segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A Europa ainda me faz sonhar

Há poucos anos atrás, um político europeu afirmou que a Europa já não fazia sonhar. Hoje talvez dissesse que a Europa já nem nos deixa dormir. Todavia, o projecto europeu é mesmo um sonho, ou seja, quando começou parecia improvável que durasse muito tempo e impossível que chegasse onde chegou. Basta perguntar a qualquer pessoa com pelo menos 18 anos em 1945.

Então o que se passa? Qual a razão para o fim do sonho?

Num texto anterior, defendi que a crise europeia tinha sobretudo como causa a perda da “Ideia de Europa”, isto é, dos valores europeus fundadores. A União Europeia (UE) não é um projecto económico (embora também seja); é a Europa politicamente organizada em torno dos princípios fundamentais partilhados por todos os seus membros, sendo a economia subsidiária destes.

Como então escrevi, citando Timothy Garton Ash, é possível identificar 6 valores europeus primordiais: liberdade, paz, lei, prosperidade, diversidade e solidariedade. A construção europeia ou é isto, ou não é nada, e se os valores não prevalecerem sobre a visão meramente económica a UE acabará mais cedo ou mais tarde.

Em relação à liberdade, vale a pena fazer o seguinte exercício: olhar para um mapa da Europa e comparar os países democráticos em 1945 e em 2011. Constatamos então que há 6 décadas atrás apenas quatro países podiam ser considerados democráticos - Grã-Bretanha, Suíça, Suécia e Irlanda –; hoje apenas um pode ser considerado autoritário – a Bielorrússia (a Rússia é um caso particular que merece um artigo à parte). Ou seja, a quase totalidade dos europeus é hoje livre, o que não tem precedentes na história do continente. E, embora tal tenha acontecido devido ao desejo de liberdade das pessoas, como referiram Geoffrey Pridham, Laurence Whitehead e Philippe Schmitter a perspectiva de adesão à Comunidade Europeia constituiu um forte incentivo à transição da ditadura para a democracia na Europa do Sul, Central e de Leste.

Quanto à paz, vale a pena voltar a Garton Ash e referir a sua imagem, simples mas esclarecedora, da transferência das batalhas dos campos de Verdun e Somme para os campos de futebol do Parque dos Príncipes ou do Allianz Arena. Na realidade, durante vários séculos a Europa esteve permanentemente em guerra; hoje é a região mais pacífica do mundo e para isso foi decisiva a existência da União Europeia como um sistema de resolução institucionalizada e permanente de conflitos, permitindo assim a eliminação do uso da força militar como forma de decisão das disputas entre os Estados. Um bom exemplo do papel desempenhado pela UE na garantia de uma ordem pacífica no seu seio pode ser encontrado no facto de ser impensável uma guerra entre a França e a Alemanha, ao mesmo tempo que ainda recentemente e não muito longe a Rússia invadia a Geórgia.

No caso da lei, não há ninguém que conteste que a esmagadora maioria dos europeus vive hoje num Estado de Direito. Mas não só nem sempre foi assim, como tal não se verifica em grande parte do mundo mesmo em 2011, havendo pelos menos dois terços da humanidade a viver à margem do “governo pela lei”. Presentemente, ninguém discute que na UE homens e mulheres, ricos e pobres, católicos e protestantes, judeus e muçulmanos são à partida iguais perante a lei. Para além dos progressos ocorridos ao nível nacional na última meia década, ocorreram igualmente evoluções assinaláveis ao nível da União Europeia, desde logo no aperfeiçoamento do funcionamento do seu Tribunal de Justiça, mas também no papel desempenhado pela imposição judicial das leis europeias no plano das chamadas «quatro liberdades» que permitem aos cidadãos dos Estados membros poderem viajar, viver, trabalhar e adquirir bens onde quiserem na maioria do espaço geográfico Europeu.

O quarto valor primordial – a prosperidade – deve ser permanentemente recordado a todos os cidadãos da Europa, sobretudo no contexto económico em que vivem desde o colapso do Lehman Brothers, em 2008. A este respeito, como diz Ash, vale a pena voltar a abrir o livro de fotografias de Henri Cartier-Bresson, intitulado “Europeus”, que nos recorda a pobreza que ainda existia na Europa nos anos 1950. A verdade simples é esta: os europeus nunca viveram materialmente tão bem como actualmente. A grande maioria deles vive melhor do que os seus pais e muito melhor do que os seus avós – os rendimentos per capita nunca foram tão elevados, a esperança média de vida é a maior de sempre da história, o nível de mortalidade infantil o mais baixo, as habitações são melhores e mais confortáveis, o acesso à comida e a sua qualidade e diversidade não têm precedentes - e, ao contrário do que dizem alguns economistas, não há nenhuma indicador estrutural que nos condene a um futuro em que tudo será pior.

