel com o dos professores - têm de interagir com a escola. Infelizmente, ou chegam tarde demais ou invadem territórios dos profissionais. O equilíbrio é fundamental – nem tarde demais nem para além do desejável.

O SERVIÇO PÚBLICO DE EDUCAÇÃO

Como defendi com Eduardo Marçal Grilo, o serviço público de educação não pode resumir-se à iniciativa estatal. Estamos perante a necessária complementaridade de iniciativas, uma rede de escolas com estatutos diferentes, exercendo cada vez mais a sua autonomia, com um objetivo comum. E a verdade é que as escolas devem ser mais autónomas e ativas, como lugares de trabalho, de liberdade e de democracia. Eis por que razão concordo com Joaquim Azevedo sobre a necessidade de uma visão antimonopolística, policêntrica, com uma autêntica regulação responsabilizadora nas escolas. Assim, a interação entre a pessoa e a comunidade, a vivência da laicidade (por contraponto ao laicismo), a sociedade providência e a solidariedade voluntária (ou a importância crescente da responsabilidade social) tornam a rede escolar como ponto de encontro de diversas iniciativas, que tem de valorizar a aprendizagem. A ideia de compromisso surge, assim, com naturalidade: a partir do empenhamento pessoal e cívico (engagement), do exercício da autonomia, do acordo e da cooperação em nome do bem comum e de uma auto-avaliação praticada por escolas que aprendem. «Escolham o que escolherem fazer com a vossa vida, garanto-vos que não será possível a não ser que estudem» (Obama). Trabalho, disciplina, profissionalismo – eis o que tem de estar presente quando falamos de educação de qualidade para todos. E em nome da esperança e do aperfeiçoamento gradual, melhor educação terá de significar: ensinar a pensar, favorecer a responsabilidade pública, ter amor à aprendizagem e ao sentido crítico, garantir oportunidades para todos, incentivar a qualidade, a confiança, a inclusão e a cooperação. No fundo, «a educação é essa “arte” de promover o desenvolvimento humano de cada pessoa, que só se des-envolve verdadeiramente na medida em que é acolhida pelo outro, que lhe dá em si um lugar; o outro des-oculta-me solidariamente, convocando toda a comunidade indizível que me habita» (p.124). Jorge de Sena diria: «uma pequena luz bruxuleante / brilhando incerta mas brilhando».

Guilherme d'Oliveira Martins

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Reflexão sobre o erro

Toda a minha obra pode ser entendida como uma reflexão sobre o erro. Sim, sobre o erro como verdade instalada e por isso suspeitosa, sobre o erro como deturpação intencional de factos, sobre o erro como ilusão dos sentidos e da mente, mas também sobre o erro como ponto necessário para chegar ao conhecimento.

«Nesta compilação (...) oferece-se um amplo repertório de palavras suas [de José Saramago] extraídas exclusivamente de jornais, revistas e livros de entrevistas (...) num leque cronológico que abrange a segunda metade dos anos setenta e vai até Março de 2009. Os extractos seleccionados foram obtidos a partir de um vasto corpus de declarações publicadas em países muito diversos: Portugal, Espanha, Brasil, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, Argentina, Cuba, Colômbia, Peru... (...). Este é, enfim, um livro dos muitos possíveis que se poderiam apresentar sob a orientação que o anima e é, ainda assim, uma obra aberta, que não se esgota na literalidade que aqui é adoptada, com a vontade, não obstante, de esboçar uma arquitectura ideológico-social saramaguiana idónea, de dar consistência a uma identidade precisa.»


Soy un grito de dolor e indignación”, ABC (Suplemento El Semanal), Madrid, 7-13 de Janeiro de 2001. In José Saramago nas Suas Palavras, Fundação José Saramago.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

The Feynman Series


No De Rerum Natura! Que maravilha!

Já conhecíamos a The Sagan Series, o soberbo projecto multimédia que ilustra com imagens notáveis o pensamento e a voz de Carl Sagan (sobretudo retirados do livro "O Ponto Azul Claro" que, em boa hora, a Gradiva decidiu reeditar). Eis que agora surge, da mesma equipa, o The Feynman Series - Richard P. Feynman -, exactamente com a mesma receita. Já vai em 3 vídeos, deixo-vos o primeiro...


