segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Avaliação de Professores e Currículo Nacional...

... ou a árvore que tapa a vista!

Como mais uma árvore surpreendida em pleno acto de obstrução da vista da floresta, o debate sobre a avaliação de professores interpôs-se entre milhares de observadores e o decreto-lei 75/2010, de 23 de Junho, prejudicando a compreensão dos estragos que a legislação tem vindo a provocar no ensino público — foram sucessivas investidas organizadas por sucessivos ministérios, culminando no presente diploma. O 75/2010 é a revisão mais recente, nova etapa de um caminho que vem lá dos anos 1990, era ministro da educação Roberto Carneiro e presidente da República Mário Soares.

O 75/2010 funciona, dado o processo de gestação, como um carro «kitado»: tem custos quase semelhantes aos de um Aston Martin usado, mas nunca deixará de ser um carro «kitado»: tem um ar barato, mas saiu-nos caro; contém erros de base, que não são corrigíveis por adaptações; começa a acumular as imperfeições e incoerências naturais a um processo de 20 anos de corte e costura, de colagem, de remendo, de expediente legislativo. Está aí, em boa medida, uma das principais fontes de disparate educativo. E no entanto, alguém questiona o 75/2010? Nah!

Olhemos de perto algumas afirmações (podemos pegar quase por qualquer lado) que constam do mais recente decreto-lei que altera o estatuto da carreira dos educadores de infância e dos professores dos ensinos Básico e Secundário:

Tem o pessoal docente «o direito à autonomia técnica e científica e à liberdade de escolha dos métodos de ensino, das tecnologias e técnicas de educação e dos tipos de meios auxiliares de ensino mais adequados, no respeito pelo currículo nacional, pelos programas e pelas orientações programáticas curriculares ou pedagógicas em vigor» (alínea c) do art.º 5.º). Esta disposição tem a ver com a liberdade do professor num quadro laico, republicano e democrático, e está muito bem, quase até ao fim. Aí, a menção das orientações pedagógicas em vigor é ao arrepio de tudo o que vem dito antes. O que são as orientações pedagógicas em vigor? Constam de alguma disposição legislativa, com aplicação nacional? Então o pedagogo não é um docente autónomo, obrigado a respeitar um programa nacional? Mais: está obrigado ao dever profissional de «orientar o exercício das suas funções por critérios de qualidade, procurando o seu permanente aperfeiçoamento e tendo como objectivo a excelência» (alínea b) do art.º 10.º). Por enquanto, muito bem, também.

Mas, logo a seguir, em matéria de deveres para com os alunos, já se reza assim: Constitui dever específico «organizar e gerir o processo ensino-aprendizagem, adoptando estratégias de diferenciação pedagógica susceptíveis de responder às necessidades individuais dos alunos» (alínea d), art.º 10.º-A, introduzida pelo 15/2007). Ora isto pode ser lido numa perspectiva de diminuição da liberdade de escolha dos métodos de ensino; já explicarei porquê.

Um pouco mais adiante, no capítulo dos deveres para com a escola, deve o professor «cumprir os regulamentos, desenvolver e executar os projectos educativos e planos de actividades e observar as orientações dos órgãos de direcção executiva e das estruturas de gestão pedagógica da escola» (alínea b), art.º 10.º-B). Isto pode ir na mesma linha de diminuição do princípio de liberdade pedagógica… preconizado lá atrás, no art.º 5.º.

Mais uns passos e fala-se de conteúdo funcional da carreira docente nestes termos «o docente desenvolve a sua actividade profissional de acordo com as orientações de política educativa e observando as exigências do currículo nacional, dos programas e das orientações programáticas ou curriculares em vigor, bem como do projecto educativo da escola.» (art.º 35.º n.º 2). Bom, é o sobressalto. Porquê? Basta reproduzir, aqui, a título de exemplo, um excerto de um projecto educativo:

«[...] As capacidades e as competências dos alunos são desenvolvidas de forma holística, procurando-se que eles se tornem co-construtores dos seus próprios currículos, de acordo com os seguintes princípios:

• Afirmação e aprofundamento dos saberes (capacidades, conhecimentos, competências e valores) de cada aluno que promovam o seu desenvolvimento.

