sábado, 22 de outubro de 2011

"As pessoas estão zangadas, infelizes e frustradas"

Entrevista à criminologista Suzella Palmer*

(Foto de Stefan Wermuth/Reuters)

A criminologista Suzella Palmer é especialista em gangs, crime e juventude na Universidade de Bedfordshire. Fez pesquisa intensa sobre o crime juvenil na comunidade negra e participou num documentário sobre gangs para a BBC em 2009. Conhece de perto a realidade das ruas.

Como lê os motins em Inglaterra?

Não aprovo a violência, os incêndios, os roubos, mas percebo e há razões muito importantes por detrás do que se está a passar. Precisamos de olhar para as causas. Acho que isto é uma chamada de atenção para toda a sociedade britânica.

Que tipo de chamada de atenção?

As pessoas estão zangadas, infelizes, frustradas. Estamos a atravessar problemas económicos, mas comparando com outros países ainda somos um país próspero. Muitas das nossas crianças estão zangadas e infelizes com muitas coisas e precisamos de ter tempo para as ouvir, coisa que não temos feito.

Há a ideia de que isto é mais sobre telemóveis e televisões plasma do que propriamente um protesto.

Acho que é um protesto contra o facto de não estarem a ser ouvidos. É interessante que os assaltos sejam feitos por miúdos que saem à rua e agarram em qualquer coisa: telemóveis, bebidas, qualquer loja. É quase uma reacção à prosperidade do país a que estes jovens não têm acesso. Quando se olha para as multinacionais, vê-se que direccionam as suas campanhas de marketing para os jovens. E eles sentem uma enorme pressão para consumir, só que não têm oportunidade de ganhar o dinheiro de forma legítima para o fazer. E isso é um problema. Depois os cortes todos que afectam os benefícios sociais, as propinas e a falta de oportunidades de trabalho não deixam os jovens na posição de serem os consumidores que são pressionados a ser. E isso gera frustração.

Também há questões que têm a ver com respeito. Eu sinto e vejo que os jovens são totalmente desrespeitados pela sociedade. Quando olhamos, por exemplo, para a justiça criminal, os jovens estão a ser criminalizados a um ritmo acelerado. Aquilo que temos de perceber é que é normal que os jovens se rebelem e se envolvam em comportamentos anti-sociais. Há muitas coisas que os jovens fazem hoje que são feitas há milénios, mas hoje eles são criminalizados. Estou a pensar, há 30 anos podia ser estridente em público falar alto, mas hoje os jovens são criminalizados por isso. Claro que não se trata de ignorar o facto, mas faz-se através de orientação e apoio, e se os vamos punir então que não seja através do sistema criminal - porque aí sentem-se criminosos. Colocam-lhes rótulos, tratam-nos como criminosos e eles começam a agir como se fossem.

Da sua experiência, como é que um protesto que começou pequeno comparado com as proporções que atingiu agora, cresce e se alastra?

Pelo sentido de injustiça partilhado por muita gente e por diversas razões. Alguns porque não têm acesso ao mercado de trabalho, alguns porque não têm acesso ao ensino superior, outros pela forma como são tratados pela polícia - em particular os negros e as minorias étnicas. Há uma longa história de problemas da polícia com os negros neste país. Ou seja, é um sentimento de injustiça, mas a forma como cada um sente e é afectado por elas é diferente.

Tudo começou com o protesto contra a polícia (pela morte de Mark Duggan) e as pessoas, brancos e negros, sentem-se frustradas com a polícia e com a Comissão Independente de Queixas contra a Polícia. Nunca aconteceu um polícia ser punido apropriadamente por ter morto um civil - e isso gera descontentamento com mais uma morte às mãos da polícia.

A psicologia explica o comportamento em grupo: individualmente, podemos não agir com violência, mas se outras pessoas no grupo o fazem é quase como se sentíssemos que também o podemos fazer - deixamos de nos ver como indíviduos para passar a vermo-nos como parte de um grupo.