Posted by Miguel Gonçalves

A lição afegã



A guerra no Afeganistão tornou-se na mais longa e mais cara na história dos Estados Unidos. O amplo apoio internacional após o 11 de Setembro deu-lhe rumo: intervenção punitiva ao santuário da Al-Qaeda ao abrigo da legítima defesa apoiada pelas Nações Unidas. Mas à medida que o Iraque se impôs, o Afeganistão foi votado ao esquecimento e as baterias foram centradas em Bagdad. Depois das trapalhadas do início e perante os interesses regionais em disputa, a responsabilidade de Washington na frente iraquiana subiu em flecha. Só depois do sucesso desta surge (2007- -2008) é que o Afeganistão voltou a estar na agenda. Primeiro, porque quase tudo corria mal. Segundo, porque era difícil justificar aos eleitorados como é que uma guerra punitiva levava dez anos. Terceiro, porque Washington entendeu apontar um fim a esta história: Iraque em 2011, Afeganistão em 2014. Barack Obama, sabendo que não tem margem para anunciar vitórias, prefere uma não derrota a eternizar duas frentes que secaram os cofres do Tesouro e que exigem soluções económicas rápidas. Só que ninguém está disponível para as pagar. A grande reflexão sobre o Afeganistão está na inexequibilidade de guerras duradouras com o objectivo (assumido ou escondido) de erguer nações ou estados. Punir é uma coisa; construir um país é outra. E não é aos exércitos que cabe esta tarefa.
Sem solução à vista, resta a estratégia de pequenos passos. Retirar sem ser expulso; eliminar talibãs e terroristas da Al-Qaeda e da Haqqani; trazer Islamabad para as soluções (o acordo com Cabul de comércio e trânsito é bom sinal); aumentar os salários dos militares e dos polícias afegãos; dinamizar as economias locais reduzindo a dependência do comércio do ópio; encontrar substituto para Hamid Karzai até terminar a missão NATO. É preferível conquistar pequenos passos a tentar enfiar utopias revolucionárias no Hindu Kush. Dez anos depois, fica a lição.

Bernardo P. de Lima in DN de 6.10.11

Mais informação:
http://www.clickescolar.com.br/os-conflitos-no-afeganistao.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Invas%C3%A3o_sovi%C3%A9tica_do_Afeganist%C3%A3o

A Europa ainda me faz sonhar

Há poucos anos atrás, um político europeu afirmou que a Europa já não fazia sonhar. Hoje talvez dissesse que a Europa já nem nos deixa dormir. Todavia, o projecto europeu é mesmo um sonho, ou seja, quando começou parecia improvável que durasse muito tempo e impossível que chegasse onde chegou. Basta perguntar a qualquer pessoa com pelo menos 18 anos em 1945.

Então o que se passa? Qual a razão para o fim do sonho?

Num texto anterior, defendi que a crise europeia tinha sobretudo como causa a perda da “Ideia de Europa”, isto é, dos valores europeus fundadores. A União Europeia (UE) não é um projecto económico (embora também seja); é a Europa politicamente organizada em torno dos princípios fundamentais partilhados por todos os seus membros, sendo a economia subsidiária destes.

Como então escrevi, citando Timothy Garton Ash, é possível identificar 6 valores europeus primordiais: liberdade, paz, lei, prosperidade, diversidade e solidariedade. A construção europeia ou é isto, ou não é nada, e se os valores não prevalecerem sobre a visão meramente económica a UE acabará mais cedo ou mais tarde.

Em relação à liberdade, vale a pena fazer o seguinte exercício: olhar para um mapa da Europa e comparar os países democráticos em 1945 e em 2011. Constatamos então que há 6 décadas atrás apenas quatro países podiam ser considerados democráticos - Grã-Bretanha, Suíça, Suécia e Irlanda –; hoje apenas um pode ser considerado autoritário – a Bielorrússia (a Rússia é um caso particular que merece um artigo à parte). Ou seja, a quase totalidade dos europeus é hoje livre, o que não tem precedentes na história do continente. E, embora tal tenha acontecido devido ao desejo de liberdade das pessoas, como referiram Geoffrey Pridham, Laurence Whitehead e Philippe Schmitter a perspectiva de adesão à Comunidade Europeia constituiu um forte incentivo à transição da ditadura para a democracia na Europa do Sul, Central e de Leste.

