Mostrar mensagens com a etiqueta Política. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Política. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

UCRÂNIA - Quatro anos de tanto sofrimento, tanta crueldade, tanta injustiça!



Chegamos a 2025-2026 esperando que o conflito entre numa fase final, pois as movimentações diplomáticas sucedem-se a grande ritmo. De momento, fica-se com a sensação de que a Ucrânia só precisa resistir. 


Ao fim de quatro anos, a guerra mais letal e sanguinária ocorrida no espaço europeu desde a II Guerra Mundial segue o seu curso. Ordenada por Vladimir Putin a 24 de fevereiro de 2022, já ceifou a vida a dezenas de milhares de civis e centenas de milhares de militares de ambos os lados. A verdade é que o Kremlin esperava que as suas forças assumissem o controlo total da Ucrânia em apenas 10 dias, conforme refere um estudo recente realizado pelo Royal United Services Institute (RUSI).

Ao longo destes quatro anos, esta guerra foi palco de inúmeras evoluções tecnológicas e outras tantas transformações na forma de planear e conduzir as operações militares. A criatividade e inovação têm vindo a alterar a face dos combates do presente e a influenciar a forma como se combaterá no futuro.

A 24 de fevereiro de 2022, a Rússia pôs em marcha a invasão em grande escala da Ucrânia crendo numa vitória relâmpago, com ataques aéreos e tentativas de “decapitação” do governo ucraniano. Falhou logo nos primeiros dias. Kyiv não caiu, Hostomel foi defendida e, mais grave ainda, a logística russa colapsou. Nestes primeiros dias da invasão, a liderança de Volodomyr Zelensky revelou-se absolutamente crucial para manter o país a combater. Ficará para a história a sua frase: “não preciso de nenhuma boleia, preciso sim de armas”. Em boa verdade foram mesmo as armas ocidentais, designadamente as armas anti-carro Javelin, e NLAW, e os drones aéreos Bayraktar e Switchblade que se revelaram decisivos no ataque às colunas blindadas russas, impedindo-as de progredir em direção à capital ucraniana.

Todos recordamos as extensas colunas blindadas provenientes da Bielorrússia tentando alcançar Kyiv por Leste e por Oeste do rio Dnipro. Pouco tempo depois, face ao insucesso, as tropas russas acabaram por bater em retirada, não sem antes deixarem para trás um rasto de morte e horrendos crimes de guerra, assinalando-se a primeira grande humilhação de Moscovo. Erros pagam-se caro: logística inadequada e ausência de apoio aéreo próximo revelaram-se fatores decisivos no descalabro russo. No espaço marítimo, a destruição do cruzador Moskva, navio-almirante da esquadra russa do Mar Negro, mostrou que a Rússia não estava convenientemente preparada para uma nova guerra naval.

Em 2023, a guerra passou a ser sobretudo de atrito e trincheiras, ou seja, o conflito entrou numa fase semelhante à I Guerra Mundial, caraterizada por combates estáticos, uso intensivo de fogos de artilharia e a ocorrência de um elevadíssimo número de baixas (mortos e feridos graves). A ofensiva ucraniana na frente Sul fracassou redondamente. Protagonizar uma operação ofensiva em grande escala contra posições ofensivas bem organizadas, procurando quebrar a continuidade da ponte terrestre russa estabelecida entre o Donbass, e a Península da Crimeia, passando por Zaporizhzhya e Kherson, sem o imprescindível apoio aéreo, redundou num fracasso colossal. Um erro de palmatória. Os tão desejados carros de combate ocidentais revelaram aqui uma utilidade limitada. Bakhmut acabou por ceder após vários meses de combates sangrentos e perdas russas gigantescas, enquanto Avdiivka se converteu na maior derrota ucraniana até então, muito agravada pela conhecida interrupção temporária da ajuda norte-americana. A Ucrânia adaptou-se e iniciou uma campanha sistemática e bem-sucedida de ataque à artilharia russa, utilizando drones e fogos de contrabateria, almejando reduzir a vantagem russa em artilharia de 30 para 1 para praticamente de paridade.

2024 pode ser caraterizado como um ano de crise e adaptação. A queda de Avdiivka abriu o caminho para novos avanços russos, tirando partido de falhas de comando e controlo ucranianos. A guerra eletrónica (GE) adquiriu uma importância capital e a Ucrânia pôs em marcha uma campanha bem-sucedida tendo como objetivo neutralizar e/ou destruir a maior parte de equipamentos russos desse tipo. No mar, os novíssimos drones navais – de superfície e de subsuperfície – concebidos e fabricados na Ucrânia, destruíram cerca de 40% da Esquadra Russa do Mar Negro, condicionando decisivamente a sua liberdade de ação. Um feito histórico que viria a transformar globalmente a doutrina futura de emprego de meios navais.

