domingo, 31 de julho de 2011

As crianças-soldados


A resolução 1998 das Nações Unidas é de extrema importância e, aqui, mais uma vez, o papel fundamental da ONU na defesa da dignidade, direitos humanos e justiça.


Ao ponto que se chega quando se aliciam, recrutam e treinam crianças para a guerra!

Injectam-lhes raiva e preparam-nos para destruir, matar, matar os outros e matarem-se a si próprias, em nome de um pretenso deus misericordioso que no céu os acolherá, esvaziados que foram de qualquer sentimento que não o ódio e a vingança. Completamente manipulados pelos que, em nome da fé, da intolerância e do egoísmo, os impelem para o encontro com a morte que deles fará mártires e heróis estupidamente desaparecidos.

Não olharam nem olham a meios para saciar a sua fome de poder e a sua sede de sangue, fazendo na terra o verdadeiro Inferno que a todos atormenta, obsessivamente impelidos pela cegueira do fundamentalismo religioso e escondidos no terrorismo com o qual roubam a vida de inocentes, a infância, paz e o direito que todos têm de ser felizes.  

Afeganistão, Birmânia, Burundi, Chade, República Centro-Africana, Colômbia, República Democrática do Congo, Filipinas, Nepal, Somália, Sudão, Sri Lanka e Uganda, são os países onde mais casos se verificam de crianças recrutadas para combater.
Além de recrutadas quase sempre pela força, são raptadas às suas famílias e à pobreza imensa das suas vidas, drogadas e psicologicamente instrumentalizadas para a espionagem, exploração sexual e, horror dos horrores, para servirem de escudos humanos.

Calcula-se que haja mais de 300 mil crianças envolvidas em conflitos armados por esse mundo fora. 
A Unicef refere que a maioria é adolescente e que até crianças com 7 anos estão nestas situações.
Quando os ”compromissos de Paris” em 2007 foram assumidos,  os países prometeram combater a “impunidade” dos que cometem estes recrutamentos e "investigar e perseguir” essas pessoas, opondo-se à amnistia destes crimes. Para pôr termo a este recurso inaceitável, a conferência de Paris também se propôs aprovar um acordo no sentido de se desenvolverem novos programas de libertação, de protecção e de reinserção social dessas crianças-soldados.
Estas, devem ser consideradas como vítimas e não apenas como presumíveis culpados.
O trabalho de Graça Machel   http://www.unicef.org/graca/ "O impacto dos conflitos armados sobre as crianças", the impact of conflict on children, trouxe uma maior visibilidade a estas crianças e jovens e aos horrores da sua condição de “soldados”, aprofundando o debate sobre matéria tão séria e tão urgente, quer  à luz dos Direitos Humanos/Direitos da Criança quer à luz do Direito Internacional, permitindo “o rápido entendimento de que crianças transformadas em combatentes são vítimas ou alvo fácil para manipulações por parte de organizações que aderem aos conflitos em busca de ganhos políticos”.
Leituras que sugiro:
Nazaré Oliveira
 

New York, 12 July 2011 - During the annual Security Council Open Debate on Children and Armed Conflict, the Security Council unanimously adopted a resolution expanding the criteria for listing parties to conflict in the Secretary-General's annual report. The criteria now include parties who attack schools and hospitals.
Additionally, the Security Council, under the German presidency, firmly reiterates its readiness to impose targeted measures against those who persistently violate children's rights in conflict. Read Full Press Release









PRESS STATEMENT: Statement by the Special Representative for Children and Armed Conflict on the protection of children in Libya (09 Mar)










The sharkman. O homem-tubarão.

sábado, 30 de julho de 2011

Dom Manuel Martins e as touradas





Li isto e partilhei no FB: "A NOBREZA do TOURO E A COBARDIA DO HOMEM. Um bispo contra as touradas-Cabe aqui referir a importante posição de D. Manuel Martins (Bispo de Emérito de Setúbal), quando gentilmente recebeu uma delegação do MATP - Movimento Anti-Touradas de Portugal e lhe questionamos se gostava de touradas: "Não gosto, nunca gostei. Brincar barbaramente com um animal, como na tourada, acho que é uma agressão à Ecologia, ao equilíbrio da natureza." Fonte: MATP - Movimento Anti-Touradas de Portugal”

Aqui reproduzo a troca de opiniões interessante que provocou, dia 24 de Julho, na minha página do FB. Da discussão nascerá a luz?

