quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

UCRÂNIA - Quatro anos de tanto sofrimento, tanta crueldade, tanta injustiça!



Chegamos a 2025-2026 esperando que o conflito entre numa fase final, pois as movimentações diplomáticas sucedem-se a grande ritmo. De momento, fica-se com a sensação de que a Ucrânia só precisa resistir. 


Ao fim de quatro anos, a guerra mais letal e sanguinária ocorrida no espaço europeu desde a II Guerra Mundial segue o seu curso. Ordenada por Vladimir Putin a 24 de fevereiro de 2022, já ceifou a vida a dezenas de milhares de civis e centenas de milhares de militares de ambos os lados. A verdade é que o Kremlin esperava que as suas forças assumissem o controlo total da Ucrânia em apenas 10 dias, conforme refere um estudo recente realizado pelo Royal United Services Institute (RUSI).

Ao longo destes quatro anos, esta guerra foi palco de inúmeras evoluções tecnológicas e outras tantas transformações na forma de planear e conduzir as operações militares. A criatividade e inovação têm vindo a alterar a face dos combates do presente e a influenciar a forma como se combaterá no futuro.

A 24 de fevereiro de 2022, a Rússia pôs em marcha a invasão em grande escala da Ucrânia crendo numa vitória relâmpago, com ataques aéreos e tentativas de “decapitação” do governo ucraniano. Falhou logo nos primeiros dias. Kyiv não caiu, Hostomel foi defendida e, mais grave ainda, a logística russa colapsou. Nestes primeiros dias da invasão, a liderança de Volodomyr Zelensky revelou-se absolutamente crucial para manter o país a combater. Ficará para a história a sua frase: “não preciso de nenhuma boleia, preciso sim de armas”. Em boa verdade foram mesmo as armas ocidentais, designadamente as armas anti-carro Javelin, e NLAW, e os drones aéreos Bayraktar e Switchblade que se revelaram decisivos no ataque às colunas blindadas russas, impedindo-as de progredir em direção à capital ucraniana.

Todos recordamos as extensas colunas blindadas provenientes da Bielorrússia tentando alcançar Kyiv por Leste e por Oeste do rio Dnipro. Pouco tempo depois, face ao insucesso, as tropas russas acabaram por bater em retirada, não sem antes deixarem para trás um rasto de morte e horrendos crimes de guerra, assinalando-se a primeira grande humilhação de Moscovo. Erros pagam-se caro: logística inadequada e ausência de apoio aéreo próximo revelaram-se fatores decisivos no descalabro russo. No espaço marítimo, a destruição do cruzador Moskva, navio-almirante da esquadra russa do Mar Negro, mostrou que a Rússia não estava convenientemente preparada para uma nova guerra naval.

Em 2023, a guerra passou a ser sobretudo de atrito e trincheiras, ou seja, o conflito entrou numa fase semelhante à I Guerra Mundial, caraterizada por combates estáticos, uso intensivo de fogos de artilharia e a ocorrência de um elevadíssimo número de baixas (mortos e feridos graves). A ofensiva ucraniana na frente Sul fracassou redondamente. Protagonizar uma operação ofensiva em grande escala contra posições ofensivas bem organizadas, procurando quebrar a continuidade da ponte terrestre russa estabelecida entre o Donbass, e a Península da Crimeia, passando por Zaporizhzhya e Kherson, sem o imprescindível apoio aéreo, redundou num fracasso colossal. Um erro de palmatória. Os tão desejados carros de combate ocidentais revelaram aqui uma utilidade limitada. Bakhmut acabou por ceder após vários meses de combates sangrentos e perdas russas gigantescas, enquanto Avdiivka se converteu na maior derrota ucraniana até então, muito agravada pela conhecida interrupção temporária da ajuda norte-americana. A Ucrânia adaptou-se e iniciou uma campanha sistemática e bem-sucedida de ataque à artilharia russa, utilizando drones e fogos de contrabateria, almejando reduzir a vantagem russa em artilharia de 30 para 1 para praticamente de paridade.