Também o valor da diversidade tem de ser repetido todos os dias pelos líderes europeus, em vez de irem pelo caminho fácil do populismo xenófobo. Como nos recorda o músico português Fausto (e a mitologia grega), a Europa nasceu na Ásia profunda e é filha do rei Fenício Agenor. Ela é uma miscelânea de histórias, etnias, línguas e religiões, com várias unidades nacionais e suas respectivas especificidades, o que pode ser demonstrado pela simples leitura de um dicionário. Depois de vários séculos em que as diferentes nacionalidades se mataram umas às outras (isto mesmo antes de existir a própria ideia de nacionalidade), a União Europeia conseguiu arranjar a mais avançada forma de integração da diversidade, com respeito pela diferença. Um exemplo simples, mas excelente, disso mesmo é o programa europeu de intercâmbio universitário - Programa Erasmus -, que permite aos jovens de universidades de vários países estudarem durante um período de tempo num outro Estado membro, conhecendo assim não só as suas realidades académicas, mas também as suas especificidades culturais.

Finalmente, a solidariedade, um valor com uma importância acrescida nos dias de hoje e a condição indispensável à própria sobrevivência da UE. O primeiro pilar da solidariedade na Europa unida é o Estado Social Europeu, uma combinação de criação de riqueza com justiça e segurança social, que tem de ser reformado, mas para o manter e não para o eliminar. O segundo pilar consiste na solidariedade dos países mais ricos para com os mais pobres, expressa por exemplo em duas décadas de concessão de fundos comunitários.

Tal como defendi no texto já mencionado, e do qual recupero agora algumas ideias por me parecer que elas são hoje mais importantes do que em qualquer momento no passado, a reflexão, o discurso e a acção na Europa não podem reduzir-se apenas à sua dimensão material, têm de ser sobretudo acerca da sua dimensão político, com destaque para os seis valores europeus primordiais. E estes têm mesmo de ser aprofundados, em direcção a uma Europa federal.

Uma União Europeia económica até pode sobreviver à actual crise. Mas não sobreviverá à próxima. E sem a Europa Unida os europeus voltarão ao hábito secular de se matarem uns aos outros.

http://www.ipri.pt/publicacoes/working_paper/working_paper.php?idp=699

Waiting for the barbarians

Simplesmente...fantástico!
 Que lucidez! Que força!

domingo, 9 de outubro de 2011

Dois brasileiros

João Gilberto e Elis Regina:

Dois brasileiros que nunca esquecerei. Dois trabalhos fabulosos!


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Um video publicitário colombiano feito na altura do REFERENDO (para acabar com os maus tratos nos animais, caso da tauromaquia, considerada legal).

Producción: Juan David Zuluaga, Ana Maria Moreno, Breimer Sánchez.

sábado, 8 de outubro de 2011

Só o conhecimento libertará

Os pró-touradas, os aficionados, sempre com os mesmos argumentos ao longo de séculos e séculos, seja cá ou noutro país, completamente alheados dos estudos e da investigação séria que tem sido feita nestes últimos anos, insistem na recusa de serem esclarecidos ou até de dialogarem seriamente sobre esta matéria.

Aliás, nem seria preciso, já que a barbaridade, tortura e sofrimento, quando e porque existem, são desde logo motivo e condição sine qua non para acabar com esse espectáculo degradante e inqualificável.

Que extraordinárias as intervenções de Pilar Rahola no vídeo que anexo!

É muito importante trocar informações e, obviamente, esclarecer, dar a conhecer, sendo esta a perspectiva em que me coloco sempre, como pessoa que defende a dignidade para animais humanos e não humanos, e que considera que o esclarecimento honesto será a única forma das pessoas tomarem posição e decidirem sobre o fim desse espectáculo macabro – a tourada – entre outros.

Mas as pessoas têm que querer conhecer a outra parte. Ouvir os depoimentos até ao fim, ler os artigos até ao fim, ver os documentários até ao fim por muito que lhes custe, tal o horror que sempre esconde quem torturado está a ser ou quem numa agonia e morte lenta se esvai em sangue ou procura, a todo o custo, um olhar de compaixão ou misericórdia.