Quanto à paz, vale a pena voltar a Garton Ash e referir a sua imagem, simples mas esclarecedora, da transferência das batalhas dos campos de Verdun e Somme para os campos de futebol do Parque dos Príncipes ou do Allianz Arena. Na realidade, durante vários séculos a Europa esteve permanentemente em guerra; hoje é a região mais pacífica do mundo e para isso foi decisiva a existência da União Europeia como um sistema de resolução institucionalizada e permanente de conflitos, permitindo assim a eliminação do uso da força militar como forma de decisão das disputas entre os Estados. Um bom exemplo do papel desempenhado pela UE na garantia de uma ordem pacífica no seu seio pode ser encontrado no facto de ser impensável uma guerra entre a França e a Alemanha, ao mesmo tempo que ainda recentemente e não muito longe a Rússia invadia a Geórgia.

No caso da lei, não há ninguém que conteste que a esmagadora maioria dos europeus vive hoje num Estado de Direito. Mas não só nem sempre foi assim, como tal não se verifica em grande parte do mundo mesmo em 2011, havendo pelos menos dois terços da humanidade a viver à margem do “governo pela lei”. Presentemente, ninguém discute que na UE homens e mulheres, ricos e pobres, católicos e protestantes, judeus e muçulmanos são à partida iguais perante a lei. Para além dos progressos ocorridos ao nível nacional na última meia década, ocorreram igualmente evoluções assinaláveis ao nível da União Europeia, desde logo no aperfeiçoamento do funcionamento do seu Tribunal de Justiça, mas também no papel desempenhado pela imposição judicial das leis europeias no plano das chamadas «quatro liberdades» que permitem aos cidadãos dos Estados membros poderem viajar, viver, trabalhar e adquirir bens onde quiserem na maioria do espaço geográfico Europeu.

O quarto valor primordial – a prosperidade – deve ser permanentemente recordado a todos os cidadãos da Europa, sobretudo no contexto económico em que vivem desde o colapso do Lehman Brothers, em 2008. A este respeito, como diz Ash, vale a pena voltar a abrir o livro de fotografias de Henri Cartier-Bresson, intitulado “Europeus”, que nos recorda a pobreza que ainda existia na Europa nos anos 1950. A verdade simples é esta: os europeus nunca viveram materialmente tão bem como actualmente. A grande maioria deles vive melhor do que os seus pais e muito melhor do que os seus avós – os rendimentos per capita nunca foram tão elevados, a esperança média de vida é a maior de sempre da história, o nível de mortalidade infantil o mais baixo, as habitações são melhores e mais confortáveis, o acesso à comida e a sua qualidade e diversidade não têm precedentes - e, ao contrário do que dizem alguns economistas, não há nenhuma indicador estrutural que nos condene a um futuro em que tudo será pior.

Também o valor da diversidade tem de ser repetido todos os dias pelos líderes europeus, em vez de irem pelo caminho fácil do populismo xenófobo. Como nos recorda o músico português Fausto (e a mitologia grega), a Europa nasceu na Ásia profunda e é filha do rei Fenício Agenor. Ela é uma miscelânea de histórias, etnias, línguas e religiões, com várias unidades nacionais e suas respectivas especificidades, o que pode ser demonstrado pela simples leitura de um dicionário. Depois de vários séculos em que as diferentes nacionalidades se mataram umas às outras (isto mesmo antes de existir a própria ideia de nacionalidade), a União Europeia conseguiu arranjar a mais avançada forma de integração da diversidade, com respeito pela diferença. Um exemplo simples, mas excelente, disso mesmo é o programa europeu de intercâmbio universitário - Programa Erasmus -, que permite aos jovens de universidades de vários países estudarem durante um período de tempo num outro Estado membro, conhecendo assim não só as suas realidades académicas, mas também as suas especificidades culturais.