2024 pode ser caraterizado como um ano de crise e adaptação. A queda de Avdiivka abriu o caminho para novos avanços russos, tirando partido de falhas de comando e controlo ucranianos. A guerra eletrónica (GE) adquiriu uma importância capital e a Ucrânia pôs em marcha uma campanha bem-sucedida tendo como objetivo neutralizar e/ou destruir a maior parte de equipamentos russos desse tipo. No mar, os novíssimos drones navais – de superfície e de subsuperfície – concebidos e fabricados na Ucrânia, destruíram cerca de 40% da Esquadra Russa do Mar Negro, condicionando decisivamente a sua liberdade de ação. Um feito histórico que viria a transformar globalmente a doutrina futura de emprego de meios navais.

O remanescente desta Esquadra acabou por se retirar da base naval russa de Sebastopol, na Crimeia ocupada, e procurar abrigo mais longínquo e seguro num porto mais oriental do Mar Negro, em Novorossisk. A incursão ucraniana em Kursk foi politicamente motivada e militarmente muito arriscada. Pese embora o sucesso inicial, terminou de forma desastrosa. Tal ficou a dever-se a vários fatores: a Rússia passou a utilizar uma nova geração de drones First Person View (FPV) guiados por extensos carretéis de fibra ótica e sensores infravermelhos; recebeu apoio de tropas norte-coreanas e por fim, a Ucrânia deixou de receber informação estratégica norte-americana durante cerca de 10 dias. De facto, o advento dos drones guiados por fibra ótica voltou a alterar a forma de fazer a guerra. Este tipo de drones passou a ser incólume às ações de GE. A Ucrânia voltou a adaptar-se e rapidamente copiou o conceito, passando também ela a inundar o campo de batalha com este tipo de veículos aéreos não-tripulados.

Chegamos a 2025-2026 esperando que o conflito entre numa fase final, pois as movimentações diplomáticas sucedem-se a grande ritmo. Em 2025, a Rússia conseguiu mobilizar 406.000 soldados, enquanto se estima que as perdas totais entre mortos e feridos tenham atingido aproximadamente 418.000. Esta é a primeira vez que tal situação ocorre desde o início da invasão em grande escala. Como consequência, a Rússia deixa de ser capaz de colmatar as perdas através das operações de recrutamento. Diariamente a Ucrânia e a Rússia mobilizam 6.000 a 8.000 drones FPV, além de centenas de unmanned aerial vehicles (UAV) de reconhecimento. Ao mesmo tempo, a Federação Russa detém uma vantagem aérea devido às bombas e mísseis guiados. Apesar das alegações de Moscovo sobre a aventada captura de 97% do território de Kupyansk, a cidade continua sob controlo ucraniano. A situação em torno de Pokrovsk é difícil; no entanto, a cidade mantém-se igualmente em mãos ucranianas. Os carros de combate, as viaturas de combate da infantaria e outros veículos blindados praticamente desapareceram das linhas da frente. As formações blindadas e mecanizadas são progressivamente substituídas por pequenos grupos de infantaria que, embora mais difíceis de destruir, são constantemente atacados por drones. As trincheiras deixaram de ser eficazes e necessitam de robustas coberturas superiores. A linha de contacto, antes materializada por uma faixa de terreno de cerca de 400 metros para cada lado – no fundo o alcance das armas de tiro direto das forças em contacto – transformou-se, com o advento dos drones FPV, progressivamente mais eficazes e autónomos, numa espécie de “zona cinzenta” de cerca de 25 a 50 km.

A Ucrânia utiliza agora: enxames de drones dotados de IA; drones anti-drone igualmente geridos por IA; robôs terrestres cada vez mais sofisticados e letais, e pontos fortes defensivos escalonados em profundidade, sobretudo na região de Donetsk. A automação do campo de batalha passou a ser uma realidade em todas as componentes. A Rússia perde a sua artilharia como o “deus da guerra”; passa a depender largamente das bombas planadoras; sofre gigantescas taxas de atrição e um desmedido desgaste logístico; e enfrenta corrupção dentro do aparelho militar, doenças e moral baixo. Os ataques ucranianos a refinarias, depósitos de combustíveis e locais de exportação de ramas petrolíferas estão a estrangular a economia russa.