Depois há outro factor: como sociedade, não desafiámos suficientemente a polícia - não o podemos fazer de nenhuma maneira, seja fisicamente, seja em tribunal - e isto está a ser um desafio à polícia. As pessoas vêem que a polícia pode ser desafiada. Se se olhar para os incidentes dos últimos dias, houve muitos confrontos e grupos de jovens que foram para a rua apenas para desafiar a polícia. Sentem-se com poder: são constantemente parados e presos e vejo muitos relatórios na minha extensa pesquisa de jovens serem agredidos pela polícia sem razão há gerações e gerações. Eu aconselho a fazerem queixa mas as respostas que tenho é que acham que ninguém os vai ouvir. A geração mais velha falhou em perceber as necessidades da nova geração - eles dizem muitas vezes que se sentem deixados para trás.Os relatórios mais recentes sobre os motins falam de uma massa que não é apenas composta de jovens, nem apenas de negros, mas que atravessa raças e gerações.

São pessoas que sentem injustiça por diferentes razões mas juntam-se porque vêem um grupo a confrontar o sistema e o Estado e partilham este sentido de injustiça. Pode ser um jovem branco que sente injustiça pelo aumento de propinas ou pela falta de trabalho, pode-se encontrar a classe trabalhadora mais velha que se sente discriminada. Há um sentido partilhado de injustiça. É importante não fazer generalizações: não se trata apenas de jovens a roubar. É mais complexo. Mas é bastante importante aqui a questão entre a polícia e a comunidade negra.

Joana Gorjão Henriques, Londres, In PÚBLICO de 11.8.2011


*A criminologista Suzella Palmer é especialista em gangs, crime e juventude na Universidade de Bedfordshire. Fez pesquisa intensa sobre o crime juvenil na comunidade negra e participou num documentário sobre gangs para a BBC em 2009. Conhece de perto a realidade das ruas.

Amnistia Internacional: change minds, change laws, change lives.


Desde que começaram as campanhas em 1961, a AMNISTIA INTERNACIONAL - AI tem trabalhado em todo o mundo para pôr termo ao abuso dos Direitos Humanos.

Em 1961, um advogado Inglês, Peter Benenson lançou uma campanha mundial (“Apelo para Amnistia 1961”) com a publicação de um artigo proeminente “Os Prisioneiros Esquecidos” no Jornal “The Observer”. A notícia da detenção de dois estudantes portugueses que elevaram os seus copos para brindar em público à liberdade, levou Benenson a escrever este artigo. O seu apelo foi publicado em muitos outros jornais pelo mundo fora tornando-se assim na génese da Amnistia Internacional.

A primeira reunião internacional teve lugar em Julho de 1961, com delegados da Bélgica, do Reino Unido, França, Alemanha, Irlanda, Suíça e dos EUA. Decidiram estabelecer “um movimento permanente em defesa da liberdade de opinião e de religião ".

Um pequeno escritório e uma pequena biblioteca, dirigida por voluntários, abriu em Peter Benenson’s chambers, em Mitre Court, Londres. A “Rede dos Três” foi então estabelecida consistindo no facto de cada grupo da Amnistia Internacional adoptar três prisioneiros de diferentes áreas geográficas e políticas de modo a enfatizar a imparcialidade do trabalho de cada grupo.

No Dia dos Direitos Humanos, 10 de Dezembro, a primeira vela da Amnistia (o logotipo da Amnistia é uma vela envolta em arame farpado) foi acesa na Igreja de St-Martin-in-the-Fields, em Londres.

Para saber mais:
http://www.amnistia-internacional.pt/
http://www.amnistia-internacional.pt/files/relatorioanual/Relatorioanual2011/RA2011_Introducao_Secretario_Geral.pdf

Balada para a velha ilha

Ilha de Moçambique

Horas mortas, quando o luar passeia,

As brancas tranças desfeitas, pela areia,

Há sombras do passado a deslizar

Por entre os muros, no cimo dos portais,

Nas rochas e nas pedras carcomidas,

Contando histórias velhas, já perdidas

Na distância e na bruma do não-mais.

Tinem ferros, há vozes e canções,

Soluços e murmúrios de orações

(Há quem afirme e teime que é o mar... )

Subindo em espirais feitas de mistério

Ao encontro dos passos de quem passa.



Ecos dispersos de um longínquo império,

roçar de sedas nos salões desertos

dos seculares palácios sem vivalma.

E dizem que de túmulos abertos

Surgem guerreiros, bispos e donzelas



Que vão depois seguindo, à luz da lua,

Tacteando as paredes, rua em rua,

Até que a aurora venha e se debruce

Em rubores de menina, pelas janelas.



