sábado, 26 de maio de 2012
Vergonha nacional
Este é o País das Exceções. Afinal, o pagamento da crise não é igual para todos. Os cortes são só para alguns. Os senhores que comem caviar, que se banham em perfumes, que se passeiam de Bentley e jogam golfe não podem ser prejudicados nas suas vidinhas. Era descaramento a mais do Governo tratar todos de forma igual.
Rapazes
bens cheirosos, charmosos e de porte elegante merecem o estatuto de exceção. É
justo. Os que vieram ao mundo para sofrer e suportar a canga dos sacrifícios é
que devem pagar a crise. Pensar de outra forma é revelador de inveja,
sentimento mais mesquinho do indivíduo. E se refilarem, porrada neles.
Com o fim do colonialismo, em que tínhamos brancos e negros, agora temos brancos de primeira, segunda e terceira categorias. É a estratificação social mais adequada e proporcional à importância do custo e do cheiro do perfume de cada um. É assim que está o País, cheio de gente que luta sem esperança. Tiram-lhes tudo sem sequer pedir licença. E todos consentem no silêncio do sofrimento.
Para além
do estatuto de exceção, o Governo criou uma espécie de apartheid social.
Obrigar os homens do caviar a conviver, no mesmo espaço social, com gente que
nada tem, mal nutrida e que não é solidária com o estatuto de exceção é de uma
violência sem limites e piedade. Só a razão pública pode potenciar a criação de
sociedades menos injustas.
Governar é fazer escolhas. As escolhas foram feitas e a lista dos privilegiados, que gozam deste estatuto de exceção, tem crescido.
No Orçamento para a Assembleia da República, aprovado por todos os partidos, os deputados e os funcionários da AR mantêm os subsídios de férias e de Natal em 2012; à semelhança do que se passa na TAP Portugal, para a SATA, para a CGD e para o Banco de Portugal.
Reparem bem: este ano, o Governo autorizou vinte e três empresas e institutos públicos a terem regras mais abertas e flexíveis no que toca às reduções salariais, quer dos trabalhadores, quer dos gestores. Os principais beneficiários das exceções são os administradores de empresas públicas, que levaram muitas delas à ruína financeira.
A lista está a crescer não na medida das necessidades, mas da ganância: CTT, NAV, ANA, Parque Expo, Instituto Nacional de Estatística e Infarmed…
Haja decoro! Nenhuma razão pública justifica esta afronta de exceção na não partilha dos sacrifícios.
É muito injusta a sociedade que estamos a criar.
Rui
Rangel, Juiz Desembargador, in http://www.cmjornal.xl.pt/
sexta-feira, 25 de maio de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
Queridos deputados
OGE para 2012...
Que queridos deputados nós temos!
Deputados, deputadas, primeiro-ministro, ministros, secretários de estado, presidente da República, Tribunal Constitucional...
Até dói ler quanto mais saber que é verdade!
De facto, ISTO não pode continuar ASSIM! A luta contra ISTO também
tem de ser muito mais dura!
Que gente esta, que nos (des) governa?
Que gente esta que prega mas não cumpre, fala mas não sente, e se aproveita,
descarada e despudoradamente da palavra democracia e (mais grave ainda!) se
aproveitou do voto popular e das promessas (que mais uma vez não cumpriu!),
roubando sem castigo e agindo ao arrepio da Moral e Ética Política, arredadas que
estão, há anos, das boas práticas de uma Governação Democrática que, deste
modo, cada vez nos envergonha mais?
Outra política é possível, sim. Com gente séria.
Estou farta destes oportunistas e deste linguarejar!
Quem os ouve, quem os vê… “Cantam de galo” e “pregam de barriga
cheia”.
Estou farta! Revolução? Venha ela!
Portugal não pode andar para trás!
O primeiro-ministro continua a ser um
primeiro-ministro sem vergonha e sem um pingo de respeito pelo povo português quando,
por exemplo, considera que a poupança e o investimento são indispensáveis para Portugal
sair da crise e que pobres já nós estamos.
Claro! Como não havíamos de estar, nós, que do corte
dos nossos salários e do nosso subsídio de férias e de Natal engordamos esta
gente!
Depois ainda reforça a sua estúpida análise política e
económica e a sua estúpida fundamentação para a saída da crise dizendo que “há
é pessoas que ainda não se deram conta disso e continuam a viver como se não
fossem pobres”. Pessoas? Quem? Eles, claro!
Há dias, publicamente, com aquele arzinho de quem é o dono da verdade e paizinho de nós todos, reafirma, também, a preservação do estado social europeu, mas defende que isso não deve impedir poupança e crescimento. Que a falta de competitividade é um problema de todo o ‘velho continente’.
Há dias, publicamente, com aquele arzinho de quem é o dono da verdade e paizinho de nós todos, reafirma, também, a preservação do estado social europeu, mas defende que isso não deve impedir poupança e crescimento. Que a falta de competitividade é um problema de todo o ‘velho continente’.
Que nome dar a esta criatura, aos seus acólitos e aos
que o continuam a defender?
Nazaré Oliveira
domingo, 13 de maio de 2012
sábado, 12 de maio de 2012
Atualidade de Marx num mundo caótico à beira da barbárie
Independentemente de se concordar ou não com o marxismo, de se ser do partido x ou y ou de nenhum partido, sou sempre adepta da leitura deste tipo de artigos de opinião, pelo seu contributo para o estudo da História, da Política e da reflexão sobre a História da Sociedade em geral.