O remanescente desta Esquadra acabou por se retirar da base naval russa de Sebastopol, na Crimeia ocupada, e procurar abrigo mais longínquo e seguro num porto mais oriental do Mar Negro, em Novorossisk. A incursão ucraniana em Kursk foi politicamente motivada e militarmente muito arriscada. Pese embora o sucesso inicial, terminou de forma desastrosa. Tal ficou a dever-se a vários fatores: a Rússia passou a utilizar uma nova geração de drones First Person View (FPV) guiados por extensos carretéis de fibra ótica e sensores infravermelhos; recebeu apoio de tropas norte-coreanas e por fim, a Ucrânia deixou de receber informação estratégica norte-americana durante cerca de 10 dias. De facto, o advento dos drones guiados por fibra ótica voltou a alterar a forma de fazer a guerra. Este tipo de drones passou a ser incólume às ações de GE. A Ucrânia voltou a adaptar-se e rapidamente copiou o conceito, passando também ela a inundar o campo de batalha com este tipo de veículos aéreos não-tripulados.

Chegamos a 2025-2026 esperando que o conflito entre numa fase final, pois as movimentações diplomáticas sucedem-se a grande ritmo. Em 2025, a Rússia conseguiu mobilizar 406.000 soldados, enquanto se estima que as perdas totais entre mortos e feridos tenham atingido aproximadamente 418.000. Esta é a primeira vez que tal situação ocorre desde o início da invasão em grande escala. Como consequência, a Rússia deixa de ser capaz de colmatar as perdas através das operações de recrutamento. Diariamente a Ucrânia e a Rússia mobilizam 6.000 a 8.000 drones FPV, além de centenas de unmanned aerial vehicles (UAV) de reconhecimento. Ao mesmo tempo, a Federação Russa detém uma vantagem aérea devido às bombas e mísseis guiados. Apesar das alegações de Moscovo sobre a aventada captura de 97% do território de Kupyansk, a cidade continua sob controlo ucraniano. A situação em torno de Pokrovsk é difícil; no entanto, a cidade mantém-se igualmente em mãos ucranianas. Os carros de combate, as viaturas de combate da infantaria e outros veículos blindados praticamente desapareceram das linhas da frente. As formações blindadas e mecanizadas são progressivamente substituídas por pequenos grupos de infantaria que, embora mais difíceis de destruir, são constantemente atacados por drones. As trincheiras deixaram de ser eficazes e necessitam de robustas coberturas superiores. A linha de contacto, antes materializada por uma faixa de terreno de cerca de 400 metros para cada lado – no fundo o alcance das armas de tiro direto das forças em contacto – transformou-se, com o advento dos drones FPV, progressivamente mais eficazes e autónomos, numa espécie de “zona cinzenta” de cerca de 25 a 50 km.

A Ucrânia utiliza agora: enxames de drones dotados de IA; drones anti-drone igualmente geridos por IA; robôs terrestres cada vez mais sofisticados e letais, e pontos fortes defensivos escalonados em profundidade, sobretudo na região de Donetsk. A automação do campo de batalha passou a ser uma realidade em todas as componentes. A Rússia perde a sua artilharia como o “deus da guerra”; passa a depender largamente das bombas planadoras; sofre gigantescas taxas de atrição e um desmedido desgaste logístico; e enfrenta corrupção dentro do aparelho militar, doenças e moral baixo. Os ataques ucranianos a refinarias, depósitos de combustíveis e locais de exportação de ramas petrolíferas estão a estrangular a economia russa.

As sanções reforçadas começam finalmente a surtir efeito. A Rússia parece não ter muitos mais argumentos militares ou económicos para vencer. De momento, fica-se com a sensação de que a Ucrânia só precisa resistir. Uma “paz” implicando a cedência graciosa do Donbass e sem garantias de segurança para Kyiv, apenas beneficiaria Moscovo, que precisaria, ao ritmo atual, de pelo menos mais 2 a 3 anos e 800.000 a 1 milhão de homens para conquistar o que resta dessa região do Leste ucraniano.

Zelensky referiu numa entrevista à Agence France Press (AFP) na passada sexta-feira, 20 de fevereiro, que “o seu país não está a perder a guerra, que a Ucrânia retomou centenas de quilómetros quadrados numa nova contraofensiva na região de Zaporizhzhya”. "Não podemos dizer que estamos a perder a guerra… a pergunta é se a venceremos", disse aos jornalistas desta agência. 

Assim como em 1991 a URSS acabou por colapsar economicamente, perdendo a Guerra Fria, também à Rússia de Putin poderá suceder algo similar. Quanto mais tempo a economia russa irá suportar um tal esforço de guerra? É bem possível que o cronómetro já tenha entrado em contagem regressiva.


in https://sapo.pt/artigo/quatro-anos-de-guerra-na-ucrania-licoes-aprendidas-699ce3d913624b792fec7ef6?utm_source=Partilha&utm_medium=web&utm_campaign=sharebutton&fbclid=IwY2xjawQMUAZleHRuA2FlbQIxMQBzcnRjBmFwcF9pZBAyMjIwMzkxNzg4MjAwODkyAAEePGNVZbyBWHZfbKZvlU4RC9edVj5wt8Y53czpI5b7rZeJSN7WWtxyNlqTGD8_aem_KEtc58UcfyQTUqfc24hvrA

Major General//Escreve no SAPO sempre à sexta-feira

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Porque se abstêm os Portugueses?

 

O Tanto Que Grita Este Silêncio. Porque se abstêm os Portugueses?