Finalmente, a solidariedade, um valor com uma importância acrescida nos dias de hoje e a condição indispensável à própria sobrevivência da UE. O primeiro pilar da solidariedade na Europa unida é o Estado Social Europeu, uma combinação de criação de riqueza com justiça e segurança social, que tem de ser reformado, mas para o manter e não para o eliminar. O segundo pilar consiste na solidariedade dos países mais ricos para com os mais pobres, expressa por exemplo em duas décadas de concessão de fundos comunitários.

Tal como defendi no texto já mencionado, e do qual recupero agora algumas ideias por me parecer que elas são hoje mais importantes do que em qualquer momento no passado, a reflexão, o discurso e a acção na Europa não podem reduzir-se apenas à sua dimensão material, têm de ser sobretudo acerca da sua dimensão político, com destaque para os seis valores europeus primordiais. E estes têm mesmo de ser aprofundados, em direcção a uma Europa federal.

Uma União Europeia económica até pode sobreviver à actual crise. Mas não sobreviverá à próxima. E sem a Europa Unida os europeus voltarão ao hábito secular de se matarem uns aos outros.

http://www.ipri.pt/publicacoes/working_paper/working_paper.php?idp=699

Waiting for the barbarians

Simplesmente...fantástico!
 Que lucidez! Que força!

domingo, 9 de outubro de 2011

Dois brasileiros

João Gilberto e Elis Regina:

Dois brasileiros que nunca esquecerei. Dois trabalhos fabulosos!


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Um video publicitário colombiano feito na altura do REFERENDO (para acabar com os maus tratos nos animais, caso da tauromaquia, considerada legal).

Producción: Juan David Zuluaga, Ana Maria Moreno, Breimer Sánchez.

sábado, 8 de outubro de 2011

Só o conhecimento libertará

Os pró-touradas, os aficionados, sempre com os mesmos argumentos ao longo de séculos e séculos, seja cá ou noutro país, completamente alheados dos estudos e da investigação séria que tem sido feita nestes últimos anos, insistem na recusa de serem esclarecidos ou até de dialogarem seriamente sobre esta matéria.

Aliás, nem seria preciso, já que a barbaridade, tortura e sofrimento, quando e porque existem, são desde logo motivo e condição sine qua non para acabar com esse espectáculo degradante e inqualificável.

Que extraordinárias as intervenções de Pilar Rahola no vídeo que anexo!

É muito importante trocar informações e, obviamente, esclarecer, dar a conhecer, sendo esta a perspectiva em que me coloco sempre, como pessoa que defende a dignidade para animais humanos e não humanos, e que considera que o esclarecimento honesto será a única forma das pessoas tomarem posição e decidirem sobre o fim desse espectáculo macabro – a tourada – entre outros.

Mas as pessoas têm que querer conhecer a outra parte. Ouvir os depoimentos até ao fim, ler os artigos até ao fim, ver os documentários até ao fim por muito que lhes custe, tal o horror que sempre esconde quem torturado está a ser ou quem numa agonia e morte lenta se esvai em sangue ou procura, a todo o custo, um olhar de compaixão ou misericórdia.

Sei que é difícil para certas pessoas aceitarem estes esclarecimentos humanamente e cientificamente comprovados. Indesmentíveis. No entanto, é condição fundamental para uma partilha de opiniões sensata e desejável não nos tornarmos inamovíveis nas nossas crenças, quando achamos que nada mais há a não ser nós próprios. Desse modo, garantidamente, enquistaremos, daí resultando, com toda a certeza, a conflitualidade interior que os afficionados vêm demonstrando.

Alguns deles têm-me dito “ De facto às vezes pergunto como é possível eu adorar animais e gostar de touradas?", e isto, sem falar da velha e gasta resposta que é dizerem que as touradas devem existir porque é tradição! Como se o facto de ser tradição fosse, por si só, justificação para desumanidades, barbaridades, condenação ao sofrimento e à morte.

Isto vem, de alguma forma provar a sua insegurança quanto à questão fulcral, isto é, sabem que o touro sofre, reconhecem que sofre, mas, em nome da "arte", da “tradição”, da satisfação dos “seus prazeres”, aceitam as touradas, ali, e nem querem saber ou questionar, nem o antes nem o depois. Só o “agora”.

