quinta-feira, 16 de março de 2017

A Europa parece incapaz de resolver os seus próprios problemas


A Europa será capaz de aprender?

(Boaventura de Sousa Santos, in Blog OutrasPalavras, 63/03/2017)


Arrogância colonial cegou Velho Continente para inovações que se produziam no Sul Global. Agora, esgotados e incapazes de criar, europeus abrirão os olhos?
Um sentimento de exaustão histórica e política assombra a Europa e o Norte Global em geral. Após cinco séculos a impor soluções ao mundo, a Europa parece incapaz de resolver os seus próprios problemas, e entrega a sua resolução às empresas multinacionais por via de tratados de livre comércio, cujo objectivo é eliminar os últimos resquícios da coesão social e da consciência ambiental obtidas depois da segunda guerra mundial.
Nos EUA, Donald Trump é mais consequência que causa da desagregação de um sistema político altamente corrupto, disfuncional e anti-democrático, em que o candidato mais votado em eleições nacionais pode ser derrotado pelo candidato que obteve menos três milhões de votos dos cidadãos. Domina a convicção de que não há alternativas ao estado crítico a que se chegou. Os líderes mundiais, reunidos recentemente no Fórum Econômico de Davos, reconheceram que os 8 homens mais ricos do mundo têm tanta riqueza quanto a da metade mais pobre da população mundial, mas nem por isso lhes passou pela cabeça apoiar políticas que contribuam para redistribuir a riqueza. Pelo contrário, exortaram os desgraçados do mundo a melhorarem o seu desempenho para amanhã também serem ricos.
Entretanto, os instrumentos de análise e de comunicação social global de que dispomos impedem-nos de ver que fora da Europa e do Norte Global há muita inovação social e política que poderia servir de estímulo a procurar novas soluções globais que garantam um futuro politicamente mais democrático, socialmente mais solidário e ecologicamente mais sustentável. Curiosamente, algumas dessas soluções têm partido de ideias e experiências europeias (entretanto abandonadas pela Europa) reinterpretadas e reconfiguradas à luz dos diferentes contextos concretos e libertadas de dogmas e ortodoxias. Ao mesmo tempo, a Europa parece encolher, enquanto o mundo não-europeu se expande. O futuro do mundo será muito menos europeu do que foi o seu passado.
Seria lógico pensar que a Europa teria todo o interesse em conhecer melhor o que de inovador vai emergindo no mundo. Mas, para tal, a Europa devia dispor-se a interrogar o modo como ao longo da era moderna se viu como professora do mundo e imaginar-se como aluna do mundo, como co-aprendiz do futuro junto de outras regiões e culturas do mundo. Acontece que a Europa tem uma extrema dificuldade em aprender com as experiências não-europeias, em particular quando têm origem no Sul Global, devido a um persistente preconceito colonial. Afinal, como poderia a Europa beneficiar de experiências de “regiões e culturas mais atrasadas”, soluções que, além do mais, remetem para problemas que a Europa alegadamente solucionou há muito?
Como vencer este preconceito e criar uma nova disponibilidade para aprendizagens mútuas à escala global? Para responder precisamos de recuar no tempo. O período alto da Europa como poder global e imperial terminou em 1945. Quando os países periféricos do Sul Global, muitos dos quais antigas colnias europeias, se tornaram independentes e tentaram traçar a sua história num mundo pós-europeu, a jornada foi acidentada, com a Europa e os EUA a questionarem qualquer tentativa de desvinculação do sistema capitalista e a União Soviética a recusar qualquer alternativa que não a sua. O movimento dos não-alinhados, iniciado em 1955 com a Conferência de Bandung — convocada pelos presidentes Nehru (Índia), Sukarno (Indonésia), Nasser (Egipto), Nkrumah (Gana) e Tito (Jugoslávia) –, foi a primeira manifestação da intenção histórica de desenhar um caminho que fosse além da visão bipolar e contraditória que a Europa oferecia ao mundo, ora liberal e capitalista, ora marxista e socialista, dois sistemas pouco sensíveis às realidades extra-europeias, e ambos exigindo lealdade incondicional. Esta dicotomização nos assuntos mundiais, dramaticamente ilustrada pela Guerra Fria, colocou dilemas políticos irresolúveis às novas elites políticas do Sul Global, mesmo às mais distanciadas da cultura ocidental capitalista e comunista, que viam em ambos os sistemas armadilhas gémeas assentes na supremacia do “homem branco”.