RPS Nunca percebi a fobia actual destas "cruzadas" anti-taurinas. Em sua substitução é mais um modo de cultura que se destroi. E claro... já te disse anteriormente, em sua substituição caminharemos, a passos largos, na tão famigerada globalização e no vazio cultural. Com coisas tão importantes para se preocuparem, a burguesa essencia de certos intelectuais (ou armadados em tal) urbanos DESTROIEM pedra atrás de pedra da alma de um país!!! Mais uma vez reconheceremos que Hemingway e Picasso eram umas "bestas sanguinárias", assim como o são muitos mais. E até na Igreja, tal como como D. Januário Torgal Ferreira que por acaso até tem uma visão completamente oposta ao "Bispo Vermelho".
Luisa Correia‎"cruzadas" talvez por uma boa causa...No circo romano a multidão também se divertia...
Nazaré Oliveira R, gostaria que me respondesses, sinceramente, com sim ou não, às seg perguntas sobre esse "espectáculo"? 1- é feito com crueldade? 2- é sangrento? 3- é macabro? 4- é fonte de rendimento? 5- é um negócio? 6- serve a educação cívica? 7- promove boas práticas? 8- dá prazer? 9- tem utilidade? 10- faz sentido? 11- é desporto? POR FAVOR, AGRADECIA QUE FUNDAMENTASSES OS TEUS SIM OU NÃO, PARA QUE TODOS PERCEBAM, AFINAL, DE QUE É QUE TENS MEDO, OU MELHOR, QUAL É A TUA FOBIA. Vou ler atentamente as tuas fundamentações pois, as minhas, já as conhecem há muito, quer nas n conversas quer nos artigos q publico no meu blogue.
Nazaré Oliveira Já agora, eu sou contra a tourada do mesmo modo que sou contra a tortura, a crueldade, a pena de morte, a humilhação e a exploração do sofrimento dos outros, a ignorância e a estupidez. Quero lá saber se A ou B estão ou não "do meu lado"! O que me interessa é que EU ESTOU DO LADO DA VIDA. Vida com dignidade que reivindico para todos, até para os ignorantes e estúpidos.
RPS Nazaré. Sabes que o sentido da "tourada" é cultural, simbólico e até místico. É a representação do "triunfo da arte sobre a força bruta; da inteligencia sobre a bestialidade; da coragem sobre a adversidade do imprevisivel! E tudo isto se representa numa celebração, porque tudo isto existe na nossa própria vida. E, obviamente para os anti-tourada o resultado é fácil de prever: menos uma tradição e extinção completa dos touros bravos! Talvez isso satisfaça os relativistas culturais: Aqueles que em troca da destruição da essencia nacional o sustituem por culturas estrangeiras ou por sub-culturas mediocres...
Luisa Correia A tourada é uma arte que gera sangue e sofrimento.O Rui identifica o touro com a força bruta,a bestialidade, o imprevisível.Um touro picado é excitado, sofre e em desespero ataca...é condicionado para dar espetáculo!E o homem aí exercita a sua inteligência, a sua arte triunfal de coragem sobre a adversidade?? Não haverá outras formas mais construtivas de celebrar estas qualidades? A extinção da tourada como destruição de uma tradição e de uma cultura? Assim não se deveria ter acabado com a pena de morte!Era a celebração pública da justiça, o castigo exemplar perante a multidão!Além disso as culturas deverão supostamente evoluir num sentido mais humano que inclui o respeito pelos animais ( mesmo os selvagens)e pelo ambiente. Fique na sua Rui.Divirta-se com as touradas.Também lutarei pela " essência nacional" mas sem touradas!