Arte? Porquê Arte?

Que concepção têm de Arte? Será que querem dizer Arte de Matar?

Um homicida, um assassino que mata "com requintes de malvadez" (e vocês sabem que muitos planeiam a morte lenta de alguém, tal como fazem com o touro) criando estratégias para esse fim, sedentas de sangue, cenários de horror, psicopatas, ditadores que planearam e planeiam genocídios, o holocausto, enfim, pessoas para quem torturar é e foi diversão e até excitação, exorcizando desse modo recalcamentos do foro sexual, gente que, com toda a certeza, transporta em si inadaptações várias, desajustamentos de toda a ordem e patologias e comportamentos desviantes que a psiquiatria tão bem sinaliza e a própria Psicologia vem demonstrando.

Em pessoas que conheço, que conheço muito bem, e mesmo nos comentários que tenho lido nos jornais, redes sociais e até nas afirmações de certas figuras (figurinhas!) na TV, vislumbra-se perfeitamente, até nos gestos e semblante dessas pessoas, sem falar da sua vida pública e dos relacionamentos pessoais, amorosos e familiares que tanto expõem descaradamente, que são pessoas com problemas de natureza afectivo-emocional, de sociabilização, escondendo-se por detrás das profissões que têm, das roupas de marca que usam, das festas “in” aonde vão, dos “amigos” com os quais posam, das revistecas onde saem, dos enquadramentos familiares claramente ensaiados pelo marketing que os consome e deles tudo faz, até gente infeliz, completamente rendidos ao brilho efémero de uma socialité podre e devassa, na qual, mais tarde ou mais cedo, sucumbirão.

Deixam transparecer uma dureza e uma força que não existe para esconder sentimentos de culpa ou uma vida de fingimento, esforçando-se por mostrar aquilo que na realidade não são nem nunca conseguirão ser – gente com ética, gente com humanidade.

Na realidade, vivem sempre de algo e com algo emprestado, copiado, imitado! As suas relações sociais e amistosas são interesseiras e tudo fazem para conseguir favores de outrem, nem que para isso vendam a alma ao Diabo ou ao diabo do lobby tauromáquico, ou mesmo, aos ditos “artistas” toureiros, bem instalados nas suas propriedades ou “maisons” ou rondando as propriedades dos mayorais engordados com o sangue dos inocentes que sádica e insistentemente preparam para o sacrifício final, desde que nascem até ao ferro em brasa que cobarde e cruelmente lhe aplicam, bebendo sofregamente o seu sangue com o mesmo sorriso que fazem para a fotografia quando, grotescamente, se arreganham os dentes e se auto-promovem, pavoneiam e vangloriam por terem sido o pior dos cruéis, os mais ousados na coragem de matar por matar, inebriados com a ideia de uma heroicidade nacional que nunca terão porque de cobardia a História nunca se fará.

Uma certa imprensa vende-os, como tal, num marketing de ocasião que enjoa e enoja.

Todos os meios justificam o fim, e é vê-los a entrar e a fotografar as suas casas, vê-los a abrir as portas das suas casas, bonacheirões, arrogantes, com gestos ensaiados e os sorrisos postiços de quem só de verdadeiro tem a falta de dignidade e sentido de humanidade.

Só o verdadeiro conhecimento das coisas e da realidade fará com que os amantes das touradas passem a condená-las. Os amantes das touradas que compram o bilhete para a ver, que comodamente, nas suas casas, a vêem na TV, porque, os cavaleiros tauromáquicos, os toureiros a pé, os forcados, os ganadeiros e tantos mais, esses, sabem bem o que se esconde e o que que querem que se não saiba.
E a mudança começará aqui: no esclarecimento sobre a realidade total, frontalmente apresentada ao público, sem artimanhas ou meias-verdades.

As redes sociais têm sido fantásticas e continuarão a sê-lo cada vez mais relativamente à informação e esclarecimento que têm dado para que a verdade se saiba e  se combata a ignorância e a repressão. Para a construção do Humanismo, que olhe o outro de igual para igual e o respeite até na diferença, vendo nessa diferença um meio de enriquecimento cultural e cívico e o fortalecimento de uma diálogo civilizacional que não se fique pela teoria nem por acordos ou tratados.