Afinal, este é um tema que continua sempre "em aberto" e a suscitar boas discussões.
Como "o saber não ocupa lugar", achei interessante publicar mais este artigo de opinião , justamente pelo seu contributo para essa reflexão.
Obrigada, Rui, que mo enviaste.
Nazaré Oliveira
No cerne do
grande debate ideológico travado no âmbito do movimento comunista internacional
uma questão continua a suscitar um interesse absorvente: a transição do
capitalismo para o socialismo. Já Lenine dizia que ela seria infinitamente mais
difícil do que a tomada do poder em Outubro de 17. E até hoje não encontrámos
respostas satisfatórias.
Afinal, este é um tema que continua sempre "em aberto" e a suscitar boas discussões.
Como "o saber não ocupa lugar", achei interessante publicar mais este artigo de opinião , justamente pelo seu contributo para essa reflexão.
Obrigada, Rui, que mo enviaste.
Nazaré Oliveira
Atualidade de Marx num mundo caótico à beira da barbárie (*)
11.Mai.12
Uma campanha de âmbito mundial desencadeada por
intelectuais de grandes universidades dos Estados Unidos e da Europa,
amplamente divulgada pelo sistema mediático controlado pelo imperialismo,
proclamou desde a desagregação da URSS o fim do marxismo. Para esses epígonos
do capitalismo, o neoliberalismo como ideologia definitiva assinalaria o fim da
História; no marxismo identificavam um arcaísmo obsoleto.
Essas profecias não tardaram a ser desmentidas pelo
caminhar da História. Em lugar da era de progresso, abundância e democracia,
anunciada por George Bush (pai) após o desaparecimento da URSS, uma crise de
civilização abateu-se sobre a humanidade. A concentração de riqueza foi
acompanhada por um alastramento da pobreza. Fomes cíclicas assolaram e assolam
países da África e da Ásia. No início do milénio o capitalismo entrou numa
crise estrutural de proporções globais.
Pela primeira vez na História, o capitalismo está
sendo abalado até aos alicerces - como sublinha István Meszaros - como sistema
mundial «e a transcendência da autoalienação do trabalho» configura um desafio
dramático. Sem soluções, porque a Acumulação não funciona mais de acordo com a
lógica do capital, os EUA, apresentando-se como pólo da democracia e da
liberdade, desencadearam agressões monstruosas contra povos do ex-Terceiro
Mundo, alegando que defendem a humanidade contra o terrorismo.
UM DEBATE SEMPRE ACTUAL
O debate sobre o combate ao imperialismo como tarefa
revolucionária prioritária deve ser acompanhado de outro complementar sobre as
causas e consequências da derrota temporária do socialismo.
Os comunistas (quase todos) coincidem hoje na
conclusão de que a transformação da Rússia num país capitalista foi uma
tragédia para a humanidade.
Mas persistem no movimento comunista profundas
divergências quando a discussão incide sobre o processo cujo desfecho foi o
desaparecimento da União Soviética.
Segundo alguns partidos, a ofensiva imperialista foi
determinante para contaminar a sociedade soviética, minar o PCUS, e provocar a
implosão do regime. Para outros, uma minoria, as raízes da contra-revolução são
fundamentalmente internas. A perestroika teria sido apenas a espoleta e o
instrumento de um complexo processo contra revolucionário cuja evolução
acompanhou a luta de classes na Rússia revolucionária.
No primeiro tomo da sua obra «A luta de classes da
União Soviética», Charles Bethelheim chama a atenção para uma evidência ao
lembrar que dentro do próprio partido comunista a luta interna foi permanente
numa sucessão de «guerras civis» atípicas. Por outras palavras, a contra
revolução principiou por cima, no coração do PCUS.
Mas três décadas transcorreram até que a relação de
forças na direcção do PCUS se alterasse, permitindo que o XX Congresso
assinalasse a viragem que criaria condições para a destruição gradual do
chamado «socialismo real».
A vitória sobre as hordas hitlerianas, que salvou a
humanidade do fascismo e os grandes êxitos económicos, científicos e sociais
que catapultaram o país de Lenine para segunda potência mundial, e também a
solidariedade internacionalista com povos em luta contra o imperialismo,
tornaram quase invisível até à perestroika o fermentar da contra revolução.
Não cabe nesta intervenção a análise dos erros e
desvios da construção do socialismo na URSS, o afastamento do PCUS da
democracia leninista e as consequências negativas do voluntarismo e do
dogmatismo subjectivista.
Mas a ausência de êxito no desafio da transição do
capitalismo para o socialismo tal como Marx concebia este não impediu o
surgimento na União Soviética de uma sociedade muito menos marcada pela
desigualdade e pela injustiça social do que a de qualquer das falsas
democracias representativas do Ocidente, que são, na realidade, ditaduras da
burguesia de fachada democrática.
O IMPERIALISMO COLECTIVO
Não obstante a contradição de interesses entre os EUA
e os outros países do ex-G7 persistirem, essas contradições não são como antes
antagónicas pelo que é hoje mínima a probabilidade de guerras
inter-imperialistas como aquelas que provocaram dezenas de milhões de mortos na
primeira metade do século XX. Ao imperialismo clássico sucedeu aquilo a que o
economista argentino Cláudio Kats chama o imperialismo colectivo.