RPS Luisa. O problema é que as culturas "não estão a evoluir" mas sim a regredir! Tudo se destroi e tudo se apaga e NADA RESTA para além da sub-cultura de mediocridade ou dos estrangeirismos por complexo. É isso que essencialmente condeno, da mesma forma que digo NÃO ao paternalismo por decreto! Se há liberdade para umas coisas, então deverá haver para todas.
Nazaré Oliveira Pagam um dinheirão para ver este HORROR e TERROR e dizem, depois, não ter dinheiro para comprar os manuais para os filhos ou, então, andam "à mama" a pedinchar subsídios e a fazerem-se de pobrezinhos! Este país está cheio de merdosos!
RPS Luisa. Essa do Circo Romano já não pega. Por paralelismo, é a mesma coisa que estar a querer condenar o cristinismo e só falar da Inquisição!
Nazaré Oliveira RPS, não conseguiste fundamentar o que te pedi nas perguntas aqui colocadas no domingo às 18.34h. Obrigada. Essa é a melhor prova que me/nos podias dar para justificar o que NEM TU PRÓPRIO CONSEGUES.
Aliás, estás mesmo bem "nesse clube": usas os chavões habituais dessa gente que só se excita na arena e com os touros, com o sangue a jorrar do corpo desses seres inocentes e indefesos.
Essa gentinha, incluindo os forcados) cheios de paranóias, frustrações, machões a tresandar a marialvismo, vivem do sadismo e do gozo que lhes dá o cheiro do sangue quente e o som da carne a rasgar-se pela força bruta e impiedosa das bandarilhas traiçoeiras que os vão enfraquecendo e matando lentamente ao som das palmas criminosas de gente perversa que assiste e vibra com raiva, com ódio e estupidez, a cenário tão macabro.
A pé ou a cavalo, escondem a sua pequenez (interior e exterior) debaixo das ridículas e efeminadas vestimentas que os espartilham até ao cérebro.
Mentalmente entorpecidos, nunca sabem responder às minhas perguntas, quero dizer, FUNDAMENTAR O SEU “SIM” OU O SEU “NÃO”, como acabaste de provar, desde domingo às 18.34h!
Agarram em meia dúzia de palavras sonantes pseudo-intelectualmente brilhantes e espetam-nos com elas como se “do lado de cá” embrutecidos também houvesse.
Palavras vazias de sentido e de humanidade, pretensiosamente e incorrectamente utilizadas para transmitirem uma postura cultural e moral que nunca terão (e demonstram sempre nunca ter), pavoneando-se como heróis que são da verborreia fácil perante aquela plateia de criaturas horrendas à espera do sofrimento e da morte que aplaudem até de pé.
RPS Detesto paternalismos...