O movimento dos não alinhados foi entretanto neutralizado pelo neoliberalismo global e pela queda do Muro de Berlim, e o chamado Terceiro Mundo diversificou-se ao ponto de perder conteúdo. Mas isto não impediu que novas soluções continuassem a ser pensadas e executadas. Sempre que puseram em causa o domínio do Norte Global e, em particular, do imperialismo norte-americano, tais soluções foram violentamente combatidas: do embargo a Cuba, à destruição do Iraque, da Líbia e da Síria; da Nova Ordem Econômica Mundial à neutralização dos BRICS (a cooperação entre os chamados países emergentes: Brasil, Rússia, China e África do Sul). A verdade é que, apesar disso, a tenacidade com que os povos do mundo vão procurando soluções de libertação e autonomia continua a surpreender os analistas. Não se trata de romantizar tal tenacidade ou de aceitar acriticamente as soluções que dela resultam. Trata-se apenas de iniciar uma conversa do mundo que não se esgote na discussão das soluções que uma pequena parte, a eurocêntrica, legitimou no passado. Essas soluções foram, sucessiva ou simultaneamente, o colonialismo, a evangelização, o neocolonialismo, o imperialismo, o desenvolvimento, a globalização, a ajuda externa, os direitos humanos, a assistência humanitária. Dependente destas soluções, o mundo não-europeu acabou quase sempre por adotá-las, voluntária ou compulsoriamente, residindo aí a sua subalternidade relativamente à Europa e aos EUA. Mas nunca deixou de pensar fora da caixa eurocêntrica. Neste tempo de aparente eliminação das alternativas, esse pensamento pode hoje ser precioso para lançar a possibilidade de novas aprendizagens globais como alternativa à estagnação e à guerra.
Por parte da Europa, são duas as condições principais para essa aprendizagem e nenhuma delas se coaduna como soluções rápidas. Ambas implicam a construção de uma nova visão da Europa. A primeira consiste em submeter a um debate profundo o próprio conceito de Europa. Devemos começar por ter presente que não existe uma definição oficial de “europeu”, pelo menos em termos de políticas culturais. Quantas Europas existem? Quantos são os países europeus? O que significa ser europeu? A desintegração da União Soviética, a reunificação da Alemanha e o movimento em grande escala de migrantes, trabalhadores e refugiados por toda a Europa criaram uma nova complexidade, tanto no domínio das identidades como no das fronteiras. Por esta razão, muitos autores defendem que o discurso da “identidade da Europa” é prematuro. Tal como não existe “uma Europa”, mas antes uma pluralidade de definições históricas específicas e concorrentes entre si, existem “identidades europeias” contrastantes e rivais, dependentes do desenho das fronteiras e da percepção da natureza da “Europeidade”. Os serviços de imigração e de fronteiras vão desenvolvendo as suas próprias ideias sobre a Europa e a identidade europeia, mas sem qualquer conexão com outros níveis de discussão.
A segunda condição, intimamente relacionada com a primeira, diz respeito ao que se entende por Sul Global enquanto mundo não-europeu. O Sul que confronta a Europa como “o outro” existe tanto dentro como fora da Europa. Nas primeiras décadas do século XIX, o estadista austríaco Metternich escrevia que “Asien beginnt an der Landstrasse”, ou seja, a Ásia começa numa rua da periferia de Viena, a rua onde viviam imigrantes provenientes dos Balcãs. Então, como agora, a distinção entre os Balcãs e a Europa parece clara, como se os primeiros não pertencessem à Europa. Hoje, o Sul dentro da Europa são os imigrantes; os ciganos; os filhos de imigrantes, alguns dos quais nascidos nesta mesma Europa há várias gerações, portadores de passaportes europeus, sem, no entanto, serem tidos como “europeus como os outros”. E ainda há um outro Sul dentro da Europa que particularmente nos interessa, o Sul que, sendo periférico em sentido geográfico, é-o em muitos outros sentidos. Refiro-me a Portugal, Espanha, Sul da Itália e Grécia. Historicamente sempre houve duas europas, a do centro e a da periferia, e a primeira nunca imaginou que pudesse aprender algo de positivo com a experiência da segunda.
O Sul fora da Europa tem sido entendido desde o século XV de uma forma grosseiramente reducionista. São os países fornecedores de matéria-prima e, mais tarde, mercados de consumo a explorar; países cujas catástrofes naturais tornam necessária a ajuda humanitária europeia; países incapazes de sustentar a sua população, dando origem ao problema da imigração que “aflige” a Europa; países que criam terroristas contra os quais é necessário lutar com o máximo de inclemência. Esta visão do Sul Global continua dominada pela empresa colonial. Esta estipulava que as populações e nações sujeitas à governação europeia, independentemente da diversidade do seu passado, estavam condenadas a um só futuro: o futuro ditado pela Europa. O futuro da Europa ficou assim refém dos limites que impunha ao mundo não-europeu. Quantas ideias e projetos foram descartados, desacreditados, abandonados, demonizados dentro da Europa por simplesmente não servirem o projeto colonial?
A Europa tem de voltar à escola do mundo e da sua diversidade infinita. Para aprender, tem de estar disposta a desaprender muitas das concepções sobre si própria e sobre o mundo não-europeu que a trouxeram até aqui, a este momento de grau zero da inovação social e política em que se encontra.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Banca e banqueiros em Portugal: uma história de podridão