Sob a hegemonia dos EUA, cuja superioridade militar é
esmagadora, países como o Reino Unido, a França, a Alemanha, o Japão e outros
aliados menores (Itália, Espanha, Canadá, Austrália, etc.) tornaram-se
cúmplices de uma estratégia de dominação planetária. Invocando pretextos falsos
como a existência de armas de extermínio massivo ou a luta contra a
fantasmática Al Qaeda, os EUA invadiram, vandalizaram e ocuparam o Iraque e o
Afeganistão e as suas forças armadas praticaram ali crimes contra humanidade que
somente encontram precedente no Reich nazi.
Goebels dizia que uma mentira muito repetida aparece
como verdade. Não podia imaginar que a perversa propaganda hitleriana surge
hoje como jogo quase inofensivo comparada com a sinistra engrenagem de
desinformação montada pelo imperialismo para servir a sua estratégia. Nesta era
da informação instantânea, uma gigantesca máquina, cientificamente montada e
controlada pelos laboratórios ideológicos do imperialismo, bombardeia os povos
com um discurso e imagens que distorcem a realidade.
Promover a alienação das massas e manipular a
consciência social é um objectivo permanente do imperialismo. Essa ofensiva
mediática visa anular a combatividade dos povos mediante a robotização
progressiva do homem, meta facilitada pela contracultura alienante exportada
pelos EUA.
Nesse contexto, as actuais guerras coloniais são
precedidas de um massacre das consciências concebido para neutralizar eventuais
reacções às agressões militares, apresentadas como iniciativas imprescindíveis
à defesa da democracia e da paz.
As modernas guerras imperiais não seriam entretanto
possíveis sem a cumplicidade do Conselho de Segurança da ONU, transformado em
instrumento dessa estratégia.
A satanização de líderes transformados em verdugos dos
seus povos tornou-se rotina nessas campanhas. Aconteceu isso com Khadaffi. O
dirigente líbio, que há dois anos era recebido com abraços por Sarkozy,
Cameron, Berlusconi e Obama passou, de repente, a ser qualificado de monstro e
acusado de crimes contra a humanidade. Para se apoderarem do petróleo e do gás
do país os novos cruzados do Ocidente fabricaram uma rebelião em Benghasi e
fizeram aprovar pelo Conselho de Segurança da ONU uma Resolução sobre a
«exclusão aérea» - com a cumplicidade, após vacilações, da Rússia e da China –
resolução aliás logo desrespeitada quando começaram a explodir bombas e mísseis
em Tripoli.
Seguiram-se seis meses de uma guerra repugnante, na qual a NATO funcionou como instrumento de uma agressão definida pela ONU como «intervenção humanitária».
Seguiram-se seis meses de uma guerra repugnante, na qual a NATO funcionou como instrumento de uma agressão definida pela ONU como «intervenção humanitária».
Expulsar a China da África foi um dos objectivos dessa
agressão, concluída com o assassínio de Muamar Khadaffi. Mais de 35 000
chineses, técnicos e trabalhadores, foram retirados da Líbia, onde trabalhavam.
A China tinha ali, como noutros países do Continente, importantes
investimentos. Cabe lembrar que Angola é actualmente o segundo fornecedor de
petróleo africano à China.
A criação de um exército permanente dos EUA na África
foi preparada com anos de antecedência. A recente intervenção militar no
Uganda, anunciada por Obama com o pretexto de combater uma minúscula seita
religiosa subitamente qualificada de «terrorista», foi uma etapa desse
ambicioso projecto. O presidente norte-americano já informou, entretanto, que
os EUA enviarão tropas para «combater o terrorismo» no Congo, Sudão do Sul e
República Centro Africana, se os governos desses países pedirem «ajuda».
No âmbito dessa escalada, ignorada pelos media
internacionais, aviões da USAF, a partir da sofisticada base instalada em
Djibuti, bombardeiam periodicamente a Somália e o Iémen, para - segundo afirma
Washington - «combater movimentos tribais aliados da Al Qaeda».
IRÃO E CHINA
Qual será a próxima vitima do sistema de poder
hegemonizado pelos EUA?
O comportamento dos EUA traz à memória o do Reich nazi. Primeiro foi a anexação da Áustria; depois Munique e a posterior destruição da Checoeslováquia; finalmente a exigência da entrega de Dantzig, a invasão da Polónia, a guerra mundial.
O comportamento dos EUA traz à memória o do Reich nazi. Primeiro foi a anexação da Áustria; depois Munique e a posterior destruição da Checoeslováquia; finalmente a exigência da entrega de Dantzig, a invasão da Polónia, a guerra mundial.
Não pretendo estabelecer analogias. Mas o desprezo
pelos povos e pelo seu direito à independência é o mesmo, tal como o cinismo e
a hipocrisia do discurso.
Primeiro foi o Afeganistão, depois o Iraque, em
seguida a Líbia, agora foi o Uganda. Nos intervalos, Israel, com o apoio de
Washington, invadiu o Líbano e promoveu o massacre de Gaza.
