sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Papel destinado à Mulher no novo regime




Em 1932, em resposta a uma pergunta de António Ferro sobre qual seria o papel destinado à mulher no novo governo e regime (…) Oliveira Salazar afirmou que «…a mulher casada, como o homem casado, é uma coluna da família, base indispensável de uma obra de reconstrução moral» e «a sua função de mãe, de educadora dos seus filhos, não era inferior à do homem». Segundo ele, devia-se deixar «o homem a lutar com a vida no exterior, na rua… E a mulher a defendê-la, no interior da casa». Para Salazar, os homens e as mulheres não eram encarados como indivíduos mas como membros da família, o núcleo primário «natural» e «orgânico» do Estado Novo corporativo.

As mulheres, que constituíam o «esteio» dessa família tradicional defendida pela ideologia salazarista, tinham sido atiradas pelo regime liberal para o mercado de trabalho onde entravam em concorrência com os homens e, por isso, com o novo regime, deveriam regressar ao «lar». Para defender esse regresso à família e a separação de esferas de actuação entre homens e mulheres, Salazar aparentemente valorizou o papel de mãe e de esposa. Mas a apregoada «superioridade» feminina era derivada da sua função «natural» – portanto biológica.

Como a ideologia salazarista não se pautou pelos conceitos de «cidadania», de «igualdade» e de «liberdade», só aceitou o princípio da «diferença sem a igualdade» em vez «da igualdade na diferença», reservou às mulheres uma esfera própria de actuação – privada e pública – mas não atribuiu ao espaço feminino um valor igual ao do masculino. (…) As leis que no regime salazarista regularam os direitos políticos das mulheres e a sua situação na família, no trabalho e na sociedade, basearam-se na Constituição de 1933. Embora afirmando a igualdade de todos os cidadãos perante a lei e negando «o privilégio do sexo», esta incluía uma cláusula que consagrava as excepções ao princípio de igualdade constitucional: «salvo, quanto às mulheres, as diferenças da sua natureza e do bem da família».

(…) O Código do Processo Civil de 1939 reintroduziu o poder concedido ao marido de requerer a entrega e «depósito» judicial da mulher casada. Este possibilitava ao marido, em caso de saída da mulher da casa familiar, exigir judicialmente que ela fosse aí compulsivamente «depositada» em sua casa, como se fosse um fardo. As mulheres deixaram também de poder exercer comércio, viajar para fora do país, celebrar contratos e administrar bens sem o consentimento do marido. (…) O casamento tornou-se indissolúvel (…) e todos os casados pela Igreja – a larguíssima maioria -, que se separavam, já não se podiam voltar a casar. Esta situação (…) gerou (…) ligações extra-matrimoniais não legalizadas e aumentou o número, já de si grande, dos filhos ilegítimos. (…) Curiosamente, o Estado Novo foi o primeiro a conceder em Portugal o direito de voto e de elegibilidade às mulheres, embora sob certas condições (…). No entanto, (Salazar) especificou que o voto feminino não tinha sido conquistado pelas mulheres mas «decretado» pelo Chefe.



Texto (parte) apresentado por Irene Pimentel na sessão de abertura do Congresso Feminista/ 26 de Junho de 2008, in caminhosdamemoria.wordpress.com

terça-feira, 13 de setembro de 2011

domingo, 11 de setembro de 2011

Que palestra!

11 de Setembro de 2001

 

11 DE SETEMBRO DE 2011




Foto da autoria de Francisco Torgal
 

Pobres, Políticos, Seriedade

Mendigos à beira-mar, de P. PICASSO
O livro de Paul Collier - Os Milhões da Pobreza: Por Que Motivo os Países mais Carenciados do Mundo Estão a Ficar cada vez mais Pobres? – é interessantíssimo, com uma abordagem muito clara de um problema complexo e doloroso que persiste, que nos envergonha, precisamente porque ainda não houve da parte de quem verdadeiramente pode (e deve) aquela vontade enorme de acabar com este flagelo e este horror.
A sua leitura, como tantas outras leituras e pensamentos, levou-ma a escrever estas linhas pensando justamente que a pobreza não é inevitável e a ajuda e formas para a combater existem, do mesmo modo que o esbanjamento de uns é e será sempre desgraça de outros.

A indiferença dos grandes centros de decisão política e económica mundial perante as desigualdades cada vez mais contrastantes do mundo actual, o individualismo e arrogância dos países mais ricos, a sedução por carreiras na política e na banca rápidas, com ganhos escandalosamente fáceis, o fascínio pela mediatização meteórica de quem sempre à sombra esteve, a falta de formação política e cultural, a falta de seriedade, de humanidade, a indiferença dos governantes perante a adversidade do seu povo, o autoritarismo da sua acção e a forma como se continuam a apropriar do Poder, continuarão a demolir a democracia, alheios que estão ao clamor do povo a que pertencem, até ao dia em que esse mesmo povo os confronte, olhos nos olhos, com a real dimensão da sua perversidade e mesquinhez.

Este livro de Paul Collier levou-me, mais uma vez, a esta constatação e a esta angústia. Faz uma abordagem extraordinariamente inteligente e muito acessível da pobreza, um dos factores que mais conflitualidade gera no mundo actual e que mais se tem imposto para esta terrível diferenciação entre ricos e pobres (países e pessoas), trazendo para a reflexão a corrupção e aquela gente que continua a fazer da mesma o seu modus vivendi e modus operandi graças, claro, ao avolumar da miséria humana que vai provocando, à diferenciação social consequente e à conflitualidade interna e externa que naturalmente ocasionará, tornando cada vez mais instável as relações de vizinhança entre países e a concretização dos tratados de paz e de ajuda alimentar, entre outros, que garantam estabilidade e justiça para todos.