• Criação de situações de aprendizagem que permitam a livre expressão de ideias, a reflexão, o desenvolvimento do espírito crítico e da cidadania, a capacidade de resolução de problemas e a cooperação. Procura-se igualmente tornar as aprendizagens úteis e significativas e reforçar o sentimento de pertença a uma comunidade, atribuindo visibilidade às produções dos alunos e socializando-as. […]»

É por demais evidente que este tipo de frase é tão fluido de contornos que permite todas as interpretações que a imaginação nos queira sugerir. No entanto, só quem não conheça os desenvolvimentos do ensino público nacional não entende logo que estas formulações abrem a porta às teses construtivistas de sempre, sob todas as suas formas e modas; ao debate estéril baseado em coisa nenhuma. O pensamento crítico sobre questões complexas pressupõe conhecimentos sólidos, o mesmo podendo dizer-se da capacidade de resolução de problemas.

A recusa da abstracção, e da leitura de uma realidade outra que não a mais imediata no espaço e no tempo, são uma forma de anti-intelectualismo que é, evidentemente, anti-civilização. A valorização de ensaios medíocres, em nome da auto-estima de crianças que vêem esforços praticamente nulos serem premiados como se de grandes coisas se tratassem, são uma ajuda paradoxal, infelizmente, à anulação de qualquer capacidade crítica.

Por outras palavras: a conjugação do 75/2010 com a prática de muitas escolas está, na realidade, a produzir uma inesperada mas real autonomia do ensino aí praticado. Sem sequer negociar com o Ministério qualquer contrato de autonomia (para isso, ver outro decreto-lei, sobre o novo modelo de gestão: o n.º 75/2008 de 22 de Abril).

O conselho pedagógico produz um documento fundamental chamado «projecto educativo»; submetido à direcção, esta leva-o ao conselho geral; este, aprova; a escola faz, a partir daí, o que bem entende em matéria de pedagogia, o que pode envolver o melhor mas, igualmente, os mais redondos disparates científicos.

Resta saber se o professor que detecta o disparate, face a um programa que o obriga, e que é nacional, deve vergar-se à moda do estabelecimento… Porque o 75/2010 deixa a dúvida a pairar, embora o bom senso e a prática da Lei recomendem a opção pelo mais geral.

Mas não só: esse professor é responsável, perante o estado, pelo cumprimento do currículo nacional, e do programa da disciplina. O contrato é com o estado português, não é com esta ou aquela escola. Não é, em definitivo, com um conselho pedagógico… feito de não-pedagogos à mistura com pedagogos como ele — mas no conjunto, de facto, maioritariamente alheios à sua disciplina.

Nos momentos de avaliação (no fim do ano; nas épocas de exame), o professor deve ser responsabilizado pelos resultados que os seus alunos obtiveram. Como é que se responsabiliza um docente que não foi deixado livre na escolha da pedagogia?

E que possibilidade tem o cidadão — que está a pagar esta escola — de verificar se o que se lá faz é bom para a República? Por enquanto, pouca: os exames nacionais, e o cotejo dos resultados das provas dos internos com as classificações internas da frequência. Actualmente, há pautas inteiras de alunos que vão a exame com 14 a 19 e saem de lá com 4 a 9; parece haver uma docência defensiva: no balanço, passam, embora não possam usar a negativa como disciplina específica de acesso à faculdade. Mas, que diabo!, acabam o Secundário…

É magro, mas é importante. Podemos inclusivamente aceitar que as escolas continuem a fazer o que bem entendem, se forem aferidas pela qualidade e consistência dos resultados (mais do que pela quantidade de passagens não certificadas pelos exames); serão, eventualmente, sujeitas a actos de inspecção, quer como escolas, quer dirigidos a docentes individuais. Esses actos de inspecção só podem ser de dois tipos: os programas nacionais estão a ser convenientemente ministrados? E a escola dispõe de todas as condições para apoiar os profissionais que os ministram?

E, sobretudo, isso situa o debate onde ele deve estar. Se queremos cidadãos intelectualmente activos, empreendedores, críticos, tolerantes, solidários, bons participantes na República — é bom que tenhamos jovens instruídos e educados, para começar.