A Síria está na linha de mira. O Irão é, na aparência,
o grande «inimigo da democracia ocidental» a derrotar. Mas o inimigo real é a
China. No seu discurso sobre o Estado da União, Obama não escondeu que na
estratégia americana as prioridades se deslocaram do Médio Oriente para a Ásia
Oriental. Hillary Clinton foi mais longe no final de Fevereiro. Ao qualificar o
governo da China como «ilegítimo» (sic) assumiu uma posição desafiadora. James
Petras viu nela uma «declaração de guerra» a prazo.
A gula imperial é insaciável. Nestes dias, é
imprevisível o rumo dos acontecimentos no Golfo.
A decisão de atacar o Irão tem esbarrado com forte
resistência no Pentágono. Os estrategos do sistema não têm a certeza de que as
mais potentes bombas convencionais possam destruir em Natanz as instalações
nucleares subterrâneas do país. Israel não pode intervir sem o aval de
Washington e teme o poder de retaliação iraniano. A hipótese do recurso a armas
nucleares tácticas tem sido tema de especulação. Mas os custos de uma tal opção
seriam devastadores no plano político.
A situação caótica criada no Afeganistão após a queima
do Corão numa base norte-americana veio alias confirmar o fracasso da
estratégia americana na Ásia Central. Que credibilidade merecem as forças de
segurança» do Afeganistão criadas pelos EUA e a NATO se os soldados afegãos
matam com frequência os oficiais americanos e europeus que os treinam.
A escalada de leis reaccionárias nos EUA assinala o
fim do regime «democrático» na República. A chamada Lei da Autorização da
Segurança Nacional, promulgada por Obama, revogou na prática a Constituição
bicentenária do país. A partir de agora, qualquer cidadão suspeito de ligações
com supostos terroristas pode ser preso por tempo indeterminado e eventualmente
submetido a tortura no âmbito de outra lei aprovada pelo Congresso.
A fascistização das Forças Armadas nas guerras
asiáticas é já inocultável. No Afeganistao, elementos do corpo de Marines
exibiram publicamente a bandeira das SS nazis e não foram punidos.
Comentando a promulgação por Obama da lei de
Autorização da Segurança Nacional, Michel Chossudovsky, definiu os EUA como «um
Estado totalitário com traje civil».
Não exagera. Os EUA estão a assumir o perfil de um IV
Reich.
QUE FAZER?
Perante a estratégia imperial que ameaça a humanidade,
a pergunta de Lenine QUE FAZER? adquire uma dramática actualidade.
A recusa da «nova ordem mundial» que o imperialismo pretende impor assumiu nos últimos anos proporções planetárias.
A recusa da «nova ordem mundial» que o imperialismo pretende impor assumiu nos últimos anos proporções planetárias.
Seattle foi um marco na rejeição do sistema de
dominação que utiliza o FMI, o Banco Mundial e a OMC como instrumentos da
política do grande capital. De repente, milhões de homens e mulheres começaram
a sair às ruas em gigantescos protestos contra a religião do dinheiro e as
guerras imperiais.
O lema do primeiro Foro Social Mundial - «outro mundo
é possível» - traduziu esse descontentamento e a esperança de uma mudança
radical. Mas, transcorrida mais de uma década, o próprio Foro transformou-se
numa caixa-de-ressonância de discursos inofensivos.
No ano passado, o Movimento dos Indignados, em
Espanha, e o Ocupem Wall Street, nos EUA, mobilizaram multidões, expressando o
desespero das massas oprimidas. Mas esses protestos, positivos, e outros,
promovidos por diferentes movimentos sociais, não ameaçam seriamente o poder do
capital. Os jovens sabem o que rejeitam, mas esbarram com um muro
intransponível na formulação de uma alternativa. Que querem, afinal?
O espontaneísmo é como a maré oceânica; assim como
sobe, desce.
O capitalismo está condenado a desaparecer. Mas o seu
fim não tem data e a agonia pode ser muito prolongada.
Que fazer então?-repito
Não serei eu, nem outros comunistas a tirar do bolso a
receita mágica.
É minha convicção que Lenine enunciou uma evidência ao
lembrar que não há revolução durável sem um partido revolucionário que a
promova e lidere as massas. Para mal da humanidade, a destruição da URSS e a
implantação na Rússia do capitalismo permitiu ao imperialismo desencadear uma
tempestade contra revolucionária que atingiu os partidos comunistas, semeando a
confusão ideológica. Alguns com grandes tradições, como o italiano,
desapareceram após várias metamorfoses; outros, como o francês e o espanhol,
social democratizaram-se, assumindo linhas reformistas.
A criação do Partido da Esquerda Europeia contribuiu
para aumentar a confusão. Não obstante a maioria dos partidos que a ele
aderiram serem nominalmente comunistas, defendem estratégias reformistas.
Actuam sobretudo dentro do sistema parlamentar, concentrando a sua luta em
reivindicações sobre problemas imediatos, sem dúvida importantes, mas
secundarizam a luta pelo socialismo como objectivo principal. Neutralizar a
combatividade das massas, orientando as lutas no quadro institucional, é o
objectivo inconfessado do Partido da Esquerda Europeia. Batem-se, na prática,
pelo «aperfeiçoamento» do sistema.