As sanções reforçadas começam finalmente a surtir efeito. A Rússia parece não ter muitos mais argumentos militares ou económicos para vencer. De momento, fica-se com a sensação de que a Ucrânia só precisa resistir. Uma “paz” implicando a cedência graciosa do Donbass e sem garantias de segurança para Kyiv, apenas beneficiaria Moscovo, que precisaria, ao ritmo atual, de pelo menos mais 2 a 3 anos e 800.000 a 1 milhão de homens para conquistar o que resta dessa região do Leste ucraniano.

Zelensky referiu numa entrevista à Agence France Press (AFP) na passada sexta-feira, 20 de fevereiro, que “o seu país não está a perder a guerra, que a Ucrânia retomou centenas de quilómetros quadrados numa nova contraofensiva na região de Zaporizhzhya”. "Não podemos dizer que estamos a perder a guerra… a pergunta é se a venceremos", disse aos jornalistas desta agência. 

Assim como em 1991 a URSS acabou por colapsar economicamente, perdendo a Guerra Fria, também à Rússia de Putin poderá suceder algo similar. Quanto mais tempo a economia russa irá suportar um tal esforço de guerra? É bem possível que o cronómetro já tenha entrado em contagem regressiva.


in https://sapo.pt/artigo/quatro-anos-de-guerra-na-ucrania-licoes-aprendidas-699ce3d913624b792fec7ef6?utm_source=Partilha&utm_medium=web&utm_campaign=sharebutton&fbclid=IwY2xjawQMUAZleHRuA2FlbQIxMQBzcnRjBmFwcF9pZBAyMjIwMzkxNzg4MjAwODkyAAEePGNVZbyBWHZfbKZvlU4RC9edVj5wt8Y53czpI5b7rZeJSN7WWtxyNlqTGD8_aem_KEtc58UcfyQTUqfc24hvrA

Major General//Escreve no SAPO sempre à sexta-feira

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Porque se abstêm os Portugueses?

 

O Tanto Que Grita Este Silêncio. Porque se abstêm os Portugueses?

Mais de metade dos portugueses são abstencionistas. Que motivos os levam a abster-se? Desinteresse? Protesto? Neste retrato, o escritor Nelson Nunes procura preencher uma lacuna no debate público, dando voz aos protagonistas do abstencionismo no país.

Este retrato procura suprir uma lacuna no debate na esfera pública, dando voz aos reais protagonistas do abstencionismo em Portugal. Conhecer as argumentações da maioria silenciosa que não vota revela uma dimensão mais ou menos opaca da insatisfação com o sistema político. Complementados por análises de especialistas, estes testemunhos permitem perceber melhor o fenómeno da abstenção e pensar sobre como (e se) o devemos minimizar.

Artigo completo aqui

quarta-feira, 2 de julho de 2025

As políticas públicas em Portugal

 


As políticas públicas em Portugal mudam frequentemente ou têm uma estabilidade relativa? Que fatores explicam as suas mudanças? Questões a que o novo estudo da Fundação dá resposta, analisando as opções de governos na administração pública nos últimos 44 anos. Os autores concluem que, no país, as políticas públicas são mais estáveis do que geralmente se assume e que a alternância partidária é o principal motor de mudança.


Ver aqui este trabalho da FFMS.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Perder um animal de estimação (o luto)


 A relação entre humanos e animais de estimação é única e profunda. Muitas pessoas consideram os seus animais de estimação como membros da família, e a perda de um animal de estimação pode ter um impacto significativo na saúde mental dos seus donos e desencadear uma série de emoções e efeitos negativos. Neste artigo, exploramos como a perda de um animal de estimação afeta a saúde mental e emocional, assim como as estratégias para lidar com esse luto.

A profunda ligação humano-animal

A conexão entre humanos e os seus animais de estimação é muitas vezes comparável a relações humanas. Os animais de estimação oferecem amor incondicional, companhia e apoio emocional. Essa ligação é frequentemente construída ao longo de muitos anos, o que torna a perda ainda mais dolorosa.