Lamentavelmente, até uma certa Igreja, um certo clero, uns certos cristãos, de forma aviltante, despudorada e cínica, ovacionam a morte lenta do nobre animal na arena com as mesmas mãos que nas suas missas dominicais ou confessionários lhes permitem o mea culpa de uma catarse feita de mentiras e hipocrisias.

Eu já nem sei se alguém apresentará contas a alguém, se há ou não Julgamento Final, se há ou não Juíz, juízes, se passam pelo fundo de uma agulha ou se não passam. O que sei é que o sofrimento é tanto e cada vez maior "aqui na terra", que há impunidades, prepotência, humilhação, morte, que vemos partir os que amamos e que tanta falta nos fazem (a nós e à humanidade) e que temos viva e bem viva esta corja empoleirada a sorrir sarcásticamente com o mal dos outros e a safar-se cada vez mais com esse mal e a dor que nos causa.

Dá-me asco, tudo isto. Sei que nem todos são iguais (na Igreja Católica e não só) mas, não podemos continuar a "aceitar" pacificamente esta justiça do "Pai perdoai-lhe que eles não sabem o que fazem", porque estamos fartíssimos de saber que eles sabem o que fazem, eles, os que ainda cá andam a espalhar a dor e a morte, perfeitamente tranquilos quanto ao tal Julgamento Final, no qual serão, obviamente, amnistiados por Deus, caso mostrem arrependimento depois do lastro de sangue e de terror que construíram durante TODA a sua vida.

Cada vez vejo mais sofrimento e injustiça na vida dos mais desfavorecidos e mais vulneráveis.

Temos que (continuar) a agir e a exigir.Em torno das Associações, na rua, no trabalho, em casa, nas redes sociais. Intervir, alertando a Assembleia da República e outros órgãos institucionais para a urgência de um referendo sobre o fim das touradas e para a urgência de legislação verdadeiramente exemplar que proteja os animais não humanos de algumas bestas humanas.

Fazem de conta que nada disto existe e que a cruel e sanguinária realidade da qual falamos e escrevemos é pura invenção.


Nazaré Oliveira


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O TOURO SOFRE. É INQUESTIONÁVEL.
VER, AQUI, DECLARAÇÕES DE ESPECIALISTA QUE PROVAM/COMPROVAM ESTA TERRÍVEL VERDADE QUE MUITOS SE RECUSAM A ACEITAR.

http://www.youtube.com/watch?v=xnZ2LQlb4Hs&feature=youtu.be


EXCELENTE DEBATE!
AS PALAVRAS DE PILAR RAHONA DIZEM TUDO!

http://www.youtube.com/watch?v=zB8nggDvy7s&feature=related

CUSTA VER MAS, COMO SÓ O CONHECIMENTO NOS LIBERTARÁ DA MENTIRA, AQUI DEIXO ALGUNS EXEMPLOS, VERÍDICOS, DE CRUELDADE SOBRE ANIMAIS:
http://youtu.be/WlkvSFhyEeM
http://youtu.be/xvEiZA1VESQ
http://youtu.be/uQEpIWyeg2w
http://youtu.be/eCNCaFuWRQM
http://youtu.be/l10VSpX-w9s
http://youtu.be/AKCblkTQCFU
http://youtu.be/7dOPnElQqKc
http://youtu.be/Hw0sajf07kA
http://youtu.be/BVirCMQaJQc


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Tell your children!


Um filme de Andras Salamon, pequeno mas intenso.
  
Ficção sobre os acontecimentos verídicos ocorridos em Janeiro de 1945, na Hungria, nas margens do Danúbio, e que nos proporciona, também, uma brutal ligação aos dias de hoje.

As redes sociais, actualmente, têm um papel importantíssimo para o esclarecimento, para a mobilização das pessoas contra os ditadores e o poder opressivo, contra a prepotência e a barbárie... A FAVOR DOS DIREITOS DOS HUMANOS E DOS NÃO HUMANOS.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A história de Francisco dos Santos e a República

Que história fantástica esta, a de Francisco dos Santos, que muito poucos devem conhecer! Uma história de vida que também se cruza com a história da 1ª REPÚBLICA!