Mais de metade dos portugueses são abstencionistas. Que motivos os levam a abster-se? Desinteresse? Protesto? Neste retrato, o escritor Nelson Nunes procura preencher uma lacuna no debate público, dando voz aos protagonistas do abstencionismo no país.

Este retrato procura suprir uma lacuna no debate na esfera pública, dando voz aos reais protagonistas do abstencionismo em Portugal. Conhecer as argumentações da maioria silenciosa que não vota revela uma dimensão mais ou menos opaca da insatisfação com o sistema político. Complementados por análises de especialistas, estes testemunhos permitem perceber melhor o fenómeno da abstenção e pensar sobre como (e se) o devemos minimizar.

Artigo completo aqui

quarta-feira, 2 de julho de 2025

As políticas públicas em Portugal

 


As políticas públicas em Portugal mudam frequentemente ou têm uma estabilidade relativa? Que fatores explicam as suas mudanças? Questões a que o novo estudo da Fundação dá resposta, analisando as opções de governos na administração pública nos últimos 44 anos. Os autores concluem que, no país, as políticas públicas são mais estáveis do que geralmente se assume e que a alternância partidária é o principal motor de mudança.


Ver aqui este trabalho da FFMS.

sexta-feira, 23 de maio de 2025

Missa, televisões e André Ventura. Ainda não é tarde para salvar a democracia

 


21 de maio de 2025

Missa, televisões e André Ventura. Ainda não é tarde para salvar a democracia

Pedro Sales Dias

O resultado das eleições de dia 18 lembraram-me o livro As Notícias. Um manual de utilização. Nele, Alain de Botton lembra-nos que agora as notícias ocupam nas nossas vidas a mesma posição dominante antes ocupada pelas religiões. Nas sociedades modernas, temos hoje ao ligar a televisão para ver o jornal do dia ou da noite a mesma atenção que outrora se tinha quando se ia à missa. E para muitos, a informação tornou-se num credo filtrado pelas suas ideias: só acreditam nos seus próprios deuses e abominam os dos povos vizinhos.

Na manhã de domingo, ainda longe de sabermos o resultado, várias televisões preteriram um antigo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e preferiram ouvir em directo o líder do Chega, André Ventura, minutos depois de votar. Ouviram-no falar do seu estado de saúde – admitindo que ainda não tinha feito todos os exames médicos — e dizer que ainda ia à missa, onde e a que horas. Explicou qual era a sua rotina de domingo. Só depois ouviram Cavaco a falar da importância das eleições em democracia.

A pergunta que se impõe é porque é que consideraram mais importante ouvir primeiro Ventura. Precisamos de saber que ele vai à missa e como está a sua saúde? Qual é o valor-notícia? Dias antes, jornalistas de várias televisões andaram numa espécie de rali entre as portas de hospitais em que Ventura foi sendo internado com refluxo gástrico, dedicando mais horas a isso do que à campanha eleitoral. André Ventura tornou-se num combustível de audiências e sabe disso. Em troca, usa as televisões para espalhar o seu evangelho. Cada um fornece ao outro o que precisa num circuito autofágico.

O estado a que chegamos, porém, não pode ser encarado como sendo inevitável. E na democracia e nos media, principalmente nas televisões privadas, torna-se de novo imperativo lembrar a mensagem do poema de Dylan Thomas: "Do not go gentle into that good night/Rage, rage against the dying of the light."

Estamos já para lá dos efeitos da desinformação. As televisões privadas apostaram no alheamento informativo que entretém – e faz subir audiências e lucro – ignorando que estão a ser instrumentais para um programa de redefinição política e social. Honra seja feita ao bom exemplo da RTP, que se mantém como último reduto, na maioria das vezes. É necessário arrepiar caminho a bem do nosso futuro colectivo e democrático. Estas eleições devem servir de reflexão a todos — inclusive aos jornalistas, que muitas vezes se colocam de fora do problema. Nunca foi tão importante salvaguardar critérios editoriais. O que fazemos tem, de facto, impacto nas decisões de cada um, no futuro.

No PÚBLICO temos essa preocupação diária. E em Abril apostamos numa grande operação de verificação de factos dos debates entre os vários candidatos às eleições legislativas. Pode ver alguns dos artigos escritos pela Bárbara Baltarejo e pela Marta Leite Ferreira em destaque na página da Prova dos Factos – com especial enfoque no debate que cativou mais interesse: o que opôs Luís Montenegro a Pedro Nuno Santos.

E a propósito dos debates eleitorais, fizemos um quiz. Será que sabe se o que disseram os candidatos é verdade ou mentira? Descubra se esteve mesmo atento e mais protegido da desinformação nos debates.

Abril foi também o mês em que foi divulgado um relatório do Medialab do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa, com o qual o PÚBLICO tem uma parceria num projecto para a detecção e desconstrução de narrativas de desinformação. O relatório conclui que o deputado do Chega, Pedro dos Santos Frazão, deu "projecção nacional" a desinformação de extrema-direita.