Sei que é difícil para certas pessoas aceitarem estes esclarecimentos humanamente e cientificamente comprovados. Indesmentíveis. No entanto, é condição fundamental para uma partilha de opiniões sensata e desejável não nos tornarmos inamovíveis nas nossas crenças, quando achamos que nada mais há a não ser nós próprios. Desse modo, garantidamente, enquistaremos, daí resultando, com toda a certeza, a conflitualidade interior que os afficionados vêm demonstrando.

Alguns deles têm-me dito “ De facto às vezes pergunto como é possível eu adorar animais e gostar de touradas?", e isto, sem falar da velha e gasta resposta que é dizerem que as touradas devem existir porque é tradição! Como se o facto de ser tradição fosse, por si só, justificação para desumanidades, barbaridades, condenação ao sofrimento e à morte.

Isto vem, de alguma forma provar a sua insegurança quanto à questão fulcral, isto é, sabem que o touro sofre, reconhecem que sofre, mas, em nome da "arte", da “tradição”, da satisfação dos “seus prazeres”, aceitam as touradas, ali, e nem querem saber ou questionar, nem o antes nem o depois. Só o “agora”.

Arte? Porquê Arte?

Que concepção têm de Arte? Será que querem dizer Arte de Matar?

Um homicida, um assassino que mata "com requintes de malvadez" (e vocês sabem que muitos planeiam a morte lenta de alguém, tal como fazem com o touro) criando estratégias para esse fim, sedentas de sangue, cenários de horror, psicopatas, ditadores que planearam e planeiam genocídios, o holocausto, enfim, pessoas para quem torturar é e foi diversão e até excitação, exorcizando desse modo recalcamentos do foro sexual, gente que, com toda a certeza, transporta em si inadaptações várias, desajustamentos de toda a ordem e patologias e comportamentos desviantes que a psiquiatria tão bem sinaliza e a própria Psicologia vem demonstrando.

Em pessoas que conheço, que conheço muito bem, e mesmo nos comentários que tenho lido nos jornais, redes sociais e até nas afirmações de certas figuras (figurinhas!) na TV, vislumbra-se perfeitamente, até nos gestos e semblante dessas pessoas, sem falar da sua vida pública e dos relacionamentos pessoais, amorosos e familiares que tanto expõem descaradamente, que são pessoas com problemas de natureza afectivo-emocional, de sociabilização, escondendo-se por detrás das profissões que têm, das roupas de marca que usam, das festas “in” aonde vão, dos “amigos” com os quais posam, das revistecas onde saem, dos enquadramentos familiares claramente ensaiados pelo marketing que os consome e deles tudo faz, até gente infeliz, completamente rendidos ao brilho efémero de uma socialité podre e devassa, na qual, mais tarde ou mais cedo, sucumbirão.

Deixam transparecer uma dureza e uma força que não existe para esconder sentimentos de culpa ou uma vida de fingimento, esforçando-se por mostrar aquilo que na realidade não são nem nunca conseguirão ser – gente com ética, gente com humanidade.

Na realidade, vivem sempre de algo e com algo emprestado, copiado, imitado! As suas relações sociais e amistosas são interesseiras e tudo fazem para conseguir favores de outrem, nem que para isso vendam a alma ao Diabo ou ao diabo do lobby tauromáquico, ou mesmo, aos ditos “artistas” toureiros, bem instalados nas suas propriedades ou “maisons” ou rondando as propriedades dos mayorais engordados com o sangue dos inocentes que sádica e insistentemente preparam para o sacrifício final, desde que nascem até ao ferro em brasa que cobarde e cruelmente lhe aplicam, bebendo sofregamente o seu sangue com o mesmo sorriso que fazem para a fotografia quando, grotescamente, se arreganham os dentes e se auto-promovem, pavoneiam e vangloriam por terem sido o pior dos cruéis, os mais ousados na coragem de matar por matar, inebriados com a ideia de uma heroicidade nacional que nunca terão porque de cobardia a História nunca se fará.

Uma certa imprensa vende-os, como tal, num marketing de ocasião que enjoa e enoja.

Todos os meios justificam o fim, e é vê-los a entrar e a fotografar as suas casas, vê-los a abrir as portas das suas casas, bonacheirões, arrogantes, com gestos ensaiados e os sorrisos postiços de quem só de verdadeiro tem a falta de dignidade e sentido de humanidade.