E dizem mais... e contam... e afirmam...

(Bem sei que é lenda. É lenda e fantasia

— Mas que seria a vida sem o sonho

E que seria duma velha ilha

Sem o perfume, a estranha maravilha,

Da lenda a envolvê-la em poesia?... )



Guilherme de Melo

*Ilha de Moçambique

Foto in http://olhares.aeiou.pt/noite_de_luar_na_ilha_de_mocambique_foto2119476.html?nav1

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Os finlandeses querem que os filhos sejam professores


A Finlândia surge sistematicamente no topo dos estudos PISA, em que tri-anualmente a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) examina as capacidades dos alunos de 15 anos em Ciência, Matemática e Leitura. O investigador finlandês Jouni Välijärvi surgiu numa sala apinhada de professores portugueses, num encontro organizado pelo Ministério da Educação na quarta-feira, em Lisboa, no papel de mestre a quem pedem que ensine "como se faz". No fundo, queriam saber o que é a Finlândia tem de especial? Välijärvi, director do Instituto Finlandês para a Investigação em Educação, na Universidade de Jyväskylä, explica que muito está na base, no ensino primário, onde um professor motivado e bem preparado acompanha os alunos durante seis anos.


Muito do trabalho a fazer é na primária (Ricardo Silva)

Defende que um dos segredos do sucesso finlandês é a qualidade do ensino primário. Por que é que os professores da primária têm tanta popularidade?

Tem muito a ver com a nossa história. A Finlândia só é independente há 100 anos e os professores primários eram colocados por todo o país para espalhar a identidade nacional. É umas razões que explicam uma popularidade tão alta. Ser professor primário é tão prestigiado como ser médico ou advogado: os pais querem que os filhos sejam professores primários e, quando perguntam aos miúdos que acabaram o secundário que carreira querem seguir, a profissão surge nos dois primeiros lugares. E muitos dos que têm essa ambição não a conseguem alcançar, porque é muito difícil entrar para o curso.

A popularidade estende-se aos professores do secundário?

Depende das áreas. No secundário, muitas vezes ir para professor não é uma primeira escolha, é um recurso, e isso tem reflexos na motivação dos professores e na aprendizagem.

Por que é que ser professor primário é tão apelativo?

Uma das coisas mais importantes é a autonomia, em que cada professor organiza o trabalho como entende, por isso a questão da avaliação é muito sensível. As aulas estão muito fechadas sobre si mesmas, o que é uma força do sistema mas também uma fraqueza. Mas o facto é que os pais confiam nos professores e nas escolas.

Na Finlândia, o ensino primário prolonga-se por seis anos, as crianças ficam durante este período com o mesmo professor. Isso é importante?

Sim, é a base de tudo. Costuma ser um professor que trabalha com eles ao longo dos seis anos, mas há escolas que dividem os anos por dois professores e pode haver outros professores que ajudam nalgumas matérias, por exemplo, em Matemática ou Desporto. Fica ao critério da escola.

Os poucos chumbos que existem são na primária...

Analisando os alunos do 9.º ano, constata-se que só 2,6 por cento chumbaram e a grande maioria foi na primária. É mais eficaz reter um aluno um ano no início do que este ter que repetir um ano mais tarde, porque é uma altura em que estão a ser dadas as bases. Os professores finlandeses têm expectativas muito altas em termos académicos, incluindo os primários, mais até do que noutros países nórdicos. Por exemplo, na Dinamarca o ensino está mais centrado no bem-estar e felicidade das crianças do que nos resultados académicos. O modelo finlandês mistura os dois factores, preocupa-se com a felicidade e com a parte cognitiva, o que se traduz na aquisição de certos níveis na Escrita, Leitura e Matemática, algo que também já é importante na pré-primária.

O que faz com que um professor seja bom?

Perguntámos isso a alunos e concluímos que é quando sentem que percebe do tema que ensina e também, e este aspecto é interessante, quando sentem que se interessa por eles e está disposto a ter conversas que lhes dizem algo e que não têm necessariamente a ver com a cadeira que lecciona.

Questões como a sexualidade?

Sim, mas também quando o professor os ajuda a escolher o caminho que vão seguir, que está disposto a discutir com eles o porquê das suas escolhas.