Francisco dos Santos é o primeiro da direita, sentado na cadeira.
 Pouco depois da implantação da República, abriu-se concurso para o Busto que a simbolizasse.


Francisco dos Santos, que fora jogador de futebol da Casa Pia, do Sport Lisboa e do Sporting e que, durante os seus tempos de estudante em Roma chegara a capitão da Lazio, ganhou-o. Impressionante a história da vida dele!

O pai era um sapateiro pobre em Paiões, vilarejo de Rio de Mouro, Sintra e Francisco dos Santos tinha dois anos quando ele morreu de uma «tísica fulminante», em 1880. Por especiais diligências do pároco da freguesia entrou para a Casa Pia de Lisboa em 1887. Lá, em Belém, seis anos depois, Januário Barreto e Bruno José do Carmo espalham entre os colegas a «novidade do jogo da bola» - e logo ele, franzino, mostrou, desconcertante, o seu jeito no futebol, como já mostrara no desenho, na escultura.

Para que se matriculasse na Escola de Belas Artes, em 1893 a Casa Pia deu-lhe, para despesas, subsídio mensal de sete mil rei, e para que às aulas fosse «vestido e arranjado convenientemente» pagou-lhe «seis camisas de pano cru, seis lenços de algodão de cor, seis pares de meias, três calças de brim, três calças de mescla, três ceroulas de pano cru, três jalecos de baetilha, três jaquetas de riscado, duas jaquetas de mescla, dois pares de sapatos e, ainda, uma unidade dos seguintes objectos - bonnet de pano azul, botins, escova para calçado, escova para dentes, escova para fato, jaqueta de pano azul, pente, saco de estopa e um bosquejo métrico», lê-se em documento de então.

Cinco anos volvidos terminou o curso com «distinção e medalha de prata».

Em 1903 ganhou um concurso de Escultura para pensionista na Escola de Belas Artes de Paris.

Dava para pouco, a bolsa, no Inverno. Faltando-lhe o dinheiro para o combustível do fogão, «embrulhava o corpo em folhas do Le Fígaro e do Le Matin e cobria-o com os fatos roçados que tinha». Era assim que se aquecia, e conta-se que arranjava ele próprio as botas que se esburacavam duravam uma década.

Casou-se com Nadine Dubose, e quando passava por Portugal nunca deixava de jogar oficialmente futebol pelo Sport Lisboa, que antigos colegas da Casa Pia ajudaram a fundar, em Belém.

Através de um subsídio Valmor em 1906 foi estudar para Roma.

Complicadas continuaram as finanças, sobretudo quando foi vítima de atraso no pagamento da bolsa, porque a «prova de assiduidade», obra denominada Crepúsculo, se perdeu num armazém da alfândega. Teve, então, de viver seis meses a crédito do senhorio, dando aulas de francês para pagar a comida. Nasceu-lhe o filho. Iam-lhes valendo os vizinhos que aos Santos davam alimentos.

Na esperança de que isso pudesse compor-lhe o orçamento, ofereceu-se para futebolista da Lazio, e assim se tornou o primeiro português a jogar no estrangeiro. Em 1907, já era capitão de equipa.

Épico foi o desafio que fez em Pisa: mesmo com duas costelas partidas num choque com adversário que fracturou seis e foi de escantilhão para o hospital, Francisco dos Santos continuou em campo. E a crónica do primeiro derby entre a Lazio e a Roma, na Gazetta dello Sport de 20 de Janeiro de 1908, ainda mais lhe afogueou a fama: «Em evidência estiveram o jovem Saraceni e o veterano Dos Santos, que com os seus 55 quilos foi impressionante e dos melhores em campo».

Em 1909, regressou a Portugal «com dezoito vinténs na algibeira».

Ainda jogou pelo Sporting, ajudou a fundar a Associação de Futebol de Lisboa e foi um dos seus primeiros árbitros. A partir daí, o seu prestígio alastrou e ele enriqueceu.