À escola pública compete, sobretudo, a instrução: a transmissão de conteúdos, por pessoal treinado e competente. Cabe à escola ministrar factos de civilização e cultura com os comentários respectivos na História, ou ferramentas de pensamento em Filosofia ou em Geometria. Cabe aos encarregados de educação o enquadramento dos meninos na vida. E ao próprio aluno o trabalho, a meditação a síntese. E a boa prestação de provas.

A educação não é da exclusiva responsabilidade dos professores, nem deve ser a primeira das suas aptidões: não foram treinados para tal. Vem por acréscimo, mas não deixa de ser uma parte integrante daquilo que, sobretudo, compete aos encarregados de educação.

O professor é o principal encarregado de instrução.

Então, de preferência a entreter-se com a questão (interessante, e secundária) da avaliação de professores, onde deve o cidadão manter o olhar assestado?: ora, na qualidade do currículo geral e dos programas (com conteúdos integrados, de degrau em degrau da progressão escolar), e na qualidade dos exames que verificam a qualidade da aprendizagem! São estas, de resto, as funções nobres do ministério da Educação que, se sobretudo tratar de tais assuntos, bem pode ser drasticamente reduzido — optimizado — com benefícios para os cidadãos. É isto que garante a inclusão dos mais pobres: o «elevador social».

De que grande reforma — essa sim — carece a República? Da do programa nacional de estudos — do ensino obrigatório público.

Está logo atrás da árvore...

Professor António Mouzinho

domingo, 30 de outubro de 2011

Julho 2011 - Nuno Crato

Recordar a primeira entrevista do Professor Nuno Crato - actual Ministro da Educação.
Um bom exercício... de reflexão!

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Debate sobre tauromaquia

... NA TVI - 31 DE OUTUBRO


Para começar gostaria de lembrar o que disse Charles Darwin, o homem que mais conviveu com animais não humanos:


«Não há diferenças fundamentais entre o homem e os animais nas suas faculdades mentais. Tanto os animais, como os homens, demonstram sentir prazer, dor, felicidade e sofrimento».

Na próxima Segunda-feira, dia 31 de Outubro, no programa «Você na TV», na TVi, realizar-se-á um debate sobre Tauromaquia.

Pela luta anti-tourada estarão presentes o Comendador Tomé de Barros Queiroz, presidente da Sociedade Protectora dos Animais, o Dr. Vasco Reis, médico veterinário, e o Professor Paulo Borges, da Universidade de Lisboa, grande defensor da causa animal, e presidente do PAN (Partido pelos Animais e pela Natureza).

Do lado pró-tourada estão confirmados os administradores do site TouroeOuro.com, o Secretário-Geral da PróToiro, Dr. Diogo Costa Monteiro e o Prof. Doutor Joaquim Grave.

Deste debate espera-se que se esclareça, de uma vez por todas, algumas das questões mais pertinentes relacionadas com este espectáculo que não dignifica o ser humano, nem o povo português, nem Portugal, nem o ser não humano que é sacrificado, num ritual obscuro e primitivo – o Touro.

As principais questões poderão ser as seguintes:

*** O MASSACRE DE TOUROS onde a tortura, a crueldade, o sadismo e a impiedade imperam será:


ARTE?

FESTA?

PATRIMÓNIO?

CULTURA?



*** Será um espectáculo que imprime DIGNIDADE ao ser dito humano, que nele participa, ou ao Touro, um mamífero superior, cujas entranhas são de todo semelhantes à do homem, e portanto sofrerá horrores às mãos dos seus carrascos?

*** Que se diga se um Touro, tal como TODOS os outros animais vertebrados e com sistema nervoso central não sente DOR, quando é bárbara e covardemente torturado.

*** Que se diga se o Touro não sente MEDO, FOME, SEDE, tal como qualquer animal humano.

Os pró-tourada baseiam-se em três argumentos que caem pela sua fragilidade:


TRADIÇÃO (que não é argumento) porque uma tradição só sobrevive se acompanhar a evolução de mentalidades;


CULTURA (algo demasiado sangrento para ser cultura);


E ARTE (a arte da tortura, do fazer sangrar, da crueldade e da morte).