As escolas finlandesas têm turmas pequenas. Este poderá ser outro factor de sucesso?

São pequenas e os professores defendem que devem ser ainda mais pequenas. Eu sou céptico em relação à utilidade de reduzir as turmas. Actualmente, na primária, em média, temos 21 alunos por turma, no secundário 19. Eu acho que não é possível chegar a um número óptimo, que a dimensão das turmas deve depender dos alunos, do que se ensina. Até porque ter turmas mais pequenas significa ter mais professores e isso implica aumentar gastos. Penso que o dinheiro pode ser usado para criar mais apoios de acordo com o contexto de cada escola: há escolas em que 15 por cento são imigrantes.

Uma das conclusões da OCDE é a de que pagar bem a professores resulta em melhores resultados, porque aumenta a sua motivação. Até certo nível. O importante são as condições de trabalho como um todo, o salário é um sinal. O mais importante é os professores sentirem que, quando têm dificuldades, não estão sozinhos, o que não é o caso em muitos países.

A Finlândia é um dos países onde se passa menos tempo na escola.

Quando se está na escola está-se concentrado na escola, quando se sai vai-se fazer outras coisas, são tempos perfeitamente separados. Na Coreia [outro país bem classificado no PISA], os alunos levantam-se às 6h00 e voltam a casa às 21h00, e ainda têm que fazer trabalhos de casa. Para estes jovens, a escola e a educação são tudo na vida. Os finlandeses, entre tempo na escola e trabalhos de casa, passam um total de 30 horas por semana, face a 50 horas da Coreia.

Moral da história?

A forma como os países conseguem bons resultados é completamente diferente. Esse é o reverso da medalha destes estudos internacionais que incentivam a imitação. Os países podem aprender uns com os outros, mas tem que se ter muito cuidado em transplantar modelos.

Por Catarina Gomes in Público on-line 2.5.11

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O discurso de Passos Coelho




O discurso da praxe. Mais do que ensaiado para convencer quem convencido nunca ficou ou ficará com este malabarismo verbal a que já nos habituámos nos PM em cenários de crise. O discurso da treta dito por mais um primeiro-ministro que mentiu aos portugueses. Um PM sem coragem política para fazer o que prometera, que defraudou as expectativas dos que o ajudaram a chegar onde está e que desonrou o compromisso assumido aquando da sua tomada de posse.


Demagógico e com uma arrogância política que já vem fazendo escola por S. Bento, apresenta-se-nos completamente rendido aos centros financeiros mundiais, perfeitamente ciente de que o problema se resolve roubando aos que quase nada de seu têm, servindo compulsivamente planos perversos de uma política externa claramente e exclusivamente vendida aos interesses do capital e rendida aos encantos de Bruxelas e do FMI.

Retrocedemos em matéria de direitos constitucionalmente adquiridos e assistimos à delapidação gradual da democracia e da justiça social.

Governa-se para as elites, “para inglês ver”, não se governa para quem poder lhes delegou e assim lho confiou.

Fazem da governação um clube privado, como se a política ao povo não diga respeito.

Fazem pouco do povo. Indignam o povo.

Tomam medidas que na prática roubos são e servem-se dos míseros salários de quem trabalha para tentar “salvar a economia”, como se não houvesse grandes fortunas onde mexer, legislação para aplicar e cortes a fazer em bens sumptuários constantemente adquiridos pelo estado para proveito das elites políticas, bem como, o desperdício financeiro que escandalosamente comete e não pára de aumentar.

Passos Coelho já sabia da situação que o esperava e de nada lhe vale andar sempre com o nome de José Sócrates na boca para justificar os roubos que continua a fazer a quem trabalha e os atropelos constitucionais que tem cometido com o auxílio de certas bancadas da AR e do próprio PR, como também já vem sendo hábito.

Se votaram nele não foi para que continuasse as políticas antidemocráticas que já vinham sendo seguidas e cujos alvos principais foram justamente a função pública e a classe média em geral, sem falar dos desempregados e da maioria dos reformados.

Um dos seus ministros – o da Solidariedade e Segurança Social – teve a ousadia de dizer há dias que as medidas de austeridade acautelaram sectores estratégicos da economia nacional.