Vídeo da SIC Notícias - Texto in https://vaievem.wordpress.com/2017/03/07/assalto-ao-castelo-o-jornalista-e-a-sua-fonte-misterio/


A reportagem em três episódios, da SIC,  “Assalto ao Castelo“, da autoria do jornalista Pedro Coelho, é um trabalho inovador e de grande seriedade que merece ser estudado e analisado nas escolas de jornalismo e nas redacções. Não apenas a construção das peças, a narrativa que percorre os três episódios, a encenação dos diálogos do jornalista com a “fonte-mistério”, os cenários interiores e exteriores, as paisagens reais ou criadas, os excertos escolhidos das intervenções públicas dos protagonistas, os depoimentos de lesados, a conversa do jornalista com o treinador Carlos Queirós, em suma, toda a concepção dos episódios revela domínio de uma estética própria da televisão, inspirada no melhor que podemos ver em séries internacionais.
Independentemente da importância das revelações substantivas proporcionadas neste trabalho de Pedro Coelho, que outros mais conhecedores já analisaram, assinalo outras vertentes que contribuem para tornar este conjunto de reportagens um marco na história da televisão portuguesa.
O fio condutor das reportagens são documentos internos do Banco de Portugal que uma “fonte-mistério” deu ao jornalista. Os dois primeiros episódios começam com um diálogo entre o jornalista e essa “fonte-mistério”, representada por uma voz e uma figura feminina, ambos filmados de costas caminhando ou captados de frente a grande distância de modo a não ser possível identificar o rosto da figura que representa a “fonte-mistério”.
A “fonte-mistério” acompanha o jornalista nos três episódios e constitui juntamente com o próprio jornalista quer como narrador quer em off ou em intervenções directas e em curtas entrevistas a alguns participantes, uma das grandes inovações desta reportagem.
Desde o início do primeiro episódio o jornalista faz questão de salientar o papel da “fonte-mistério” que lhe “fez chegar às mãos” os documentos que constituem a substância da reportagem. Ao contrário do que é frequente, o jornalista não esconde a fonte nem usou a velha frase “A SIC sabe…” ou  “A SIC teve acesso…”.  Pelo contrário, na terceira reportagem revela que a “fonte-mistério” tem “mais de três décadas no Banco de Portugal”.

Pedro Coelho participou ao longo da semana em que os episódios fioram exibidos em debates sobre o seu trabalho. Mas foi no programa Expresso da Meia-Noite, da SIC Notícias, que o jornalista  foi mais longe no desejo de tornar transparente o seu trabalho. Questionado por Nicolau Santos sobre ter sido ele, Pedro Coelho, um jornalista que não é da área de economia, a receber tão importante e vasta documentação de uma instituição tão fechada como o BdP,  Pedro Coelho afirmou sem qualquer hesitação que não conhece o BdP e que foi “por interposta pessoa”, alguém que quis dar aqueles documentos a uma televisão, que  esta história lhe “caíu no colo” sendo ele o escolhido devido, presume,  a trabalhos anteriores que fez sobre, o BPN e o BANIF .
O trabalho de Pedro Coelho e o debate subsequente que suscitou mostram também que a sua “fonte-mistério” percebeu que teria de ser um jornalista sem relações próximas e confidenciais nem cumplicidades com a administração do Banco a receber e a tratar tão importante e explosiva documentação. Percebeu também que a televisão seria o meio mais capaz de levar ao grande público, de maneira atraente, concisa e persuasora, matérias que num jornal se perderiam em páginas e páginas que só os iniciados leriam na íntegra. A escolha do jornalista Pedro Coelho foi também para a “fonte-mistério” uma escolha sem riscos, dadas as garantias de seriedade e profissionalismo do citado jornalista.
A reacção do governador do BdP ao pedir para ir ao Parlamento esclarecer todos os pontos da reportagem revela o incómodo causado pelo trabalho do SIC e pelas revelações da “fonte-mistério”.
Imagino que o BdP não resistirá a uma caça às bruxas para encontrar a “fonte-mistério”.