Logo após a revolução de 5 de Outubro, selos, cartazes, bilhetes postais, estampas, faianças, pisa-papéis, lenços de seda, tudo isso serviu, depressa, para propagação da ideia de que felicidade era a República, das imagens dos seus heróis. A moeda deixou de ser em réis, passou a ser em escudos. Dos nomes das ruas, dos teatros e dos clubes se afastou quase tudo o que tivesse a ver com monarquia.

A nova iconografia estendeu-se ao comércio e passaram a vender-se cigarros Presidente Arriaga e vinho do Porto Bernardino Machado, telhas Republicana e cacaus Democrata.

Foi ainda em 1910 que se lançou concurso para criação do Busto da República. Francisco dos Santos venceu-o. Contudo, por essa altura já havia outro. Dois anos depois, quando o Partido Republicano ganhou a Câmara de Lisboa, Braamcamp Freire, o seu presidente, encomendou-o a Simões d'Almeida (sobrinho), e essa foi a imagem que se usou, simbólica, nos funerais de Miguel Bombarda e Cândido dos Reis, e acabou por se sobrepor, em actos oficiais, moedas, brochuras, documentos, é a que está na Academia Nacional de Belas Artes (ANBA).

António Valdemar, o seu presidente, afirmou recentemente: «A peça em barro de Simões d'Almeida (sobrinho) criou a matriz e foi difícil à de Francisco Santos impor-se. Estava numa arrecadação e foi restaurada em 2009 pelo artista João Duarte». Não deixou, contudo, também de reconhecer: «O busto de Francisco dos Santos tem um toque mais de Paris, com uma mulher mais elegante, no de Simões d'Almeida (sobrinho) a mulher é mais portuguesa, com os seios mais fartos», e não muito antes, numa publicação do Grande Oriente Lusitano, lamentava-se: «O busto oficial da República, o de Francisco dos Santos, o mais belo, é capaz de ser o mais esquecido».

Para além da Estátua do Marquês de Pombal, são dele (de Francisco dos Santos) outros importantes monumentos: Marinheiro Ao Leme, no Cais do Sodré, Prometeu, no Jardim Constantino, e o Túmulo de Gomes Leal no Cemitério do Alto de São João. Também foi pintor e deixou o seu percurso marcado pelo nu feminino, de linhas sinuosas e movimentadas, a sensualidade da carne transporta para a pedra. Salomé Dançando, que esculpiu em 1913, é considerada por naipe largo de críticos a sua obra-prima. Fernando Pamplona viu-a assim: «Um belo corpo serpentino e rojo, em que o pecado da luxúria palpita e vibra em toda a sua fascinação terrível e mortal». Sobre a A Esfinge, o poético, o olhar de Aquilino Ribeiro: «Mimosa, duma impressão soberana, um pedaço de mármore onde passa uma pura e alta emoção de arte. Tendo a finura da La Pensée de Rodin, é mostra perfeita da mão nervosa e maleável». Igual deslumbramento pôs em Um Beijo e Nina – e Albino Forjaz Sampaio fez assim a síntese da sua obra: «Prende-nos os sentidos, faz pensar, faz sentir».

Quando Francisco dos Santos morreu, em 1930, com 58 anos, António Couto, arquitecto que fora seu companheiro no futebol da Casa Pia, do Sport Lisboa e do Sporting, traçou-lhe, emocionado, o retrato, e Carlos Enes reproduziu-o assim na biografia que lhe escreveu:

«Foi dos artistas do seu tempo o que mais trabalhou, o que mais modelos expôs, o que mais obras vendeu. A prosperidade material reflectiu-se na pequena barriguinha que lhe foi crescendo. Contudo, manteve-se sempre mexido, jovial e ruidoso, com as mãos atrás das costas e o chapéu às três pancadas, dando um ar de comerciante feliz nos negócios. Apesar de não o parecer, pelo seu feitio despretensioso, era bastante inteligente e culto, um musicólogo apaixonadíssimo, com presença assídua em concertos e, acima de tudo, um grande homem, um grande coração».

fonte cons.: http://www.abola.pt/mundos/ver.aspx?id=198302

VOTAREMOS APENAS EM CANDIDATOS QUE NÃO ESTEJAM COMPROMETIDOS COM A SELVAJARIA TAUROMÁQUICA

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