Só o verdadeiro conhecimento das coisas e da realidade fará com que os amantes das touradas passem a condená-las. Os amantes das touradas que compram o bilhete para a ver, que comodamente, nas suas casas, a vêem na TV, porque, os cavaleiros tauromáquicos, os toureiros a pé, os forcados, os ganadeiros e tantos mais, esses, sabem bem o que se esconde e o que que querem que se não saiba.
E a mudança começará aqui: no esclarecimento sobre a realidade total, frontalmente apresentada ao público, sem artimanhas ou meias-verdades.

As redes sociais têm sido fantásticas e continuarão a sê-lo cada vez mais relativamente à informação e esclarecimento que têm dado para que a verdade se saiba e  se combata a ignorância e a repressão. Para a construção do Humanismo, que olhe o outro de igual para igual e o respeite até na diferença, vendo nessa diferença um meio de enriquecimento cultural e cívico e o fortalecimento de uma diálogo civilizacional que não se fique pela teoria nem por acordos ou tratados.

Lamentavelmente, até uma certa Igreja, um certo clero, uns certos cristãos, de forma aviltante, despudorada e cínica, ovacionam a morte lenta do nobre animal na arena com as mesmas mãos que nas suas missas dominicais ou confessionários lhes permitem o mea culpa de uma catarse feita de mentiras e hipocrisias.

Eu já nem sei se alguém apresentará contas a alguém, se há ou não Julgamento Final, se há ou não Juíz, juízes, se passam pelo fundo de uma agulha ou se não passam. O que sei é que o sofrimento é tanto e cada vez maior "aqui na terra", que há impunidades, prepotência, humilhação, morte, que vemos partir os que amamos e que tanta falta nos fazem (a nós e à humanidade) e que temos viva e bem viva esta corja empoleirada a sorrir sarcásticamente com o mal dos outros e a safar-se cada vez mais com esse mal e a dor que nos causa.

Dá-me asco, tudo isto. Sei que nem todos são iguais (na Igreja Católica e não só) mas, não podemos continuar a "aceitar" pacificamente esta justiça do "Pai perdoai-lhe que eles não sabem o que fazem", porque estamos fartíssimos de saber que eles sabem o que fazem, eles, os que ainda cá andam a espalhar a dor e a morte, perfeitamente tranquilos quanto ao tal Julgamento Final, no qual serão, obviamente, amnistiados por Deus, caso mostrem arrependimento depois do lastro de sangue e de terror que construíram durante TODA a sua vida.

Cada vez vejo mais sofrimento e injustiça na vida dos mais desfavorecidos e mais vulneráveis.

Temos que (continuar) a agir e a exigir.Em torno das Associações, na rua, no trabalho, em casa, nas redes sociais. Intervir, alertando a Assembleia da República e outros órgãos institucionais para a urgência de um referendo sobre o fim das touradas e para a urgência de legislação verdadeiramente exemplar que proteja os animais não humanos de algumas bestas humanas.

Fazem de conta que nada disto existe e que a cruel e sanguinária realidade da qual falamos e escrevemos é pura invenção.


Nazaré Oliveira


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O TOURO SOFRE. É INQUESTIONÁVEL.
VER, AQUI, DECLARAÇÕES DE ESPECIALISTA QUE PROVAM/COMPROVAM ESTA TERRÍVEL VERDADE QUE MUITOS SE RECUSAM A ACEITAR.

http://www.youtube.com/watch?v=xnZ2LQlb4Hs&feature=youtu.be


EXCELENTE DEBATE!
AS PALAVRAS DE PILAR RAHONA DIZEM TUDO!

http://www.youtube.com/watch?v=zB8nggDvy7s&feature=related

CUSTA VER MAS, COMO SÓ O CONHECIMENTO NOS LIBERTARÁ DA MENTIRA, AQUI DEIXO ALGUNS EXEMPLOS, VERÍDICOS, DE CRUELDADE SOBRE ANIMAIS:
http://youtu.be/WlkvSFhyEeM
http://youtu.be/xvEiZA1VESQ
http://youtu.be/uQEpIWyeg2w
http://youtu.be/eCNCaFuWRQM
http://youtu.be/l10VSpX-w9s
http://youtu.be/AKCblkTQCFU
http://youtu.be/7dOPnElQqKc
http://youtu.be/Hw0sajf07kA
http://youtu.be/BVirCMQaJQc


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Tell your children!