Mas muitos governantes continuam a servir-se das Política, melhor dizendo, acham-se políticos mas não são governantes e, nesse sentido, afastam-se premeditadamente e de forma vil de tomadas de posição que verdadeiramente visem o bem comum, o bem-estar do seu povo. E até falseiam, na prática, os acordos bilaterais efectuados, ferindo de morte e de cinismo a harmonia tão desejada, incentivando, com uma parcialidade política repugnante, as decisões acordadas quer se trate de situações de cessar-fogo, de acudir humanitariamente às populações, de as proteger e defender.

As relações internacionais não se compadecem da falta de integridade moral dos seus elementos, caso contrário, nada passará, como tem passado, de meros encontros ocasionais e promocionais.

Também considero que dentro das nações, sobretudo as que vivem mais profundamente esta tragédia e este drama da pobreza, o confronto entre reformadores e líderes corruptos está a ser ganho por estes últimos. E não estou a pensar só na África Subsaariana!

Embora compreenda que os conflitos armados actuais têm na sua base, quase todos, o problema da dependência do petróleo e a exploração de outros recursos naturais, continuo a considerar fulcral a má governação que deriva, naturalmente, da inexistência de bons políticos, leia-se, políticos sérios, seriamente envolvidos com o seu povo e não com a sua carreira e projecção política.

Políticos sérios que levem a sério ACÇÕES SÉRIAS, planeadas quer economicamente quer comercialmente e militarmente, no sentido de ajudarem, realmente, a combater os verdadeiros factores que tanta dor têm trazido a tanta gente por esse mundo fora, aos mais pobres, aos desfavorecidos de sempre da sorte e da vida.

De nada valerão os tratados de paz, ajudas humanitárias, sorrisos diplomáticos e fotos de conjunto se não houver seriedade na Política.

Jamais se resolverá a pobreza no Mundo e a injustiça no Mundo enquanto se continuar a fazer de conta que se faz aquilo que de facto, pouco ou nada se faz:

olhar para o outro e ajudá-lo, porque devo e posso, e não por mera atitude de caridadezinha política, como quem uma esmola dá porque da bajulação necessita e dela espera tirar proveito.

Nazaré Oliveira



Mais leituras:
http://www.whiteband.org/
http://www.worldmapper.org/textindex/text_poverty.html
http://www.madrimasd.org/blogs/universo/2008/10/16/103747
http://www.schwartzman.org.br/simon/causasp.html
http://www.monografias.com/trabajos12/podes/podes.shtml
http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1309943272N1oFR1kd5Wr48SW2.pdf
http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/diarioeconomico/edicion_impresa/economia/pt/desarrollo/1046490.html

sábado, 10 de setembro de 2011

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Carta da PIDE sobre a fuga de 5.000 judeus alemães

6.09.1938 - Transcrição de uma carta confidencial escrita pela PVDE (P.I.D.E.) a alertar o MNE (Ministério dos Negócios Estrangeiros) sobre os perigos que se avizinham devido ao facto de 5.000 judeus irem deixar a Alemanha.



Exmo. Senhor Director Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros




Com referência ao ofício de V. Ex.ª nº 75-Proc.33, 1 de 3 do corrente, tenho a honra de sobre o assunto fazer referência ao nosso ofício nº 72/38 de 23 de Março de 1938.


Nestas circunstâncias, parece a esta polícia que os nossos consulados devem dificultar a imigração de judeus, tanto mais que a Itália deliberou ultimamente a sua expulsão, o que vem a engrossar a massa invasora.


É do nosso conhecimento que 5.000 médicos vão deixar a Alemanha. A sua fixação em Portugal seria funesta para os médicos nacionais.


A prática tem-nos demonstrado que o judeu estrangeiro é, por norma, moral e politicamente indesejável.


A Bem da Nação

(...)


P.S. : De acordo com a imagem que se apresenta (mapa), no período de 1938-1939 fugiram da Alemanha cerca de meio milhão de judeus que se espalharam por cerca de 30 países, a saber:

África do Sul, 26.100; Argentina, 63.500; Austrália, 8.800; Bélgica, 30.000; Bolívia, 7.000; Brasil, 8.000; Canadá, 6.000; Caraíbas, 3.500; Dinamarca, 2.000; Eslováquia, 5.000; Espanha, 3.000; Filipinas, 700; França, 30.000; Holanda, 30.000; Hungria, 3.000; Itália, 5.000 Japão (não contabilizado), antiga Jugoslávia, 7.000; Noruega, 2.000; Palestina, 33.400; Polónia, 25.000; Portugal, 12.000; Reino Unido, 52.000; Xangai, 20.000; Síria, 3.000; Suécia, 3.200; Suíça, 7.000; Uruguai, 20; USA, 102.200 e Venezuela, 600.

Clique para visitar o MUSEU VIRTUAL ARISTIDES SOUSA MENDES

Ler mais:
http://aeiou.expresso.pt/museu-virtual-aristides-de-sousa-mendes=s25139#ixzz1XLoHZAiS
http://www.annefrank.org/