Continuando no Chega, ficou célebre o episódio televisivo em que André Ventura foi apanhado a mentir sobre o tamanho da casa em que vive. Num despique com Mortágua, num debate, repetira que a casa tinha "30 metros quadrados" e não era "um palacete como os do BE". No dia seguinte, na SIC, disse que foi um lapso. Afinal tem 70 metros quadrados.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

NAO VAMOS PERMITIR QUE O FASCISMO VOLTE

 

André Ventura na Igreja de Santa Cruz (Coimbra) 

Fonte da imagem: https://www.noticiasdecoimbra.pt/andre-ventura-reza-na-igreja-de-santa-cruz-em-coimbra/






Este tipo (Ventura), que anda sempre na Igreja, na missa, a bater com a mão no peito, a comungar, é o tipo que mais ódio destila e que mais prega a desunião e a desigualdade. Que católico é este?! Que farsante, que oportunista, que cínico. Ele e os seus seguidores, mais uma comunicação social que faz o favor de lhe dar tempo de antena (chega a revoltar/enojar a forma como ele controla os jornalistas e se escusa a responder-lhes), fazendo de todos os momentos momentos-comício, prepara-se para o assalto ao poder e o derrube das instituições e conquistas democráticas que alcançámos dia 25 de abril de 1974. 48 anos de ditadura não chegaram?
NÃO VAMOS PERMITIR QUE O FASCISMO VOLTE.
NÃO VAMOS.


Partilho o seguinte texto: O MOISÉS DO POPULISMO… E não, não é um partido, é uma seita!!
🥵

“Domingo à noite, o país sentou-se a ver o circo. Um circo de uma só figura, de um homem só, de um espectáculo monológico onde o palhaço também era domador, director, macaco amestrado, leão faminto e criança perdida que grita da plateia para que olhem para ele, só para ele, sempre para ele. André Ventura falou. Falou como quem cospe. Falou como quem bate. Falou como quem quer ser amado mas só sabe odiar. E parte do país, a parte do país fatigado de esperar por Deus, ouviu. Ouviu como se ouve o padre numa missa a que se vai por obrigação, como se ouve a mulher que já não se ama ou o pai que já não se respeita. Ouviu com raiva, com cansaço, com culpa.
Disse que acabara o bipartidarismo. Disse-o como quem anuncia a queda de Roma, o fim dos tempos, a libertação do povo escolhido. E ali estava ele, o Moisés do populismo, de microfone à frente e a azia no bolso como quem esconde a vergonha, prometendo terra prometida a quem nunca teve jardim. Disse que a história tinha mudado, que agora o país era outro, um país dele, feito por ele, para ele, com ele ao leme e os outros calados, de joelhos, em silêncio. Ventura quer o país em silêncio. O país de joelhos. O país em medo. Ventura não quer governar. Ventura quer mandar. E o que há de mais grave é que há quem deseje ser mandado. Há quem precise.
O Chega não é um partido. É uma carência. Um sintoma. É o vómito do país que nunca curou a sua tristeza. Que finge que é alegre no São João, no Santo António, nas bifanas do domingo, nos copos do sábado, nas sardinhas do Junho. Mas que sangra por dentro. Que odeia por dentro. Que tem raiva de si, de tudo, de todos. Ventura oferece isso: um inimigo. Um sentido. Um alvo. Se há um culpado, já não sou eu. Já não é o meu fracasso, o meu salário, a minha solidão. É o cigano, o negro, o comunista, o assistente social, o jornalista, o juiz, o reformado, o artista, o pobre, o estranho. Ventura dá um nome à frustração. E isso consola. E isso vicia. E isso mata.
O seu discurso foi uma lista de cadáveres simbólicos. “Matei o partido de Álvaro Cunhal”, disse, como se estivesse a caçar fantasmas no sótão. “Varreram o Bloco de Esquerda do mapa”, gritou, com o orgulho de quem limpa sangue do chão e chama a isso arrumação. Para Ventura, política é isso: uma limpeza. Uma desinfecção. Uma purga. Como se o país estivesse sujo e só ele, com a sua verdade puríssima, o pudesse lavar. E lavar com quê? Com insultos. Com medo. Com castigos. Com prisões perpétuas. Com castrações químicas. Com multas. Com violência.
E depois, claro, o momento cómico, se a comédia ainda tivesse graça. Atacou as sondagens. Sempre as sondagens. Sempre o mesmo coro: que o queriam calar, que o queriam derrubar, que lhe mentem, que lhe fazem armadilhas. Ventura não percebe que as pessoas viram no seu partido com vergonha de o fazer, de o dizer às sondagens. Ventura é o miúdo que jogava mal à bola e que ninguém quis na equipa e passou o resto da vida a sonhar ser capitão. E agora que lhe deram um apito, anda a expulsar todos os que correram mais depressa do que ele. Ventura não acredita em instituições. Acredita em si. Ventura não acredita em regras. Acredita no seu instinto. Ventura não acredita no país. Acredita no seu espelho.
E depois aquela frase. Aquela frase que soa a taverna com vinho barato e gritaria ao fundo. “A mama vai mesmo acabar.” Disse-o com o orgulho de quem faz justiça, mas com o tom de quem está habituado a mentir e a justificar-se com o cansaço. A mama vai acabar. A mama, quer dizer, o Estado. Os apoios. Os direitos. A solidariedade. Os serviços. A dignidade. Ventura quer um país onde só os fortes sobrevivem. Onde quem não consegue, morre. Onde quem chora, se cala. Onde quem precisa, se esconde. Porque, para ele, a vida é uma luta de cães. E ele é o dono da trela.
Mas Ventura não quer que a mama acabe. Ventura quer ser ele a mamar. Quer o lugar do outro. Quer mandar nos subsídios. Quer mandar na televisão. Quer mandar na escola. Ventura quer mandar. Ventura quer mandar. Ventura quer mandar. E o país, esse país magoado, esse país velho que já não acredita em ninguém, esse país que se esqueceu como é que se luta, esse país votou nele como quem diz: “toma, faz tu melhor.” E ele fará. Mas não será melhor. Será só mais triste. Mais cruel. Mais pequeno.
O que me espanta não é Ventura. Ventura é uma personagem de novela das seis: previsível, mal escrita, exagerada. O que me espanta é o silêncio. O silêncio dos outros. O silêncio dos bons. O silêncio dos sérios. Dos que deviam estar ali, naquele exacto momento, a dizer: basta. Mas estavam calados. Com medo de perder votos. Com medo de serem insultados. Com medo de não parecerem “populares”. E assim se mata uma democracia: não com balas. Com medos. Com cobardias. Com silêncios.
Este discurso, o de 18 de ontem, não foi um discurso. Foi uma bofetada. Foi uma noite de gritos num quarto fechado. Foi o início de qualquer coisa escura. E se não gritarmos agora, se não dissermos agora, alto e claro, que isto não é normal, que isto não é aceitável, que isto não é o país que queremos, amanhã já não poderemos falar. E depois? Depois virá o silêncio. O grande silêncio. O silêncio dos cemitérios. E Ventura sorrirá. Porque não há nada mais cómodo para quem quer mandar do que um povo sem voz. E nós estamos perigosamente perto disso. Perto de calar. Perto de baixar a cabeça. Perto de desistir.
E quando isso acontecer, será tarde. Será sempre tarde.”