Também se espera, que nesta questão sejam envolvidas as seguintes entidades que, neste momento, além de serem CÚMPLICES do MASSACRE DE TOUROS em Portugal, são SUBMISSAS ao lobby tauromáquico, o que não deixa de ser um acto indigno de subserviência, que poderá ficar para a História.


O GOVERNO PORTUGUÊS (que não cumpre o seu papel).


OS DEPUTADOS DA NAÇÃO (que têm medo de se pronunciarem).


O PRESIDENTE DA REPÚBLICA (que se remete ao silêncio, quando devia interferir)


A IGREJA CATÓLICA (que “abençoa” os Massacres, não cumprindo com as suas funções cristãs)


A ORDEM DOS MÉDICOS VETERINÁRIOS (que despreza a Ética que os levaram a abraçar esta profissão)


A COMISSÃO NACIONAL DA UNESCO (que ainda não tomou uma posição pública definitiva, apenas fez uma Declaração em 1980)


OS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL (que dão cobertura à violência e à tortura de um ser vivo)


DOM DUARTE PIO DE BRAGANÇA (que ainda promove as Touradas Reais, muito tempo depois do Marquês de Pombal as ter proibido)


E TODOS OS QUE DIRECTA OU INDIRECTAMENTE SE ENVOLVEM NESTES MASSACRES: CLUBES, MARCAS E ASSOCIAÇÕES DE SOLIDARIEDADE.



Victor Hugo dizia que a proteção dos animais faz parte da moral e da cultura dos povos.


Se estas entidades nada fizerem no sentido da ABOLIÇÃO DO MASSACRE DE TOUROS EM PORTUGAL, os seus nomes e as suas caras ficarão para sempre ligadas a esta barbárie, como gente que não soube proteger a Moral e a Cultura do seu povo.

Isabel A. Ferreira

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

domingo, 23 de outubro de 2011

Alterações Climáticas - Somos Todos Responsáveis


No dia em que mais uma tragédia aconteceu, desta vez na Turquia, vale a pena reflectir sobre as alterações climáticas e sobre todos os horrores que as mesmas têm provocado e provocarão, enquanto não se tomar consciência da gravidade deste problema e da importância de uma tomada de posição a nível mundial que passe pela adopção de uma Política - Política de Ambiente - verdadeiramente séria para o planeta, a cumprir, na prática, por todos os intervenientes, particularmente os países mais poluidores e com maior capacidade de intervenção a este nível, e que não se fique meramente pelos acordos de ocasião ou tratados, que, na prática, não cumprem ou fingem cumprir. 
São cada vez mais frequentes e cada vez mais graves os desastres ambientais que acontecem pelo mundo fora, com consequências terríveis a todos os níveis, sobretudo, as perdas humanas que têm ceifado com os sismos, inundações, seca, tsunamis, furacões, entre outros, e com as fomes e desastres humanitários daí resultantes.

As mudanças climáticas são a maior ameaça ambiental do século XXI, com consequências profundas e transversais a várias áreas da sociedade: económica, social e ambiental. Todos nós, sem excepção, estamos a ser afectados por esta questão: cidadãos comuns, empresas, governos, economias e, mais importante de todos, a natureza.

Sempre foram registadas ao longo dos milhares de anos que o planeta Terra tem. O problema prende-se com o facto de, no último século, o ritmo entre estas variações climáticas ter sofrido uma forte aceleração e a tendência é que tome proporções ainda mais caóticas se não forem tomadas medidas.

A ocorrência de ondas de calor e secas são fenómenos cada vez mais frequentes, e as consequentes perdas agrícolas representam uma ameaça real para as economias mundiais.

No cerne destas mudanças estão os chamados gases de efeito estufa, cujas emissões têm sofrido um aumento acentuado. O CO2 (dióxido de carbono) é o principal gás negativo desses designados de efeito estufa, e são consequência directa do uso/queima de combustíveis fósseis como o carbono, o petróleo e o gás com fins de produção energética.


É, por isso, imprescindível reduzir as emissões deste tipo de gases. Como? Eliminando, progressivamente, o uso massivo dos combustíveis fósseis, substituindo-os pelas energias renováveis, fomentando a poupança de energia e eficiência energética.

A actividade humana foi apontada, em 2007, por cientistas especializados nesta área e reunidos sob o Painel Intergovernamental de Alterações Climáticas, como sendo a principal causa destas mudanças do clima.