Luto e emoções complexas

A perda de um animal de estimação desencadeia uma variedade de emoções, incluindo tristeza, luto, raiva, culpa e ansiedade. Pode desencadear um processo de luto semelhante ao experienciado quando se perde um ente querido. A intensidade dessas emoções pode surpreender alguns e muitos indivíduos podem sentir-se incompreendidos no seu sofrimento.

Impacto na saúde mental

A perda de um animal de estimação pode ter um impacto significativo na saúde mental dos donos. Pode desencadear ou agravar problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade, incluindo tristeza profunda, falta de interesse nas atividades e isolamento social. Além disso, a solidão e o vazio deixados pela ausência do animal de estimação podem ser avassaladores, especialmente se o animal desempenhava um papel importante na vida diária do seu dono. Também podem sentir culpa por não terem sido capazes de proteger ou cuidar adequadamente do animal de estimação, especialmente se a perda foi devido a doença ou acidente. Por vezes, a perda de um animal de estimação, pode deixar os donos com uma sensação de falta de propósito, uma vez que cuidar do animal muitas vezes desempenha um papel importante nas suas vidas.

 

Pontos a ter em conta:

  • Vínculo emocional

    Quanto mais próximo e afetivo for o relacionamento com o animal de estimação, maior pode ser o impacto emocional da perda.
     
  • Duração do relacionamento

    Se teve o animal de estimação por muitos anos, pode ser mais difícil ajustar-se à sua ausência.
     
  • Circunstâncias da morte

    Perder um animal de estimação devido a uma doença prolongada ou acidente traumático pode afetar o processo de luto de maneiras diferentes.
     
  • Apoio social

    A presença de amigos, familiares ou grupos de apoio que compreendam a dor da perda de um animal de estimação pode ser um fator de proteção contra o luto complicado.
     
  • Histórico de perdas

    Se já teve outras perdas significativas recentemente, como a morte de um ente querido humano, isso pode tornar o luto pela perda do animal de estimação mais desafiador.
     
  • Personalidade e estilo de enfrentamento

    Pessoas com diferentes personalidades e estilos podem lidar com a perda de maneiras diversas. Algumas podem ter mais dificuldade em expressar as suas emoções.
     
  • Expectativas culturais

    A cultura e as normas sociais em relação ao luto por animais de estimação variam amplamente. Alguns podem minimizar a importância do luto por animais de estimação, o que pode tornar o processo mais difícil para quem passa por ele. 
     
  • Antecedentes de saúde mental

    Pessoas com histórico de problemas de saúde mental, como depressão ou ansiedade, podem ser mais suscetíveis a experienciar um luto complicado.
     
  • Nível de apoio do veterinário

    A maneira como os profissionais de saúde veterinária lidam com a perda do animal de estimação e oferecem suporte às famílias enlutadas pode desempenhar um papel significativo no processo de luto.
     
  • Integração da perda

    Às vezes, a negação da perda ou a dificuldade em integrá-la pode prolongar o processo de luto.

Para lidar com a perda de um animal de estimação e mitigar os impactos na saúde mental, é importante reconhecer a dor da perda e procurar estratégias saudáveis para lidar com isso. 

Algumas sugestões específicas incluem:

  • Permita-se sentir

    É importante permitir-se sentir o luto e todas as emoções associadas. Não se apresse a superar a perda.
     
  • Fale sobre isso

    Compartilhar as suas emoções com amigos, familiares ou um profissional pode ser terapêutico.
     
  • Participar em grupos de apoio

    Para compartilhar experiências com outros que passaram por perdas semelhantes.
     
  • Crie uma lembrança

    Honrar a memória do animal de estimação criando uma lembrança ou memorial pode ser reconfortante.
     
  • Estabeleça uma rotina

    Manter uma rotina diária pode ajudar a trazer estabilidade e estrutura à vida após a perda.
     
  • Considere adotar novamente

    Quando se sentir pronto, adotar um novo animal de estimação pode ajudar a preencher o vazio emocional, não substituindo a perda, mas potenciando um novo vínculo afetivo.
     
  • Se necessário procurar apoio psicológico, como terapia ou aconselhamento.