Maio 2025
P/ Nuno Morna





quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

A GUERRA FRIA entre EUA e China

 

A Guerra Fria que hoje se vive entre os EUA e a China não é uma repetição da Guerra Fria do passado – é muito mais complexa e perigosa.

Anil Gupta, um dos especialistas mais influentes em globalização e mercados emergentes, explica como a China se tornou uma potência tecnológica, industrial, económica e militar, e de que forma isso está a alterar o equilíbrio de forças a nível mundial.

Assista aqui ao episódio completo no YouTube da Fundação


TRUMP: ignorância e perversidade

 

Antigos aliados de Trump condenam as suas afirmações sobre a Ucrânia e sobre Zelenski. De facto, é inqualificável o que o ditador Trump tem dito e feito! Inqualificável e da maior injustiça.

TRUMP JOGA BAIXO, COM TUDO E COM TODOS, OPORTUNISTICAMENTE CENTRADO NA SUA PERSONALIDADE EGOCÊNTRICA, COM CLARO PREJUÍZO PARA A DEMOCRACIA NORTEAMERICANA E PARA A GEOPOLITICA MUNDIAL.
A Política não é isto. Não deve ser isto mas, "o feitiço virar-se-á contra o feiticeiro". Já estamos a ver isso dentro do seu próprio partido, finalmente!
Além de doido e desajustado para o cargo que ocupa, é malformado e perigoso, como Putin. São dois criminosos à solta.

P. favor, leiam o artigo completo (jornal EXPRESSO).


Imagem retirada de https://www.newsweek.com/trump-dangerous-asteroid-awfulness-has-fallen-world-british-politician-781288



terça-feira, 17 de setembro de 2024

Como é que a sociedade portuguesa vê a corrupção? (Trabalho da Fundação Francisco Manuel dos Santos)

 



Barómetro da Corrupção

Como é que a sociedade portuguesa vê a corrupção? A Fundação lança um novo barómetro para compreender o fenómeno, considerado um dos problemas mais graves que o país enfrenta. A maioria dos inquiridos acredita que a política corrompe, considerando a integridade dos candidatos fundamental na hora de ir às urnas. Entre nesta experiência interativa e conheça os resultados do inquérito.  infografia está disponível no final da página.
Para ler o relatório, clicar aqui

terça-feira, 27 de agosto de 2024

SISMOS em Portugal. Ainda não aprendemos a lição!

 


"Os governantes estão fartos de ser avisados". Portugal tem um Sistema de Alerta Precoce de Sismos "construído" mas está "em fase de testes" desde 2021

Hoje às 07:00

Não se trata apenas de enviar SMS de alerta como a Proteção Civil já faz quando há risco de incêndios ou de cheias. Sem registo de vítimas nem danos, o sismo da madrugada de segunda-feira, o mais forte a atingir o território continental desde 1969, deixou a descoberto o que ainda está por fazer para o país estar mais bem preparado para um sismo potente, incluindo melhorar as infraestruturas e efetivar o chamado Sistema de Alerta Precoce de Sismos - que começou a ser instalado em 2021 ao largo de Sagres, mas cuja implementação ainda não está concluída

Existem mecanismos para emitir alertas preventivos de sismo, mas Portugal ainda não tem implementados os instrumentos necessários para tal. O sismo de 5,3 de magnitude na escala de Richter que abalou Portugal continental na madrugada desta segunda-feira veio relançar o debate sobre o que falta cumprir para o país estar mais bem preparado para um sismo de grandes dimensões – incluindo a implementação de um Sistema de Alerta Precoce de Sismos (EEWS, na sigla inglesa), que começou a ser instalado há alguns anos no barlavento algarvio, mas que continua por concretizar por “falta de investimento”, indica à CNN Portugal um especialista em risco sísmico.