Um filme de Andras Salamon, pequeno mas intenso.
  
Ficção sobre os acontecimentos verídicos ocorridos em Janeiro de 1945, na Hungria, nas margens do Danúbio, e que nos proporciona, também, uma brutal ligação aos dias de hoje.

As redes sociais, actualmente, têm um papel importantíssimo para o esclarecimento, para a mobilização das pessoas contra os ditadores e o poder opressivo, contra a prepotência e a barbárie... A FAVOR DOS DIREITOS DOS HUMANOS E DOS NÃO HUMANOS.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A história de Francisco dos Santos e a República

Que história fantástica esta, a de Francisco dos Santos, que muito poucos devem conhecer! Uma história de vida que também se cruza com a história da 1ª REPÚBLICA!

Francisco dos Santos é o primeiro da direita, sentado na cadeira.
 Pouco depois da implantação da República, abriu-se concurso para o Busto que a simbolizasse.


Francisco dos Santos, que fora jogador de futebol da Casa Pia, do Sport Lisboa e do Sporting e que, durante os seus tempos de estudante em Roma chegara a capitão da Lazio, ganhou-o. Impressionante a história da vida dele!

O pai era um sapateiro pobre em Paiões, vilarejo de Rio de Mouro, Sintra e Francisco dos Santos tinha dois anos quando ele morreu de uma «tísica fulminante», em 1880. Por especiais diligências do pároco da freguesia entrou para a Casa Pia de Lisboa em 1887. Lá, em Belém, seis anos depois, Januário Barreto e Bruno José do Carmo espalham entre os colegas a «novidade do jogo da bola» - e logo ele, franzino, mostrou, desconcertante, o seu jeito no futebol, como já mostrara no desenho, na escultura.

Para que se matriculasse na Escola de Belas Artes, em 1893 a Casa Pia deu-lhe, para despesas, subsídio mensal de sete mil rei, e para que às aulas fosse «vestido e arranjado convenientemente» pagou-lhe «seis camisas de pano cru, seis lenços de algodão de cor, seis pares de meias, três calças de brim, três calças de mescla, três ceroulas de pano cru, três jalecos de baetilha, três jaquetas de riscado, duas jaquetas de mescla, dois pares de sapatos e, ainda, uma unidade dos seguintes objectos - bonnet de pano azul, botins, escova para calçado, escova para dentes, escova para fato, jaqueta de pano azul, pente, saco de estopa e um bosquejo métrico», lê-se em documento de então.

Cinco anos volvidos terminou o curso com «distinção e medalha de prata».

Em 1903 ganhou um concurso de Escultura para pensionista na Escola de Belas Artes de Paris.

Dava para pouco, a bolsa, no Inverno. Faltando-lhe o dinheiro para o combustível do fogão, «embrulhava o corpo em folhas do Le Fígaro e do Le Matin e cobria-o com os fatos roçados que tinha». Era assim que se aquecia, e conta-se que arranjava ele próprio as botas que se esburacavam duravam uma década.

Casou-se com Nadine Dubose, e quando passava por Portugal nunca deixava de jogar oficialmente futebol pelo Sport Lisboa, que antigos colegas da Casa Pia ajudaram a fundar, em Belém.

Através de um subsídio Valmor em 1906 foi estudar para Roma.

Complicadas continuaram as finanças, sobretudo quando foi vítima de atraso no pagamento da bolsa, porque a «prova de assiduidade», obra denominada Crepúsculo, se perdeu num armazém da alfândega. Teve, então, de viver seis meses a crédito do senhorio, dando aulas de francês para pagar a comida. Nasceu-lhe o filho. Iam-lhes valendo os vizinhos que aos Santos davam alimentos.

Na esperança de que isso pudesse compor-lhe o orçamento, ofereceu-se para futebolista da Lazio, e assim se tornou o primeiro português a jogar no estrangeiro. Em 1907, já era capitão de equipa.

Épico foi o desafio que fez em Pisa: mesmo com duas costelas partidas num choque com adversário que fracturou seis e foi de escantilhão para o hospital, Francisco dos Santos continuou em campo. E a crónica do primeiro derby entre a Lazio e a Roma, na Gazetta dello Sport de 20 de Janeiro de 1908, ainda mais lhe afogueou a fama: «Em evidência estiveram o jovem Saraceni e o veterano Dos Santos, que com os seus 55 quilos foi impressionante e dos melhores em campo».