Acautelaram o quê, senhor ministro? A Educação? A Saúde? A Produção Nacional?

Acautelaram, sim, o contínuo enriquecimento das personagens habituais, as reformas chorudas de gente da política, alguns com passagem meteórica pela AR, ministérios ou secretarias de estado, PR, bancos e outras empresas públicas, fundações que ninguém sabe onde estão e o que fazem, subsídios a clubes de futebol onde impera a maior corrupção e tráfico de influências e onde os salários que se pagam são escandalosamente escondidos ao fisco que só não vê porque não quer…

Haja vergonha! Haverá?

O povo sairá à rua para exigir o que lhes prometeram e que agora lhes negam. Em nome da Banca, em nome do capital estrangeiro e em nome da dependência e servilismo que continuamos a preferir em vez do investimento interno e da aposta nacional nos sectores-chave, caso da Agricultura e da Educação.

Neste, tem-se cortado a torto e a direito com uma indiferença e desprezo completo pelo analfabetismo científico e cultural do país, perante o qual fazem vista grossa.

"Só seremos competitivos se acrescentarmos valor económico àquilo que produzimos", afirmou recentemente o Dr. Artur Santos Silva que, tal como o Professor Carlos Fiolhais, consideram "prioridade das prioridades" a melhoria da qualidade do ensino, a começar pelo ensino básico.

No entanto, que têm feito estes governos?

Têm posto de lado gente qualificada e recursos humanos de âmbito diverso com os quais se desenvolveria o país se houvesse vontade política e verdadeiro espírito de inovação e empreendedorismo, decisivo para a saída da crise económica e social e da dependência do exterior.

Um PM em condições olha para o seu país e incentiva-o a produzir mais, a trabalhar mais, com uma dinâmica que passa pela concertação social e harmonização de interesses. Não faz o que tem feito e pretende continuar a fazer, tornando mais miserável um povo sacrificado e já faminto, a quem roubam dinheiro, direitos e dignidade.

Um PM em condições e um governo em condições jamais iria mexer nos míseros 1.000 euros sabendo a pouca vergonha que por aí anda, camuflada ou não, de grandes fortunas, fraudulentas ou não.

Pouco falta para o regresso de uma nova ditadura, desta vez muito mais cínica e perversa, com gente que se aproveitou do voto popular e da vulnerabilidade dos cidadãos cada vez mais pobres e mais roubados, para ascender nacional e internacionalmente, agir despoticamente e daí tirar proveitos político-partidários.

Muito mal se tem feito a quem honestamente vive do seu mísero salário, seja de 1.000 euros, 1.500 euros, 300 euros, 500 euros… como este corte que mais roubo é, de ir buscar parte do subsídio de Natal a quem dele sempre precisou para viver.

Hoje, tudo serve para cortar pequenas regalias de pleno direito conquistadas desde Abril de 1974. Como se mais nada houvesse para corrigir défices escandalosos de governos e governos de “sacanas sem lei” que tudo fizeram para se governar mas que não governaram efectivamente. Pelo contrário.

Vivemos demasiado tempo um “centralismo democrático” que pôs em perigo, durante muito tempo, a democracia e a capacidade de reivindicação do povo, num estranho torpor e estranho aceitacionismo, tal a tentativa de o minar na sua intervenção cívica.

Mas o povo reergue-se e reerguer-se-á sempre para enfrentar os ditadores e os que lhe tolhem os gestos e lhes amordaçam as bocas.

E contra os manipuladores da lei e usurpadores dos direitos se levantarão as gentes em busca do que é seu.

Continuam as desigualdades sociais, injustiças sociais, compadrios, clientelismo e discursos populistas.

Que faz esta “nova gente”? O mesmo ou pior do mesmo, até na oposição que se faz no hemiciclo ou na imprensa habitual, reduzidos que estão a uma mera e pobre retórica de ocasião, repetida e estéril em ideias e projectos.

Não é pelo que dizemos que o somos mas sim pela forma como o fazemos. Albert Schweitzer, a propósito, dizia que dar o exemplo não era a melhor maneira de influenciar os outros – era a única!

Pelos vistos, continuamos a ter maus exemplos, maus políticos e, claro, más políticas.