“Um alerta preventivo seria uma possibilidade se houvesse em Portugal instrumentos para isso, instrumentos que Portugal não tem, aquilo a que chamamos Sistemas de Alerta Precoce, ou Earthquake Early Warning Systems”, diz Francisco Mota de Sá, investigador de risco sísmico do Instituto Superior Técnico (IST). “Já temos esse tipo de avisos para tsunamis, mas não para sismos. Nós quisemos instalar um desses sistemas para sismos, mas as coisas não andaram para a frente porque não havia financiamento.”

Países com elevada atividade sísmica, como o Japão, têm já em vigor os seus próprios Sistemas de Alerta Precoce de Sismos, que conseguem emitir um alerta de risco de tremor de terra entre cinco a 10 segundos antes do abalo. “O Japão tem isso tudo e mais alguma coisa, mal deteta que vai ocorrer um episódio envia imediatamente avisos para os telemóveis, para os media e por aí fora”, explica o engenheiro. “O México também tem, consegue enviar alertas com entre cinco e 10 segundos de antecedência, e os Estados Unidos também têm o seu sistema. Por cá, os governantes estão fartos de ser avisados, muitos dos meus colegas desta área, de várias universidades, já fizeram vários avisos a vários governos e ainda nada aconteceu, ninguém parece interessado…”

Investigadores de riscos sísmicos alertam que Portugal precisa de atualizar infraestruturas e concretizar a implementação do Sistema de Alerta Precoce de Sismos (Getty Images)

Em fase de testes desde 2021

Em março de 2021, a Universidade de Évora anunciava a instalação dos primeiros quatro sismómetros do país a entre 20 e 30 metros de profundidade ao largo de Sagres, no Algarve, para detetar potenciais abalos gravosos, incluindo sismos gerados “na região atlântica adjacente ao território português”, naquela que seria a primeira fase de implementação de um EEWS no país. 

Na altura, a instituição sublinhou em comunicado que a ideia era “capacitar a rede nacional de monitorização sísmica” através da instalação desse sistema de alerta precoce, que viria reforçar os sismómetros já existentes à superfície, um passo que definiu como “fundamental não só para Portugal, mas também para a Europa”. Mas mais de três anos depois, o projeto continua em fase de testes.

“Creio que o Sistema de Alerta Precoce está seguramente em fase de testes, entretanto saí do instituto e perdi o contacto com o projeto, mas sei que está construído, está desenvolvido, e quando se considerar que é fiável será colocado em funcionamento”, garante à CNN Portugal Miguel Miranda, ex-diretor do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). “Num sismo como este, a cerca de 60 quilómetros da costa de Sines, provavelmente não ganhávamos grande coisa com esse sistema, porque um sismo de 5,3 tem um tempo de desenvolvimento curto”, adianta o sismólogo. “Mas num com magnitude de 8 ou mais, que é aquilo que nos aterroriza, já podemos perder logo um quarto de hora na rutura, porque as ondas sísmicas são instantâneas, e com esse Sistema de Alerta Precoce ganhamos uns bons minutos entre sabermos que é um sismo importante e esse mesmo sismo atingir zonas mais críticas.”

Ter um EEWS em vigor permitiria, entre outras coisas, emitir alertas de risco sísmico, à semelhança do que a Proteção Civil já faz quando há risco de incêndios ou de cheias, através do envio automático de mensagens SMS à população. “Pelas nossas contas, conseguiríamos enviar um aviso entre cinco a 10 segundos antes [do sismo]”, explica Francisco Mota de Sá. “Cinco segundos parece pouco tempo mas dá para muita coisa, sobretudo no que toca a sistemas automatizados, por exemplo, dá para interromper processos que envolvem máquinas variadas e que estão a acontecer” quando é emitido o alerta. 

Para Miguel Miranda, o sismo desta madrugada provou que os sistemas de observação sísmica “estão a funcionar muito bem”, mas acima de tudo deve servir para “impulsionar uma melhoria dos sistemas”, nomeadamente concretizar a implementação do primeiro EEWS em Portugal, e adaptar as infraestruturas para que esse sistema seja eficaz. “O sistema de alerta precoce ainda precisa de uma outra coisa, que é infraestruturas preparadas para, por exemplo, de uma forma automática, ligarem geradores de emergência, cortarem pipelines de gás natural, diminuírem a velocidade dos comboios de alta velocidade – infelizmente ainda não os temos, mas quando tivermos, esse sistema será absolutamente essencial.”