É importante lembrar que o luto pela perda de um animal de estimação é uma experiência pessoal e única para cada indivíduo. Não existe um caminho "certo" ou "errado" para vivenciar o luto, e o processo pode variar amplamente de uma pessoa para outra. Se está ou conhece alguém que esteja a enfrentar o ludo pela perda de um animal de estimação e está a ter dificuldades para lidar com a situação, é aconselhável buscar apoio de um profissional de saúde mental ou grupo de apoio especializado em luto por animais de estimação.


autor: 

Eduardo Carqueja
Psicólogo e presidente da direção da Delegação Regional do Norte da Ordem dos Psicólogos Portugueses, in https://cnnportugal.iol.pt/dossier/o-psicologo-responde-como-a-perda-de-um-animal-de-estimacao-afeta-a-saude-mental-do-dono/654b8874d34e65afa2f755b8#:~:text=%C3%89%20importante%20lembrar%20que%20o%20luto%20pela,luto%2C%20e%20o%20processo%20pode%20variar%20amplamente


sexta-feira, 23 de maio de 2025

Missa, televisões e André Ventura. Ainda não é tarde para salvar a democracia

 


21 de maio de 2025

Missa, televisões e André Ventura. Ainda não é tarde para salvar a democracia

Pedro Sales Dias

O resultado das eleições de dia 18 lembraram-me o livro As Notícias. Um manual de utilização. Nele, Alain de Botton lembra-nos que agora as notícias ocupam nas nossas vidas a mesma posição dominante antes ocupada pelas religiões. Nas sociedades modernas, temos hoje ao ligar a televisão para ver o jornal do dia ou da noite a mesma atenção que outrora se tinha quando se ia à missa. E para muitos, a informação tornou-se num credo filtrado pelas suas ideias: só acreditam nos seus próprios deuses e abominam os dos povos vizinhos.

Na manhã de domingo, ainda longe de sabermos o resultado, várias televisões preteriram um antigo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e preferiram ouvir em directo o líder do Chega, André Ventura, minutos depois de votar. Ouviram-no falar do seu estado de saúde – admitindo que ainda não tinha feito todos os exames médicos — e dizer que ainda ia à missa, onde e a que horas. Explicou qual era a sua rotina de domingo. Só depois ouviram Cavaco a falar da importância das eleições em democracia.

A pergunta que se impõe é porque é que consideraram mais importante ouvir primeiro Ventura. Precisamos de saber que ele vai à missa e como está a sua saúde? Qual é o valor-notícia? Dias antes, jornalistas de várias televisões andaram numa espécie de rali entre as portas de hospitais em que Ventura foi sendo internado com refluxo gástrico, dedicando mais horas a isso do que à campanha eleitoral. André Ventura tornou-se num combustível de audiências e sabe disso. Em troca, usa as televisões para espalhar o seu evangelho. Cada um fornece ao outro o que precisa num circuito autofágico.

O estado a que chegamos, porém, não pode ser encarado como sendo inevitável. E na democracia e nos media, principalmente nas televisões privadas, torna-se de novo imperativo lembrar a mensagem do poema de Dylan Thomas: "Do not go gentle into that good night/Rage, rage against the dying of the light."

Estamos já para lá dos efeitos da desinformação. As televisões privadas apostaram no alheamento informativo que entretém – e faz subir audiências e lucro – ignorando que estão a ser instrumentais para um programa de redefinição política e social. Honra seja feita ao bom exemplo da RTP, que se mantém como último reduto, na maioria das vezes. É necessário arrepiar caminho a bem do nosso futuro colectivo e democrático. Estas eleições devem servir de reflexão a todos — inclusive aos jornalistas, que muitas vezes se colocam de fora do problema. Nunca foi tão importante salvaguardar critérios editoriais. O que fazemos tem, de facto, impacto nas decisões de cada um, no futuro.

No PÚBLICO temos essa preocupação diária. E em Abril apostamos numa grande operação de verificação de factos dos debates entre os vários candidatos às eleições legislativas. Pode ver alguns dos artigos escritos pela Bárbara Baltarejo e pela Marta Leite Ferreira em destaque na página da Prova dos Factos – com especial enfoque no debate que cativou mais interesse: o que opôs Luís Montenegro a Pedro Nuno Santos.