Em 1909, regressou a Portugal «com dezoito vinténs na algibeira».

Ainda jogou pelo Sporting, ajudou a fundar a Associação de Futebol de Lisboa e foi um dos seus primeiros árbitros. A partir daí, o seu prestígio alastrou e ele enriqueceu.

Logo após a revolução de 5 de Outubro, selos, cartazes, bilhetes postais, estampas, faianças, pisa-papéis, lenços de seda, tudo isso serviu, depressa, para propagação da ideia de que felicidade era a República, das imagens dos seus heróis. A moeda deixou de ser em réis, passou a ser em escudos. Dos nomes das ruas, dos teatros e dos clubes se afastou quase tudo o que tivesse a ver com monarquia.

A nova iconografia estendeu-se ao comércio e passaram a vender-se cigarros Presidente Arriaga e vinho do Porto Bernardino Machado, telhas Republicana e cacaus Democrata.

Foi ainda em 1910 que se lançou concurso para criação do Busto da República. Francisco dos Santos venceu-o. Contudo, por essa altura já havia outro. Dois anos depois, quando o Partido Republicano ganhou a Câmara de Lisboa, Braamcamp Freire, o seu presidente, encomendou-o a Simões d'Almeida (sobrinho), e essa foi a imagem que se usou, simbólica, nos funerais de Miguel Bombarda e Cândido dos Reis, e acabou por se sobrepor, em actos oficiais, moedas, brochuras, documentos, é a que está na Academia Nacional de Belas Artes (ANBA).

António Valdemar, o seu presidente, afirmou recentemente: «A peça em barro de Simões d'Almeida (sobrinho) criou a matriz e foi difícil à de Francisco Santos impor-se. Estava numa arrecadação e foi restaurada em 2009 pelo artista João Duarte». Não deixou, contudo, também de reconhecer: «O busto de Francisco dos Santos tem um toque mais de Paris, com uma mulher mais elegante, no de Simões d'Almeida (sobrinho) a mulher é mais portuguesa, com os seios mais fartos», e não muito antes, numa publicação do Grande Oriente Lusitano, lamentava-se: «O busto oficial da República, o de Francisco dos Santos, o mais belo, é capaz de ser o mais esquecido».

Para além da Estátua do Marquês de Pombal, são dele (de Francisco dos Santos) outros importantes monumentos: Marinheiro Ao Leme, no Cais do Sodré, Prometeu, no Jardim Constantino, e o Túmulo de Gomes Leal no Cemitério do Alto de São João. Também foi pintor e deixou o seu percurso marcado pelo nu feminino, de linhas sinuosas e movimentadas, a sensualidade da carne transporta para a pedra. Salomé Dançando, que esculpiu em 1913, é considerada por naipe largo de críticos a sua obra-prima. Fernando Pamplona viu-a assim: «Um belo corpo serpentino e rojo, em que o pecado da luxúria palpita e vibra em toda a sua fascinação terrível e mortal». Sobre a A Esfinge, o poético, o olhar de Aquilino Ribeiro: «Mimosa, duma impressão soberana, um pedaço de mármore onde passa uma pura e alta emoção de arte. Tendo a finura da La Pensée de Rodin, é mostra perfeita da mão nervosa e maleável». Igual deslumbramento pôs em Um Beijo e Nina – e Albino Forjaz Sampaio fez assim a síntese da sua obra: «Prende-nos os sentidos, faz pensar, faz sentir».

Quando Francisco dos Santos morreu, em 1930, com 58 anos, António Couto, arquitecto que fora seu companheiro no futebol da Casa Pia, do Sport Lisboa e do Sporting, traçou-lhe, emocionado, o retrato, e Carlos Enes reproduziu-o assim na biografia que lhe escreveu:

«Foi dos artistas do seu tempo o que mais trabalhou, o que mais modelos expôs, o que mais obras vendeu. A prosperidade material reflectiu-se na pequena barriguinha que lhe foi crescendo. Contudo, manteve-se sempre mexido, jovial e ruidoso, com as mãos atrás das costas e o chapéu às três pancadas, dando um ar de comerciante feliz nos negócios. Apesar de não o parecer, pelo seu feitio despretensioso, era bastante inteligente e culto, um musicólogo apaixonadíssimo, com presença assídua em concertos e, acima de tudo, um grande homem, um grande coração».

fonte cons.: http://www.abola.pt/mundos/ver.aspx?id=198302