"Um sismo no mesmo sítio com magnitude superior a 6 seria diferente"

O sismo desta madrugada, o mais forte a atingir o território continental em mais de meio século, foi localizado com rapidez, mas é incerta a profundidade do seu epicentro. O Serviço Geológico dos EUA fala em 10,7 quilómetros de profundidade, o Centro Sismológico Euro-Mediterrânico refere uma profundidade de cinco quilómetros, a rede nacional sísmica aponta para 19 quilómetros de profundidade. Como refere Francisco Mota de Sá, “normalmente é o IPMA que tem equipamentos para calcular esses dados, mas seria preciso ter uma rede sísmica mais bem montada para conseguir localizar o epicentro de forma mais rápida”.

“Falta precisão e, para isso, precisamos de estações no fundo do mar, e isso não temos, porque é muito caro”, acrescenta Mourad Bezzeghoud, professor catedrático da Universidade de Évora que esteve envolvido no projeto de instalação das quatro estações sísmicas em furos ao largo de Sagres. “Essas quatro estações foram instaladas no âmbito de um projeto europeu, graças aos fundos europeus conseguimos comprar as estações, mas não há investimento a longo prazo do próprio Estado, só a curto prazo, o prioritário é o dia a dia, mas não se olha para o futuro.”

Confirmando que o EEWS português está ainda em fase de testes, Bezzeghoud destaca que “os alertas precoces são obviamente importantes em qualquer evento catastrófico, mas o mais importante é a prevenção, é ter a população preparada e os edifícios preparados” e aí Portugal continua atrasado. Zonas com elevada atividade sísmica, como o Japão e a Califórnia, lidam com sismos como o desta madrugada e com magnitudes superiores “com poucos danos porque tudo está preparado, e o problema aqui em Portugal, e na Europa de forma geral, é esta falta de preparação”, refere o geofísico.

“O mais problemático nem são os SMS, porque acho que a população hoje em dia já está mais preparada do que há 10, 20 ou 30 anos, com as alterações climáticas acho que toda a gente já está sensibilizada para estes fenómenos. Agora, ouvimos o Governo a dizer que está tudo bem, mas não está tudo bem, desta vez tivemos um sismo de 5,3 a 19 quilómetros de profundidade, por isso não aconteceu nada, mas um sismo no mesmo sítio com magnitude superior a 6 seria diferente, há uma ordem de grandeza diferente.”

Sismo fez-se sentir sobretudo na região de Lisboa e Vale do Tejo

Falhas de comunicação

“Atualmente”, refere Francisco Mota de Sá, “a Proteção Civil não tem meios para enviar alertas prévios à população, só consegue depois de o sismo já ter ocorrido” – o que também não foi o caso esta madrugada. Sentido às 05:11 da manhã, com epicentro a 58 quilómetros a oeste de Sines, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) só emitiu um primeiro comunicado pelas 05:40, tendo “privilegiado o Facebook” para passar informações à população.

“O sismo foi sentido às 05:11 e às 05:40 foi quando tivemos a confirmação dos diferentes comandos regionais e subregionais de que, de facto, não houve danos pessoais nem materiais”, indicou o porta-voz da ANEPC, André Fernandes, numa conferência de imprensa durante a manhã. No rescaldo imediato do sismo, foi detetado um “pico de chamadas” para os serviços de Proteção Civil, período durante o qual o site do IPMA esteve em baixo, levando o grupo Iniciativa Cidadãos pela Cibersegurança a alertar para as “fragilidades” da morada online do único organismo capacitado para detetar e recolher dados precisos sobre sismos em território português. “Numa ocorrência deste tipo seria de esperar que o site do IPMA fosse a principal, mais fiável e segura fonte de informação, [mas] infelizmente não foi”, referiu o grupo, notando que o site esteve em baixo “entre as 05:11 e, pelo menos, as 05:40/05:55”. 

Ao longo desse período de mais de meia hora, apenas os utilizadores Android receberam alertas para o abalo que acordou inúmeras pessoas em sobressalto, sobretudo na região de Lisboa e Vale do Tejo. O Google também disponibilizou de imediato informações sobre o sismo e recomendações à população para quem recorreu ao motor de busca no rescaldo do tremor de terra.

Os responsáveis da ANEPC dizem que foi dada primazia ao Facebook para a divulgação das primeiras informações sobre o sismo porque os dados mostram que “as pessoas acorrem mais a essa rede social” nestes eventos. Também adiantaram que a comunicação imediata com a população só está prevista quando estão em causa sismos com uma magnitude mínima de 6,1 na escala de Richter, por acarretarem maior risco de tsunamis – mas “a questão não se limita à magnitude”, destaca Francisco Mota de Sá.

“Não é só a magnitude que, por si só, torna útil o envio de um alerta, é a magnitude e a localização, a que distância está o epicentro. Este sismo de 5,3, se tivesse sido em terra ou muito próximo de alguma povoação, poderia ter causado danos muito graves – 5,3 de magnitude debaixo dos pés já causa muitas chatices.”

"Surpreendidos por um sismo moderado"

Os especialistas são unânimes a considerar que é preciso concretizar um sistema de alerta precoce também para sismos, nas palavras de Mourad Bezzeghoud “para que as autoridades, as forças de emergência e de segurança, possam rapidamente preparar o país para esse impacto e minimizar a destruição e as consequências” do abalo – incluindo emitir um aviso imediato à população que permita reduzir o número de feridos, de vítimas mortais e de danos à propriedade.