E a propósito dos debates eleitorais, fizemos um quiz. Será que sabe se o que disseram os candidatos é verdade ou mentira? Descubra se esteve mesmo atento e mais protegido da desinformação nos debates.

Abril foi também o mês em que foi divulgado um relatório do Medialab do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa, com o qual o PÚBLICO tem uma parceria num projecto para a detecção e desconstrução de narrativas de desinformação. O relatório conclui que o deputado do Chega, Pedro dos Santos Frazão, deu "projecção nacional" a desinformação de extrema-direita.

Continuando no Chega, ficou célebre o episódio televisivo em que André Ventura foi apanhado a mentir sobre o tamanho da casa em que vive. Num despique com Mortágua, num debate, repetira que a casa tinha "30 metros quadrados" e não era "um palacete como os do BE". No dia seguinte, na SIC, disse que foi um lapso. Afinal tem 70 metros quadrados.

Percursos naturais do rio Corgo (Vila Real)


Quanta beleza e paz!

quarta-feira, 21 de maio de 2025

NAO VAMOS PERMITIR QUE O FASCISMO VOLTE

 

André Ventura na Igreja de Santa Cruz (Coimbra) 

Fonte da imagem: https://www.noticiasdecoimbra.pt/andre-ventura-reza-na-igreja-de-santa-cruz-em-coimbra/






Este tipo (Ventura), que anda sempre na Igreja, na missa, a bater com a mão no peito, a comungar, é o tipo que mais ódio destila e que mais prega a desunião e a desigualdade. Que católico é este?! Que farsante, que oportunista, que cínico. Ele e os seus seguidores, mais uma comunicação social que faz o favor de lhe dar tempo de antena (chega a revoltar/enojar a forma como ele controla os jornalistas e se escusa a responder-lhes), fazendo de todos os momentos momentos-comício, prepara-se para o assalto ao poder e o derrube das instituições e conquistas democráticas que alcançámos dia 25 de abril de 1974. 48 anos de ditadura não chegaram?
NÃO VAMOS PERMITIR QUE O FASCISMO VOLTE.
NÃO VAMOS.


Partilho o seguinte texto: O MOISÉS DO POPULISMO… E não, não é um partido, é uma seita!!
🥵