Tem singrado quem é corrupto, continuam as impunidades e os favorecimentos para os do costume, a insensatez e injustiça nas medidas político-económicas, agora, escudadas nas exigências da troika ou UE, o desemprego, a precariedade e a miséria dos que sempre trabalharam para sobreviver (e mal) aumenta tragicamente e a falta de condições e de investimento colocam-nos perigosamente ao lado do abismo. Abismo social.

As negociações não tiveram nem têm em conta o sacrifício constante dos explorados de sempre e a austeridade não está a ser para todos.

Como é que se pode falar de justiça social com pessoas a viver no limiar da pobreza, com 300 e tal euros por mês, famintas, doentes, enquanto outros arrotam a dinheiro e o desperdiçam em futilidades que uma certa imprensa faz o favor de nos recordar?

O Sr. PM engana-se quando diz que “Todos os Portugueses estão a sentir nas suas vidas os efeitos de um terrível estrangulamento financeiro da nossa economia”.

O Sr. viabilizou o orçamento para 2011 mas rápido se esqueceu das reais motivações por que o fez, isto é, fez questão que nele estivessem contidas reduções significativas da despesa pública e partiu desse pressuposto para resolver os problemas mas, já viu que não chegou e, sobretudo, que ao cometer os mesmo erros de Sócrates penhorado continuará a ter o país.

A meio do ano esperava que metade desse orçamento tivesse sido devidamente executado, mas, segundo o INE, nada disso aconteceu. No entanto, isso não pode constituir justificação para a penalização brutal e cruel a que condenou a maioria da classe trabalhadora deste país, designadamente, os funcionários públicos que ganham os tais míseros 1000 euros.

“É preciso que os Portugueses compreendam todos os contornos da situação actual” – só pede, Sr. PM, só corta e só ameaça. Afinal, o que é que dá, a quem dá e quanto dá, Sr. PM?

Acho graça quando diz que no passado nos habituámos a tolerar as derrapagens orçamentais e que isso se tornou num hábito político que é urgente reparar! E que este ano todos tinham a obrigação de já ter aprendido a lição. Que é isto, Sr. PM? Ironia de mau gosto? “Todos deviam?” Por que é que não se tem a coragem, a dignidade, se faz justiça indo aos bolsos de quem o tem, acabando com mordomias milionárias como as que vemos na política, em certas empresas estatais, privadas, semi-privadas, administradores das mesmas, gestores das mesmas, reformados da política que acumulam, ainda, funções e salários milionários, carros, gabinetes, secretárias, motoristas… certos clubes de futebol, certos jogadores de futebol, certos dirigentes e certas SADs que se arrogam de intocáveis em matéria de fiscalidade sob a bênção dos governos e secretarias de estado?

Negociar sem agravar socialmente é possível, sim, mas é preciso querer fazê-lo com transparência e rigor. Com ética.

Fernando Savater, um homem que muitos deveriam ler, disse um dia: “ O nosso primeiro interesse enquanto homens está em sermos realmente humanos. A crença perigosíssima de que tudo o que se faz em favor do partido é bom e tudo o que prejudica o partido é mau deve ser combatida”.

O endividamento do Sector Público empresarial é obsceno e o senhor bem sabe porquê. O Sr e o Srs que o antecederam, incluindo o Sr. Presidente da República que nesta matéria inocente não é.

É revoltante voltar a ouvir-se que em termos orçamentais - para 2012 - haverá cortes muito substanciais nos sectores da Saúde e da Educação e que foram até onde puderam ir! Que hipocrisia, Sr. PM e que falta de visão política e social. Dois sectores imprescindíveis mais uma vez sacrificados. Corte, isso sim, nos gastos supérfulos dos gabinetes de ministros, secretários de estado, deputados… proponha medidas que levem a uma moralização da vida política! Proponha e defenda a todo o custo que o exemplo venha de cima e que a Justiça tenha mão pesada nos casos de enriquecimento ilícito, evasão fiscal e fuga de capitais, entre outros.

Que impede um governo de o fazer?

Temos forma de amortizar o défice e compor as finanças internas? Precisamos de dinheiro? Sim, temos, mas não se busque onde nunca farto foi, pelo contrário.