“Seria bom melhorar o sistema de alerta via SMS que, aliás, já existe, mas é sabido que não podemos impedir a ocorrência de um sismo”, observa o especialista da Universidade de Évora. “O que podemos fazer é tomar as devidas precauções para minimizar as suas consequências, quer no plano económico, quer no plano humano. A redução do número de vítimas durante um sismo passa por adaptar as estruturas dos edifícios e de outros tipos de obras” – e aqui ainda há trabalho a fazer. “O Estado faz auditorias, há planos de construção, mas não me parece que haja cuidado com isto. Há, aliás, poucos países com este cuidado, só aqueles com grande sismicidade. Acompanho a sismicidade nesta zona, o IPMA faz um acompanhamento automático também, e sabemos que esta é uma zona com sismicidade fraca a moderada, o que não significa que não vamos ter sismos mais fortes no futuro. Este sismo veio confirmar a suspeita de que há falhas geológicas também nesta zona, e acabámos por ser surpreendidos por um sismo moderado quando antes havia sismos de mais fraca magnitude nesta zona.”

Numa visita à sede nacional da Proteção Civil esta manhã, Paulo Rangel, o ministro de Estado e da Presidência que está a acumular funções como primeiro-ministro durante as férias de Luís Montenegro, disse que o sismo sentido esta madrugada foi “um teste real às nossas capacidades de resposta no caso de uma catástrofe grave” e sublinhou que esteve em contacto “estreitíssimo” com a Proteção Civil desde o primeiro momento.

O ministro Paulo Rangel fala num "teste" às capacidades dos diferentes organismos e instituições portugueses (Lusa)

“Sobre aquilo que são os planos que estão já testados e vistos há muito tempo, que têm de ser constantemente atualizados e renovados, houve aqui alguma projeção para o futuro no sentido de preparar as estruturas portuguesas, a proteção civil nacional e regional, e a população em geral para termos capacidade de resposta”, disse Rangel. Questionado sobre o eventual resultado desse teste, o ministro fez uma “avaliação muito positiva quanto à capacidade de resposta, à prontidão da resposta, à forma como a informação circulou”. 

Em declarações aos jornalistas, o Presidente da República teceu os mesmos elogios à “capacidade de resposta muito rápida” das autoridades e à “muito boa coordenação entre o Governo e a Proteção Civil”, adiantando que o Palácio de Belém foi informado do sucedido minutos depois de o abalo se ter feito sentir. “Funcionou aquilo que devia ter funcionado”, assegurou Marcelo Rebelo de Sousa.

Ecoando a mesma ideia de Miguel Miranda, o engenheiro Francisco Mota de Sá admite que, na zona onde foi registado este sismo, “no vale inferior do Tejo, um Sistema de Alerta Precoce, mesmo que avançado, não conseguiria avisar com antecedência, porque as ondas sísmicas chegam sempre mais depressa do que os alertas”. Contudo, destaca que a instalação desse sistema em Sagres “faria todo o sentido” – “devia haver pelo menos um sistema no sul de Portugal, no sudoeste algarvio, no cabo de Sagres, que tem uma localização ótima para instalar um sistema destes”, refere o especialista. 

A CNN questionou a ANEPC e o IPMA sobre em que fase se encontra o Sistema de Alerta Precoce de Sismos no território continental e como respondeu durante este sismo, mas não obteve resposta até à publicação deste artigo. Também não recebeu resposta do Governo sobre se vão ser dados passos para melhorar os sistemas de comunicação de risco sísmico após o abalo desta madrugada.

domingo, 18 de junho de 2023

Metsola na Assembleia da República

A tragédia de Pedrógão e o esquecimento do governo

 



16 de junho de 2023 - Memorial aberto sem inauguração. Seis anos depois, Pedrógão Grande sente-se esquecido


Para espanto e mágoa dos que ainda choram a tragédia do fogo de 2017, a abertura do memorial às vítimas aconteceu sem a presença dos mais altos representantes da nação

 Memorial aberto sem inauguração. Seis anos depois, Pedrógão Grande sente-se esquecido

Silêncio, lágrimas e suspiros. A primeira reacção de quem perdeu familiares ou amigos no fogo de 2017, assim que dá de caras com o muro no qual foram gravados os nomes das vítimas, oscila entre a saudade e o respeito. “Ainda mexe muito, está tudo muito presente”, confessava Maria Graciete, depois de reconhecer vários nomes de amigos e vizinhos, de Castanheira de Pêra, cravados naquele bloco de pedra cinzenta. Não que eles estivessem esquecidos. Pelo contrário. “Não temos outra estrada para passar e não há dia em que não me lembre deles”, reforçava, com os olhos postos no grande lago artificial que, juntamente com o mural, constitui o memorial de homenagem às vítimas dos incêndios de 2017.

https://www.publico.pt/2023/06/16/sociedade/reportagem/memorial-aberto-inauguracao-seis-anos-pedrogao-sentese-esquecido-2053629


Maria José Santana (Texto) e Adriano Miranda (Fotos)