“Domingo à noite, o país sentou-se a ver o circo. Um circo de uma só figura, de um homem só, de um espectáculo monológico onde o palhaço também era domador, director, macaco amestrado, leão faminto e criança perdida que grita da plateia para que olhem para ele, só para ele, sempre para ele. André Ventura falou. Falou como quem cospe. Falou como quem bate. Falou como quem quer ser amado mas só sabe odiar. E parte do país, a parte do país fatigado de esperar por Deus, ouviu. Ouviu como se ouve o padre numa missa a que se vai por obrigação, como se ouve a mulher que já não se ama ou o pai que já não se respeita. Ouviu com raiva, com cansaço, com culpa.
Disse que acabara o bipartidarismo. Disse-o como quem anuncia a queda de Roma, o fim dos tempos, a libertação do povo escolhido. E ali estava ele, o Moisés do populismo, de microfone à frente e a azia no bolso como quem esconde a vergonha, prometendo terra prometida a quem nunca teve jardim. Disse que a história tinha mudado, que agora o país era outro, um país dele, feito por ele, para ele, com ele ao leme e os outros calados, de joelhos, em silêncio. Ventura quer o país em silêncio. O país de joelhos. O país em medo. Ventura não quer governar. Ventura quer mandar. E o que há de mais grave é que há quem deseje ser mandado. Há quem precise.
O Chega não é um partido. É uma carência. Um sintoma. É o vómito do país que nunca curou a sua tristeza. Que finge que é alegre no São João, no Santo António, nas bifanas do domingo, nos copos do sábado, nas sardinhas do Junho. Mas que sangra por dentro. Que odeia por dentro. Que tem raiva de si, de tudo, de todos. Ventura oferece isso: um inimigo. Um sentido. Um alvo. Se há um culpado, já não sou eu. Já não é o meu fracasso, o meu salário, a minha solidão. É o cigano, o negro, o comunista, o assistente social, o jornalista, o juiz, o reformado, o artista, o pobre, o estranho. Ventura dá um nome à frustração. E isso consola. E isso vicia. E isso mata.
O seu discurso foi uma lista de cadáveres simbólicos. “Matei o partido de Álvaro Cunhal”, disse, como se estivesse a caçar fantasmas no sótão. “Varreram o Bloco de Esquerda do mapa”, gritou, com o orgulho de quem limpa sangue do chão e chama a isso arrumação. Para Ventura, política é isso: uma limpeza. Uma desinfecção. Uma purga. Como se o país estivesse sujo e só ele, com a sua verdade puríssima, o pudesse lavar. E lavar com quê? Com insultos. Com medo. Com castigos. Com prisões perpétuas. Com castrações químicas. Com multas. Com violência.
E depois, claro, o momento cómico, se a comédia ainda tivesse graça. Atacou as sondagens. Sempre as sondagens. Sempre o mesmo coro: que o queriam calar, que o queriam derrubar, que lhe mentem, que lhe fazem armadilhas. Ventura não percebe que as pessoas viram no seu partido com vergonha de o fazer, de o dizer às sondagens. Ventura é o miúdo que jogava mal à bola e que ninguém quis na equipa e passou o resto da vida a sonhar ser capitão. E agora que lhe deram um apito, anda a expulsar todos os que correram mais depressa do que ele. Ventura não acredita em instituições. Acredita em si. Ventura não acredita em regras. Acredita no seu instinto. Ventura não acredita no país. Acredita no seu espelho.
E depois aquela frase. Aquela frase que soa a taverna com vinho barato e gritaria ao fundo. “A mama vai mesmo acabar.” Disse-o com o orgulho de quem faz justiça, mas com o tom de quem está habituado a mentir e a justificar-se com o cansaço. A mama vai acabar. A mama, quer dizer, o Estado. Os apoios. Os direitos. A solidariedade. Os serviços. A dignidade. Ventura quer um país onde só os fortes sobrevivem. Onde quem não consegue, morre. Onde quem chora, se cala. Onde quem precisa, se esconde. Porque, para ele, a vida é uma luta de cães. E ele é o dono da trela.
Mas Ventura não quer que a mama acabe. Ventura quer ser ele a mamar. Quer o lugar do outro. Quer mandar nos subsídios. Quer mandar na televisão. Quer mandar na escola. Ventura quer mandar. Ventura quer mandar. Ventura quer mandar. E o país, esse país magoado, esse país velho que já não acredita em ninguém, esse país que se esqueceu como é que se luta, esse país votou nele como quem diz: “toma, faz tu melhor.” E ele fará. Mas não será melhor. Será só mais triste. Mais cruel. Mais pequeno.
O que me espanta não é Ventura. Ventura é uma personagem de novela das seis: previsível, mal escrita, exagerada. O que me espanta é o silêncio. O silêncio dos outros. O silêncio dos bons. O silêncio dos sérios. Dos que deviam estar ali, naquele exacto momento, a dizer: basta. Mas estavam calados. Com medo de perder votos. Com medo de serem insultados. Com medo de não parecerem “populares”. E assim se mata uma democracia: não com balas. Com medos. Com cobardias. Com silêncios.
Este discurso, o de 18 de ontem, não foi um discurso. Foi uma bofetada. Foi uma noite de gritos num quarto fechado. Foi o início de qualquer coisa escura. E se não gritarmos agora, se não dissermos agora, alto e claro, que isto não é normal, que isto não é aceitável, que isto não é o país que queremos, amanhã já não poderemos falar. E depois? Depois virá o silêncio. O grande silêncio. O silêncio dos cemitérios. E Ventura sorrirá. Porque não há nada mais cómodo para quem quer mandar do que um povo sem voz. E nós estamos perigosamente perto disso. Perto de calar. Perto de baixar a cabeça. Perto de desistir.
E quando isso acontecer, será tarde. Será sempre tarde.”

Maio 2025
P/ Nuno Morna