No panorama europeu, o Partido Comunista da Grécia, o
KKE, surge hoje como a grande excepção à tendência maioritária que privilegia a
linha reformista. A sua contribuição - mais de uma dezena de greves gerais num
ano - para a luta dos trabalhadores gregos contra as políticas impostas pelos
governantes dos grandes países da zona euro, a Alemanha e a França, tem sido
decisiva.
Julgo útil afirmar neste Congresso marxista que
acompanhar os acontecimentos da Grécia, reflectir sobre eles e apoiar o combate
dos comunistas gregos se tornou hoje um dever revolucionário.
O KKE defende a criação e o fortalecimento de uma
Frente democrática anti-imperialista e anti-monopolista, uma aliança entre
trabalhadores e pequenos e médios agricultores.
Permitam-me que cite um parágrafo do artigo da
secretária geral do KKE, a camarada Aleka Papariga, publicado no número 2 da
Revista Comunista Internacional:
Desenvolvimento desigual quer dizer desenvolvimento político e social desigual, o que significa que as condições prévias para o início da situação revolucionária podem surgir mais cedo num pais ou num grupo de países que, sob condições especificas, pode constituir «o elo mais fraco» do sistema imperialista. Isto é particularmente importante hoje, quando o desenvolvimento e as remodelações ocorrem no sistema imperialista e se intensificam as contradições tanto no âmbito dos países como no sistema imperialista. Entendemos, portanto, que cada partido comunista, tal como os trabalhadores de cada país, tem o dever internacionalista de contribuir para a luta de classes ao nível internacional, mobilizando e organizando a luta contra as consequências das crises nacionais, com vista ao derrubamento do poder burguês, à conquista do poder pelos trabalhadores e à construção do socialismo.
Desenvolvimento desigual quer dizer desenvolvimento político e social desigual, o que significa que as condições prévias para o início da situação revolucionária podem surgir mais cedo num pais ou num grupo de países que, sob condições especificas, pode constituir «o elo mais fraco» do sistema imperialista. Isto é particularmente importante hoje, quando o desenvolvimento e as remodelações ocorrem no sistema imperialista e se intensificam as contradições tanto no âmbito dos países como no sistema imperialista. Entendemos, portanto, que cada partido comunista, tal como os trabalhadores de cada país, tem o dever internacionalista de contribuir para a luta de classes ao nível internacional, mobilizando e organizando a luta contra as consequências das crises nacionais, com vista ao derrubamento do poder burguês, à conquista do poder pelos trabalhadores e à construção do socialismo.
Insistindo na denúncia do oportunismo, a camarada Aleka
Papariga lembra também que as reformas, por mais importantes que sejam, não
podem conduzir ao socialismo sem uma confrontação final com a burguesia cujo
desfecho seria a destruição das instituições do Estado capitalista.
A questão é fundamental. A chamada via pacífica para o
socialismo foi ensaiada no Chile com o desfecho que conhecemos. Hoje a tese é
retomada na América Latina pelos teóricos do Socialismo do Século XXI,
nomeadamente na Venezuela Bolivariana e na Bolívia.
Em textos que publiquei no ano passado após participar
no Foro Internacional de Maracaibo, critiquei essas posições, reafirmando a
convicção de que a destruição do estado capitalista, em choque com o poder
burguês, terá de preceder a construção de um poder popular estável.
Trata-se, insisto, de uma questão fundamental para o movimento comunista internacional.
Trata-se, insisto, de uma questão fundamental para o movimento comunista internacional.
Obviamente que a Europa não é a América Latina. E
devemos sempre ter presente que a Europa é uma diversidade.
Mas no cerne do grande debate ideológico travado no
âmbito do movimento comunista internacional uma questão continua a suscitar um
interesse absorvente: a transição do capitalismo para o socialismo. Já Lenine
dizia que ela seria infinitamente mais difícil do que a tomada do poder em
Outubro de 17. E até hoje não encontrámos respostas satisfatórias. (**)
O que é valido para a Grécia não é obviamente
transponível para outros países da zona euro. Às condições objectivas
peculiares somam-se ali condições subjectivas inexistentes noutros países. A
disponibilidade para a luta dos trabalhadores gregos é inseparável de uma
herança histórica de sofrimento acumulado desde as lutas contra a ocupação
turca no século XIX. Em 1945 a insurreição grega, após a expulsão dos alemães,
quase levou ao poder os trabalhadores. Foi a bárbara repressão do exército
britânico que restabeleceu a monarquia e impediu há mais de sessenta anos a
construção na Grécia de um Poder .
PORTUGAL
País periférico, subdesenvolvido, semi-colonizado,
Portugal está há muito desgovernado por forças políticas que se submetem
docilmente às imposições do imperialismo e as aplaudem.
As sanguessugas do capital, actuando nem nome da
Comissão Europeia e do FMI, proclamam que os trabalhadores devem sacrificar-se,
ser compreensivos, apertar o cinto e cumprir todas as exigências da troika para
recuperar a confiança dos «mercados». Um sistema mediático perverso e corrupto
participa no jogo da mentira. Emite críticas irrelevantes ao funcionamento da
engrenagem, mas não contesta o diktat do capital.
O coro dos epígonos, perante o avolumar da indignação
popular, teme que ela assuma proporções torrenciais e repete que somos um povo
de «brandos costumes», diferente do grego, um povo que compreende a necessidade
da «austeridade», consciente de que a superação da crise depende dela.