Ao mantermos uma atitude inerte e apática perante esta questão, corremos o risco de sermos expostos a eventos climáticos extremos e imprevisíveis (como os que têm vindo a ser noticiados nos últimos tempos) e com efeitos nefastos para todo o mundo!

A temperatura, no século passado, registou um acréscimo de 0,76ºC. A previsão é que no presente suba entre 1,1 a 6,4ºC, dependendo das medidas mitigadoras que sejam encetadas.

Este incremento da temperatura média tida como normal em mais 2ºC pode induzir respostas céleres, imprevistas e não-lineares que podem desencadear danos irreversíveis nos ecossistemas terrestres.




O EFEITO DE ESTUFA

sábado, 22 de outubro de 2011

"As pessoas estão zangadas, infelizes e frustradas"

Entrevista à criminologista Suzella Palmer*

(Foto de Stefan Wermuth/Reuters)

A criminologista Suzella Palmer é especialista em gangs, crime e juventude na Universidade de Bedfordshire. Fez pesquisa intensa sobre o crime juvenil na comunidade negra e participou num documentário sobre gangs para a BBC em 2009. Conhece de perto a realidade das ruas.

Como lê os motins em Inglaterra?

Não aprovo a violência, os incêndios, os roubos, mas percebo e há razões muito importantes por detrás do que se está a passar. Precisamos de olhar para as causas. Acho que isto é uma chamada de atenção para toda a sociedade britânica.

Que tipo de chamada de atenção?

As pessoas estão zangadas, infelizes, frustradas. Estamos a atravessar problemas económicos, mas comparando com outros países ainda somos um país próspero. Muitas das nossas crianças estão zangadas e infelizes com muitas coisas e precisamos de ter tempo para as ouvir, coisa que não temos feito.

Há a ideia de que isto é mais sobre telemóveis e televisões plasma do que propriamente um protesto.

Acho que é um protesto contra o facto de não estarem a ser ouvidos. É interessante que os assaltos sejam feitos por miúdos que saem à rua e agarram em qualquer coisa: telemóveis, bebidas, qualquer loja. É quase uma reacção à prosperidade do país a que estes jovens não têm acesso. Quando se olha para as multinacionais, vê-se que direccionam as suas campanhas de marketing para os jovens. E eles sentem uma enorme pressão para consumir, só que não têm oportunidade de ganhar o dinheiro de forma legítima para o fazer. E isso é um problema. Depois os cortes todos que afectam os benefícios sociais, as propinas e a falta de oportunidades de trabalho não deixam os jovens na posição de serem os consumidores que são pressionados a ser. E isso gera frustração.

Também há questões que têm a ver com respeito. Eu sinto e vejo que os jovens são totalmente desrespeitados pela sociedade. Quando olhamos, por exemplo, para a justiça criminal, os jovens estão a ser criminalizados a um ritmo acelerado. Aquilo que temos de perceber é que é normal que os jovens se rebelem e se envolvam em comportamentos anti-sociais. Há muitas coisas que os jovens fazem hoje que são feitas há milénios, mas hoje eles são criminalizados. Estou a pensar, há 30 anos podia ser estridente em público falar alto, mas hoje os jovens são criminalizados por isso. Claro que não se trata de ignorar o facto, mas faz-se através de orientação e apoio, e se os vamos punir então que não seja através do sistema criminal - porque aí sentem-se criminosos. Colocam-lhes rótulos, tratam-nos como criminosos e eles começam a agir como se fossem.

Da sua experiência, como é que um protesto que começou pequeno comparado com as proporções que atingiu agora, cresce e se alastra?

Pelo sentido de injustiça partilhado por muita gente e por diversas razões. Alguns porque não têm acesso ao mercado de trabalho, alguns porque não têm acesso ao ensino superior, outros pela forma como são tratados pela polícia - em particular os negros e as minorias étnicas. Há uma longa história de problemas da polícia com os negros neste país. Ou seja, é um sentimento de injustiça, mas a forma como cada um sente e é afectado por elas é diferente.