Carta de um cão acorrentado




Nas aldeias e cidades.... Nos montes, isolados, nos campos agrícolas... sózinhos...nas quintas... sem verem ninguém, sem terem alguém que lhes fale ou sequer afague o pelo... nos quintais sombrios de sombria gente... nas varandas ... nas marquises... Cães que nunca são soltos desde que nasceram até à hora da morte... Desde que caíram em mãos e corações cruéis que os olham como se não existissem... Infelizmente, a muitos destes cães, sobretudo os que estão em terrenos/moradias das cidades, até coleiras que lhes desferem choques elétricos já têm, para que não possam ladrar! 
Meu Deus, quando é que o Homem deixa os animais em paz? 
Uma crueldade. Uma tortura para os animais. Uma dor e angústia horrível para quem os vê assim e não os consegue libertar desta morte lenta. 

Dê voz a quem não pode exprimir a dor de passar a vida acorrentado! 

Indigne-se.

Denuncie.

Obrigada.
Nazaré Oliveira

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CARTA DE UM CÃO ACORRENTADO*

Querido dono:
Consegui que escrevessem esta carta por mim! Nem sabes a alegria que sinto por poder comunicar contigo! Todos os dias, desde aquele longínquo dia em que me colocaste a corrente no pescoço e me prendeste neste espaço, eu sonho que me venhas visitar e fazer festinhas como me fazias quando eu era um bebé. Eu sonho que venhas conversar comigo, não entendo muito bem o que me dizes, mas nem imaginas como adoro ouvir o som da tua voz! Eu sei que fiz algo de errado, senão certamente não me terias colocado aqui. Desculpa! Não quero ser exigente mas começa a doer ter esta corrente atada ao meu pescoço... Às vezes tenho o pescoço dormente, e outras vezes tenho muita comichão e nem consigo coçar! Sinto o seu peso todos os dias... o peso da solidão que me prende. Tenho vontade de esticar as pernas e correr... e como eu gostava de poder fazer isso contigo! Adorava que me atirasses umas bolas, aí eu podia mostrar-te como sou rápido a correr e como as trazia rapidamente. Gostava de poder ver o que tu vês... o mundo lá fora é muito grande? E existem outros como eu? Às vezes tenho sede e alguma fome mas eu aguento porque sei que assim que puderes virás dar-me água e comida, sei que fazes o que podes, eu não quero incomodar, mas sabes, por vezes gostava de ter um pouco da tua companhia. Sei que talvez alguém te tenha dito que eu não tenho sentimentos, mas olha que é mentira! Nem imaginas quanta alegria sinto quando alguém me toca ou se dirige a mim. Nem sabes quanta tristeza e solidão sinto nas longas horas em que não vejo ninguém. Nem sabes o medo que por vezes sinto aqui sozinho no inverno, e tenho tanta vontade de estar perto de ti. Só queria um pouco mais da tua atenção e amor, uma cama quente no inverno e um local fresco no verão e uma festa tua no meu velho lombo. Eu sei que um dia tu irás chegar aqui, tirar-me a corrente e dar-me tudo isto, até lá eu fico quieto à espera. Só não demores muito meu dono, porque estou a ficar velho e começo a ver e ouvir mal. Faltam-me forças e não quero ir sem viver um pouco contigo!
 Do teu cão.