Incutir nas massas um sentimento de fatalismo é
objectivo permanente no massacre mediático. Arrogantes, os sacerdotes do
capital bradam que não há alternativa à sua política.
Só pelos caminhos da luta pode ser encontrada a
solução para os problemas do nosso povo.
É necessário combater com firmeza a alienação que
atinge grande parte da população. É indispensável combater a falsa ideia de que
vivemos numa sociedade democrática, porque o regime parlamentar foi legitimado
pelo voto popular. É necessário desmontar as campanhas que condenam as greves
como anti-patrióticas e as manifestações de protesto como iniciativas
românticas, inúteis.
É importante ajudar milhões de portugueses a
compreender como foi possível que 38 anos após uma Revolução tão bela como a
nossa, o país tenha voltado a ser dominado pela classe que o oprimia na época
do fascismo.
Como foi possível o refluxo? A correlação de forças
que permitiu as grandes conquistas revolucionárias durante os governos do
general Vasco Gonçalves não se alterou de um dia para o outro.
A base social do PS não é mesma do PSD. Mas a direcção
do PS tem actuado colectivamente ao serviço do grande capital. Na quase
glorificação de Sócrates no Congresso daquele partido, o PS projectou bem a sua
imagem. O secretário-geral tinha conduzido o país à beira do abismo com a sua
politica neoliberal, mas foi ali aclamado com o herói e salvador. Renovaram-lhe
a confiança e ele afundou mais Portugal. Depois ocorreu o esperado. O
funcionamento dos mecanismos da ditadura da burguesia de fachada democrática
colocou a aliança PSD-CDS de novo no governo. Uma parcela ponderável do
eleitorado acreditou que votava por uma mudança. Na realidade limitou-se a
accionar o rodízio da alternância no governo de partidos que competem na tarefa
de servir os interesses do capital.
Hoje, cabe perguntar: como pode ter chegado a
Primeiro-ministro uma criatura como Passos Coelho? O homem é um ser de
indigência mental tão transparente que até intelectuais de direita como Pacheco
Pereira reconhecem o óbvio.
A maioria do povo acompanha com angústia as cenas da
farsa dramática. A contestação á política que está a destruir o país não pára
de crescer. Mas é ainda muito insuficiente. As grandes manifestações de
protesto e as greves nacionais e sectoriais somente podem abalar o sistema se a
luta de massas adquirir um carácter permanente, intenso e diversificado. Nas
fábricas, nos transportes, nos portos, nas escolas, na Administração, em
múltiplos locais de trabalho, nas ruas.
É evidente que as condições subjectivas não são em
Portugal as da Grécia, cujos trabalhadores, caluniados se batem hoje pela
humanidade.
O esforço do PCP na luta contra o imobilismo e a alienação tem sido importante como contributo para o aprofundamento da consciência de classe e do nível ideológico da classe trabalhadora. Essa é uma tarefa revolucionária.
O esforço do PCP na luta contra o imobilismo e a alienação tem sido importante como contributo para o aprofundamento da consciência de classe e do nível ideológico da classe trabalhadora. Essa é uma tarefa revolucionária.
Não se deve ceder ao pessimismo. Não se combate a
pobreza, o desemprego, a supressão de conquistas sociais baixando os braços.
A luta do povo português é inseparável da luta de outros povos, vítimas de políticas ainda mais cruéis.
A luta do povo português é inseparável da luta de outros povos, vítimas de políticas ainda mais cruéis.
É tarefa prioritária desmascarar a monstruosidade das
agressões imperiais a países da Ásia e de África, lembrar que nas condições
mais adversas, os povos do Iraque, do Afeganistão, da Palestina, da Líbia,
entre outros, resistem e se batem contra a barbárie imperialista. A luta dos
povos é hoje planetária.
É útil lembrar que o povo cubano, hostilizado pela
mais poderosa potência do mundo, defende há mais de meio século a sua revolução
com coragem espartana.
É útil lembrar que na América Latina os trabalhadores
da Venezuela bolivariana, da Bolívia e do Equador apontam àquele Continente o
caminho da luta contra o imperialismo predador.
É oportuno recordar que foram as grandes revoluções
que contribuíram decisivamente para o progresso da humanidade. A burguesia
francesa apunhalou em 1792 a Revolução por ela concebida e dirigida. Uma lenda
negra foi forjada para a satanizar e lhe colar a imagem de um tempo de
horrores. Mas, transcorridos mais de dois séculos, é impossível negar que a
Revolução Francesa ficou a assinalar uma viragem maravilhosa na caminhada da
Humanidade para o futuro.
É também oportuno lembrar que o mesmo ocorreu com a
Revolução Russa de Outubro de 1917.O imperialismo festejou como vitória memorável
a reimplantação do capitalismo na pátria de Lenine. Falsifica a História. Não
há calúnia que possa inverter a realidade; as grandes conquistas dos
trabalhadores europeus no século XX surgiram como herança indirecta da
Revolução Socialista Russa, a mais progressista da história da Humanidade. Foi
o medo do socialismo e do comunismo que forçou as burguesias europeias a
conformar-se com conquistas como a jornada das oito horas, as férias pagas, o
13º salário.
Em Portugal é preciso reassumir a esperança que
empurra para o combate e a vitória.