Tudo começou com o protesto contra a polícia (pela morte de Mark Duggan) e as pessoas, brancos e negros, sentem-se frustradas com a polícia e com a Comissão Independente de Queixas contra a Polícia. Nunca aconteceu um polícia ser punido apropriadamente por ter morto um civil - e isso gera descontentamento com mais uma morte às mãos da polícia.

A psicologia explica o comportamento em grupo: individualmente, podemos não agir com violência, mas se outras pessoas no grupo o fazem é quase como se sentíssemos que também o podemos fazer - deixamos de nos ver como indíviduos para passar a vermo-nos como parte de um grupo.

Depois há outro factor: como sociedade, não desafiámos suficientemente a polícia - não o podemos fazer de nenhuma maneira, seja fisicamente, seja em tribunal - e isto está a ser um desafio à polícia. As pessoas vêem que a polícia pode ser desafiada. Se se olhar para os incidentes dos últimos dias, houve muitos confrontos e grupos de jovens que foram para a rua apenas para desafiar a polícia. Sentem-se com poder: são constantemente parados e presos e vejo muitos relatórios na minha extensa pesquisa de jovens serem agredidos pela polícia sem razão há gerações e gerações. Eu aconselho a fazerem queixa mas as respostas que tenho é que acham que ninguém os vai ouvir. A geração mais velha falhou em perceber as necessidades da nova geração - eles dizem muitas vezes que se sentem deixados para trás.Os relatórios mais recentes sobre os motins falam de uma massa que não é apenas composta de jovens, nem apenas de negros, mas que atravessa raças e gerações.

São pessoas que sentem injustiça por diferentes razões mas juntam-se porque vêem um grupo a confrontar o sistema e o Estado e partilham este sentido de injustiça. Pode ser um jovem branco que sente injustiça pelo aumento de propinas ou pela falta de trabalho, pode-se encontrar a classe trabalhadora mais velha que se sente discriminada. Há um sentido partilhado de injustiça. É importante não fazer generalizações: não se trata apenas de jovens a roubar. É mais complexo. Mas é bastante importante aqui a questão entre a polícia e a comunidade negra.

Joana Gorjão Henriques, Londres, In PÚBLICO de 11.8.2011


*A criminologista Suzella Palmer é especialista em gangs, crime e juventude na Universidade de Bedfordshire. Fez pesquisa intensa sobre o crime juvenil na comunidade negra e participou num documentário sobre gangs para a BBC em 2009. Conhece de perto a realidade das ruas.

Amnistia Internacional: change minds, change laws, change lives.


Desde que começaram as campanhas em 1961, a AMNISTIA INTERNACIONAL - AI tem trabalhado em todo o mundo para pôr termo ao abuso dos Direitos Humanos.

Em 1961, um advogado Inglês, Peter Benenson lançou uma campanha mundial (“Apelo para Amnistia 1961”) com a publicação de um artigo proeminente “Os Prisioneiros Esquecidos” no Jornal “The Observer”. A notícia da detenção de dois estudantes portugueses que elevaram os seus copos para brindar em público à liberdade, levou Benenson a escrever este artigo. O seu apelo foi publicado em muitos outros jornais pelo mundo fora tornando-se assim na génese da Amnistia Internacional.

A primeira reunião internacional teve lugar em Julho de 1961, com delegados da Bélgica, do Reino Unido, França, Alemanha, Irlanda, Suíça e dos EUA. Decidiram estabelecer “um movimento permanente em defesa da liberdade de opinião e de religião ".

Um pequeno escritório e uma pequena biblioteca, dirigida por voluntários, abriu em Peter Benenson’s chambers, em Mitre Court, Londres. A “Rede dos Três” foi então estabelecida consistindo no facto de cada grupo da Amnistia Internacional adoptar três prisioneiros de diferentes áreas geográficas e políticas de modo a enfatizar a imparcialidade do trabalho de cada grupo.

No Dia dos Direitos Humanos, 10 de Dezembro, a primeira vela da Amnistia (o logotipo da Amnistia é uma vela envolta em arame farpado) foi acesa na Igreja de St-Martin-in-the-Fields, em Londres.

Para saber mais:
http://www.amnistia-internacional.pt/
http://www.amnistia-internacional.pt/files/relatorioanual/Relatorioanual2011/RA2011_Introducao_Secretario_Geral.pdf