* in http://sic.sapo.pt/Programas/SOS_Animal/2014-02-10-carta-de-um-cao-acorrentado---uma-carta-emotiva

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O património de apenas oito homens é igual ao de metade mais pobre do mundo

Apenas 8 pessoas detêm património equivalente a mais de metade da população mundial


PUBLICADO EM 14/02/2017


No relatório recente publicado em Janeiro último pela OXFAM sobre a situação atual das desigualdades no mundo, conclui-se que: “novas estimativas indicam que o património de apenas oito homens é igual ao de metade mais pobre do mundo”.
O presente relatório relembra a preocupação geral em torno das desigualdadesidentifica as causas para a mesma, os argumentos que sustentam as desigualdades e aponta potenciais vias para reverter a atual situação.
Em 2012, no Fórum Económico Mundial, o aumento da desigualdade económica foi apontado como uma grande ameaça à estabilidade social, mais tarde, o Banco Mundial vinculou como objetivo erradicar a pobreza e a necessidade de promover uma prosperidade partilhada. Já em 2016, Barack Obama no seu discurso de despedida na Assembleia Geral da ONU referiu que “um mundo no qual 1% da população controla a riqueza equivalente à dos restantes 99% nunca será estável”. Perante este cenário, o relatório aponta como efeito do não combate à desigualdade a possibilidade de desintegração das sociedades, o aumento da criminalidade e a falta de esperança.
Como causas para a desigualdade, foram identificadas alguns factos, como as empresas estão atualmente a trabalhar para os mais ricos, onde segundo estimativas da Oxfam, as 10 maiores empresas mundiais tiverem entre 2015 e 2016, tantos lucros como o equivalente ao PIB de 180 países. Outro fator que explica o nível de desigualdade verificado prende-se com o facto de serem sacrificados os trabalhadores e os fornecedores, onde por exemplo, na India, o diretor executivo da maior empresa de informática recebe 416 vezes mais do que a média dos funcionários. A evasão fiscal é outro fator apontado. O super-capitalismo dos acionistas também contribui para o aumento das desigualdades, onde no Reino Unido, em 1070, 10% dos lucros eram distribuídos pelos acionistas, e em 2016 essa percentagem passou para os 70%. Os lobbies, ou capitalismo de camaradagem ajuda a justificar a desigualdade, principalmente pela via da manutenção destas posições privilegiadas, mantendo influência nas regulações e políticas públicas nacionais e internacionais. O papel dos super-ricos na crise das desigualdades e ainda a competição entre países para a atração de investimento criando benefícios fiscais são ainda apontados como causas para as desigualdades existentes.
São expostos no relatório 6 argumentos/premissas teóricas que alimentam e impulsionam a economia pensada para os 1% mais ricos. A lista das seis falsas premissas é a seguinte:
1.    O mercado está sempre certo e o papel dos Governos deve ser minimizado;
2.    As empresas precisam de maximizar os seus lucros e retornos para os acionistas a todo o custo;
3.    A riqueza individual extrema é benéfica e um sinal de sucesso, e a desigualdade não é relevante;
4.    O crescimento do PIB deve ser o principal objetivo da formulação de políticas;
5.    O nosso modelo económico é neutro em relação ao género;
6.    Os recursos do nosso planeta são ilimitados;
Para sustentar esta lista de argumentos, a Oxfam no relatório destaca três intervenções, Robert Kennedy, em 1968 afirmou que “O PIB mede tudo, exceto o que faz a vida valer a pena”, já a declaração da responsabilidade do FMI – Fundo Monetário Internacional diz que “Em vez de gerar crescimentos, algumas políticas neoliberais aumentam a desigualdade, colocando em risco uma expansão duradoura”, por fim Charlotte Perkin Gillman afirma que “É impossível melhorar o mundo com tantas pessoas mantidas no fundo”.
            Ainda no relatório, são apontados oito bases sólidas de construção de uma economia humana:
1.    Os Governos trabalharem para os 99%;
2.    Os Governos cooperarem, ao invés de competirem;
3.    As empresas trabalharem em beneficio de todos;
4.    A extrema riqueza será eliminada para que a extrema pobreza possa ser erradicada;
5.    A economia funcionar a favor de homens e mulheres igualmente;
6.    A tecnologia ser colocada ao serviço dos 99%;
7.    A economia ser movida por energias renováveis sustentáveis;
8.    O que realmente importa ser valorizado e mensurado.
É ainda, nesta matéria, deixado um aviso pelo relatório, que devemos e podemos construir uma economia humana antes que seja tarde demais.
Por: Pedro Perdigão 



In https://observatorio-das-desigualdades.com/2017/02/14/relatorio-oxfam-uma-economia-para-os-99/