Em 1383 e 1640, quando o país estava de rastos e tudo
parecia afundar-se, o povo português desafiou o impossível aparente e venceu.
É oportuno não esquecer que, após quase meio século de fascismo, o povo português foi sujeito de uma grande revolução que na Europa Ocidental realizou conquistas mais profundas do que qualquer outra desde a Comuna de Paris.
É oportuno não esquecer que, após quase meio século de fascismo, o povo português foi sujeito de uma grande revolução que na Europa Ocidental realizou conquistas mais profundas do que qualquer outra desde a Comuna de Paris.
Vivemos um tempo de pesadelo, com os inimigos do povo
novamente encastelados no poder. Mas as sementes de Abril sobreviveram à
contra-revolução e depende da nossa gente que elas voltem a germinar nos campos
e cidades de Portugal.
O horizonte apresenta-se sombrio. Mas sou optimista.
As condições subjectivas para a luta estão a amadurecer embora lentamente.
Karl Marx é, a cada dia, mais actual para a compreensão do choque com a engrenagem trituradora do capital. A alternativa é entre Socialismo ou Barbárie. E o socialismo vencerá!
Karl Marx é, a cada dia, mais actual para a compreensão do choque com a engrenagem trituradora do capital. A alternativa é entre Socialismo ou Barbárie. E o socialismo vencerá!
Obrigado por me ouvirem.
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(*) Comunicação apresentada no Congresso “Marx em Maio”.
(**) A minha concordância com as posições do KKK perante a crise estrutural do capitalismo e concretamente com a estratégia adoptada na luta em curso na Grécia contra a submissão dos governos da burguesia helénica às políticas neoliberais impostas pelo imperialismo não significa que me identifique com algumas das análises e conclusões da Resolução Politica aprovada em 2008 pelo XVIII Congresso daquele Partido.
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(*) Comunicação apresentada no Congresso “Marx em Maio”.
(**) A minha concordância com as posições do KKK perante a crise estrutural do capitalismo e concretamente com a estratégia adoptada na luta em curso na Grécia contra a submissão dos governos da burguesia helénica às políticas neoliberais impostas pelo imperialismo não significa que me identifique com algumas das análises e conclusões da Resolução Politica aprovada em 2008 pelo XVIII Congresso daquele Partido.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Exames Nacionais do Ensino Básico
Com a devida vénia, aqui publico o
artigo do Sr. Professor Rui Baptista - Os exames nacionais do ensino básico na crista da onda - do DE RERUM NATURA (Blogue)
Não sou de mudar facilmente de opinião (embora sabendo a simpatia cómoda em alinhar com Maurice de Tayllerand-Perigord: “A oposição é a arte de estar contra, mas com uma habilidade tal que logo se possa estar a favor”) sem que me demonstrem por a + b estar errado na minha maneira de ver as coisas. Sem querer, de forma alguma, surfar na onda de outras opiniões de académicos que se têm debruçado ultimamente sobre o assunto, como o Desidério e a Helena Damião, não podia deixar de trazer a conhecimento de possíveis leitores, que me possam dispensar, porventura, a atenção da leitura dos meus posts, a minha contribuição, ainda que em simples dever de cidadania, em me debruçar sobre um tema tão polémico como os exames nacionais do ensino básico. De alguns anos para cá.
“Na
verdade, a pedagogia que nivela tudo por baixo no intuito de esbater as
diferenças tem como consequência tornar ignorantes milhões de pessoas e não
privilegiar aqueles que podiam ir para a universidade e para escolas de
excelência com professores respeitados e programas rigorosos; é por essa razão
que há cada vez mais pessoas a quererem uma escola séria, mais rigorosa, com
professores preparados e mais respeitados" (Francesco Alberoni, sociólogo italiano, em entrevista a um jornal
português em 2010).
Não sou de mudar facilmente de opinião (embora sabendo a simpatia cómoda em alinhar com Maurice de Tayllerand-Perigord: “A oposição é a arte de estar contra, mas com uma habilidade tal que logo se possa estar a favor”) sem que me demonstrem por a + b estar errado na minha maneira de ver as coisas. Sem querer, de forma alguma, surfar na onda de outras opiniões de académicos que se têm debruçado ultimamente sobre o assunto, como o Desidério e a Helena Damião, não podia deixar de trazer a conhecimento de possíveis leitores, que me possam dispensar, porventura, a atenção da leitura dos meus posts, a minha contribuição, ainda que em simples dever de cidadania, em me debruçar sobre um tema tão polémico como os exames nacionais do ensino básico. De alguns anos para cá.
Sabendo-se que no ensino superior universitário os
exames finais e testes intermédios são regra, razão encontro em Séneca: “Um atleta não pode chegar à competição
muito motivado se nunca foi posto à prova”. E não será a vida académica,
quer se queira ou não, um “corrida de obstáculos”, embora para uns tantos, mais
do que devia, demasiado plana por haver em alunos que chegam ao ensino
universitário com uma ignorância confrangedora que levou um notabilíssimo
catedrático de Letras da Universidade de Coimbra, Aníbal Pinto de Castro,
falecido poucos anos atrás, a lançar o alerta, em cerimónia académica pública:“Não destruam. Não cedam.
Não tenham medo porque a Universidade não pode ser uma instituição de caridade.
Para isso há os asilos e a Mitra. Não pode ser um hospital de alienados” ( “Diário de Coimbra”, 27/11/2005).