Quando recordo as palavras de Warren Buffett no seu artigo Stop coddling the super-rich (Deixem de mimar os super-ricos), no New York Times de 14 de Agosto, no qual se questiona sobre a razão que justifica que os ricos paguem menos impostos que os pobres, fico revoltada, precisamente porque, tal como eu, também ele responde “Absolutamente nada!”.

E a revolta é sobretudo por saber que os ricos, nos EUA como aqui, sabem que os governos os têm apoiado nestas benesses fiscais que continuam a manter-lhes, estejamos em crise ou não. E isto é nojento: pedem-se sacrifícios aos pobretanas do costume enquanto descaradamente se protege e poupa quem muito ajudar podia sem que daí mal não lhes viesse.

Aquele multimilionário conta, inclusive, que pagara em 2010 apenas 17,4% de impostos sobre os seus rendimentos enquanto os seus empregados pagaram 33 a 41%!!!

O que é isto, meus senhores?

Democracia não é.



Nazaré Oliveira

domingo, 16 de outubro de 2011

A Educação em Portugal: um retrato europeu

Com a devida vénia, um artigo publicado no De Rerum Natura - 14 de Outubro de 2011


"Educação: o futuro de Portugal" foi o tema da sessão desta quinta-feira do ciclo "Grandes Debates do Regime", que decorreu, como tem sido hábito, no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Carlos Fiolhais, professor catedrático de Física da Universidade de Coimbra, Artur Santos Silva, Presidente do Conselho de Administração do BPI e Marioa de Lurdes Rodrigues, ex-titular da pasta da Educação, foram os oradores convidados.

A taxa de abandono escolar precoce em jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos é, actualmente, "o maior flagelo" de Portugal no domínio educacional, segundo revelou Carlos Fiolhais, que abordou o tema da palestra num contexto europeu, recorrendo para isso a diversos indicadores comparativos com o cenário registado, ao longo das últimas décadas, na União Europeia (UE).

Segundo o docente da Universidade de Coimbra, que é também responsável pelo programa de Educação da Fundação Francisco Manuel dos Santos, essa taxa, que em 2000 se cifrava nos 44%, desceu para 31% em 2009, um resultado positivo, mas que, na sua óptica, ainda é "mau", pelo facto de a UE ter registado uma média de 14% e pretender chegar a 10%, em 2020.

"Melhorámos bastante neste domínio, mas ainda estamos muito longe das metas pretendidas, pois, pior do que nós, só Malta", adiantou, referindo que, em Portugal, a taxa de abandono escolar é mais elevada nos homens do que nas mulheres.

Para Carlos Fiolhais, o grau de qualificação dos portugueses é, de uma forma geral, muito baixo, consequência - adiantou - de um forte "passivo" acumulado a esse nível ao longo dos anos. A percentagem da população activa com um grau superior nas áreas da ciência e tecnologia, ou equivalente, coloca Portugal no fundo da tabela europeia, entre a Roménia e a Turquia.

Em contrapartida, de 2000 a 2008, Portugal foi o país da UE que mais cresceu (193%!) em termos da formação de alunos diplomados em Ciência e Tecnologia, contribuindo assim para que o objectivo europeu de crescimento, que era apenas de 15%, tivesse sido largamente superado.

Ao nível da Ciência, que, para o orador, é indissociável da Educação ("sem Educação não há Ciência", afirmou), destaque para o facto de Portugal figurar no quarto lugar a nível europeu, no que respeita à percentagem de mulheres cientistas.

No entanto, apesar dos progressos registados, ainda há, em sua opinião, um défice acentuado no ensino das ciências, no que qualificou de "literacia científica". "O nosso problema, hoje, já não é, felizmente, o analfabetismo, mas sim o que poderemos chamar de 'analfabetismo científico'", observou, preconizando a necessidade de "mais e melhor Ciência, em particular na escola básica, incluindo até no jardim-de-infância.

"O factor chave é a preparação do professor ou educador, pois só alguém que trate a Ciência por tu a consegue transmitir aos jovens", afirmou Fiolhais, confessando nunca ter compreendido o significado do velho aforismo de que é "de pequenino que se torce o pepino".

"Nunca percebi essa história do pepino, pois é de pequenino que se torce o... destino", concluiu.



Ver intervenções na íntegra do Professor Carlos Fiolhais, Doutor Santos Silva e Professora M Lurdes Rodrigues aqui.