A propósito da minha posição pública sobre os exames
(não só aqui, mas igualmente em artigos de jornais), transcrevo, de um post do mês passado, aqui publicado,
os dois parágrafos iniciais:
“Numa altura em que se
continua a polemizar a medida do ministro da Educação, Nuno Crato, de
estabelecer exames nacionais para os diversos ciclos do ensino básico, não
confundindo eu a canção com os cantores, declaro, desde já, que excluindo à
partida exames mal feitos que examinam a ignorância dos directos responsáveis
pela sua elaboração, ser a favor desta forma de avaliação que coloca os alunos
em igualdade de circunstâncias.
Sem exames que avaliem
convenientemente o nível da aprendizagem dos alunos só tarde e a más horas se
virá a tomar o pulso à ignorância dos frequentadores do ensino superior em que
se substituiu uma cultura e um conhecimento científico, cimentados em estudos
aturados, pela pedagogia do facilitismo para não criar traumas nas crianças e
jovens”.( "A Polémica Sobre os Exames Nacionais", 26/04/2012).
Mas para que se não pense que é só de hoje a minha
tomada de posição sobre esta discutível temática, transcrevo excertos do meu
post (aqui publicado), vai para meio decénio. Neles escrevi:
“Só por
absurdo, pode passar pela cabeça de alguém conceber um treinador de atletismo a
adestrar um atleta para uma maratona olímpica sem que o resultado dos treinos
seja sujeito à avaliação de uma cronometragem rigorosa. Pois é precisamente
isto que acontece no nosso sistema educativo em que o aluno, por vezes, sai mal
preparado por não terem sido avaliadas, em exames nacionais, as suas
“performances” que atestem os conhecimentos adquiridos nos diversos e
sucessivos patamares até ao 9.º ano de escolaridade. Desta forma, e a partir
daí, é o aluno lançado nas pistas da exigente competição do ensino secundário
(antecâmara de acesso ao ensino superior) em que corre o risco de cortar a
linha da meta nos últimos lugares com os bofes do desânimo a saltarem-lhe da
boca para fora. Outras vezes, nem sequer termina a prova, desistindo a meio e
engrossando, assim, as percentagens do insucesso escolar.
Ter a decantada avaliação contínua isenta de qualquer crítica, passando-lhe um cheque em branco em assunto tão sério, transforma a educação num embuste de proporções nacionais que pode servir para denegrir os que devem ser honrados e honrar os que devem ser denegridos”.("A resistência do 'eduquês' aos exames nacionais", 10/08/2007).
Ter a decantada avaliação contínua isenta de qualquer crítica, passando-lhe um cheque em branco em assunto tão sério, transforma a educação num embuste de proporções nacionais que pode servir para denegrir os que devem ser honrados e honrar os que devem ser denegridos”.("A resistência do 'eduquês' aos exames nacionais", 10/08/2007).
Quanto a mim, tudo isto acontece num
sistema educativo abrindo brechas por todos os lados por falta de alicerces de
uma boa “instrução primária”, e em que o ensino secundário é, até ver, o único
pilar sólido, e em que o próprio ensino superior não pode deixar de ser posto
em causa ao dar acesso a ignorantes vítimas das muitas reformas no sector da
Educação que, de há anos para cá, se tem sucedido em operações de simples cosmética,
a exemplo do carmim para disfarçar a brancura doentia que empalidece a tez de
anémica donzela. Claro que para um sistema educativo deste jaez, o segredo tem
sido a alma do negócio, como soe dizer-se. Mas de que vale continuar a chorar
sobre o leite derramado sem atormentar consciências de tutelas passadas de um
sistema educativo prenhe de maleitas em que o simples termómetro dos exames foi
dispensado para registar sinais febris?
Mas não serão os exames (os bons
exames porque, como refere Jean Jaurés,“atingir
o ideal é compreender o real”) uma forma de evitar que se habite um
edifício em ruínas para que os seus inquilinos não entrem nele ignorantes e
dele saiam ignorantes? Ou que, mesmo durante o seu arrendamento (em que as
propinas tanto pesam nos magros bolsos das famílias), fiquem soterrados sob os
escombros de uma permissividade criminosa de um ensino desaprumado de há anos
para cá?
Para finalizar, e a bem da verdade, é
da mais elementar justiça dar o destaque devido a um post de Carlos Fiolhais, aqui publicado, praticamente um mês
antes do meu último aqui citado, sobre este temática, intitulado “Os Exames
Prejudicam o Ensino da Matemática” (13/07/2007). Transcrevo o seu parágrafo
derradeiro: “ Os alunos não sabem
nada? Não estão preparados para a vida? Pois muito bem, a solução mais fácil -
e também a pior - consiste em acabar com a maneira de se saber que eles não
sabem. Se ignorarmos o problema, passa a não haver problema nenhum. Ah, como
seria fácil o ensino em Portugal sem quaisquer exames…”
Pela sua contundência, entendo ser
este um argumento essencial a ter em devida conta na defesa dos exames! Agora
se persistirem na falácia de não diferenciarem os bons dos maus exames (como se
ambos fossem coisas iguais) duvido que não venha a tornar-me personagem das
palavras de Eça: “Não é um vencido que
se retira; é um enfastiado que se safa”!
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