O terrorista de Oslo está a servir-se de nós



Estes tipos, que fazem do Mein Kampft o seu livro de cabeceira, claro que planeiam tudo! Claro que são inteligentes nessa planificação do terror e da monstruosidade!
Estúpidos e nojentos são os que lhes arranjam sempre patologias mentais para os safarem ou branquearem a sua imagem, como se um monstro destes alguma vez tivesse um pingo de dignidade!
Com brandos costumes, aqui ou na Noruega, aumentarão certamente os perigos para as sociedades democráticas, irremediavelmente condenadas pela ignorância dos que não vêem ou não querem ver a diferença.
É verdade, sim, chega a causar asco o tempo de antena que esses tipos têm e a arrogância com que dele se servem!



UMA MONSTRUOSIDADE!

terça-feira, 26 de julho de 2011

União Europeia - Os apelos ao “federalismo”


Os apelos ao “federalismo” mostram uma vontade: a vontade de não cumprir o programa assinado entre Portugal, a União Europeia e o FMI.
Passaram dois meses desde a assinatura do acordo, este mal começou a ser implementado, e já há quem tenha assumido uma das atitudes favoritas dos portugueses: vamos arranjar uma maneira de nos safar sem ter que fazer o trabalho difícil. A atitude do "esquema" vestiu a roupa do federalismo europeu. Claro que ao fazê-lo, assume uma posição moral, aparentemente desinteressada, e até para o bem da própria "Europa".
O que significa então esta nova versão de "federalismo"? Basicamente, federar a dívida portuguesa (mais a grega, a irlandesa e, talvez, a espanhola, a italiana e a belga).
Em traços gerais, seria este o resultado dos ‘eurobonds'. É por isso que a Alemanha e os seus aliados da zona Euro têm rejeitado as soluções que visam "europeizar" as dívidas. Além de não quererem transferir dinheiro para os países endividados, desconfiam que a solução "fácil" iria adiar, mais uma vez, a necessidade de reformas estruturais. E vendo as resistências às reformas que começam a aparecer, têm alguma razão.
Até pode acontecer que para salvar o Euro seja necessário aprofundar a construção europeia e encontrar-se uma fórmula para os países mais ricos se responsabilizarem pelas dívidas dos mais endividados. Mas ninguém julgue que isso resolve o problema e que poderíamos, então, voltar à vida do costume. A federação da dívida teria um outro lado: a federação da autoridade e do poder. E quem pagar, vai mandar ainda mais.
Ao contrário do que pensam os seus defensores, o "federalismo" pode salvar o Euro, mas não resolve o essencial. Isto não é uma crise do Euro. O problema de fundo da crise europeia é que chegámos ao fim de um modelo económico e social e de um certo modo de vida. Não é possível continuar a aumentar o consumo, a reforçar os privilégios sociais, sem produzir a riqueza suficiente e a viver de crédito. Só há duas soluções: ou produzimos mais, e continuamos a ser prósperos; ou não produzimos, e perdemos privilégios. Mesmo que haja mais "federalismo", teremos que fazer reformas ou alterar o modo como vivemos.
De resto, só mudaria a autoridade que nos obrigaria a fazê-lo. Seria alguém em nome da "federação". Esta é a última hipótese de sermos nós portugueses, através das instituições nacionais e após um processo de legitimização democrática, a fazê-lo. Se ainda há orgulho e dignidade no nosso país, vamos cumprir as nossas obrigações sem ficar à espera que nos salvem.
No fundo, nesta narrativa ilusória, a "federação europeia" substituiria o Estado português. Se este já não pode pagar, que pague aquela. Mudar de vida é que não. Eis, o verdadeiro problema: há muita gente que ainda não consegue imaginar um futuro diferente e melhor que o passado.

João Marques de Almeida, Professor universitário http://economico.sapo.pt/noticias/federalismo_122790.html

Africa famine experts: 800,000 children may die


Por que é que os países que podem ajudar esta gente não o fazem? Depressa! 

Estraga-se tanta água, alimentos, medicamentos...Consome-se tanta porcaria! Vive-se de uma forma tão egoísta, tão desumana, tão indiferente ao OUTRO!
Acentua-se o abismo entre quem tem tudo e quem não tem nada.
Mas o que revolta e enoja é que são sempre os mesmos a pagar com a vida as consequências da aplicação de políticas económicas e ambientais que os mais poderosos teimam em prosseguir!
Até quando? Até quando esta realidade tragicamente documentada nas fotos anexas? Até quando estes massacres, estes rostos, estes olhos, esta DOR?
Até quando relações políticas e internacionais de hipocrisia feitas e falsas promessas? Até quando?

July 26, 2011 11:01 AM
Mihag Gedi Farah, a seven-month-old child with a weight of 3.4kg, is held by his mother in a field hospital of the International Rescue Committee, IRC, in the town of Dadaab, Kenya, Tuesday, July 26, 2011. (AP Photo/Schalk van Zuydam) (AP) 


DADAAB, Kenya - Mihag Gedi Farah is 7 months old, and weighs as little as a newborn with the weathered skin of an old man.

His mother managed to get him to a field hospital in a Kenyan refugee camp after a weeklong odyssey, but the baby's anguished eyes, hollow cheeks and fragile limbs show just how severe Somalia's famine is becoming.

Officials have warned that 800,000 children could die across the Horn of Africa, and aid workers are rushing to bring help to dangerous and previously unreached regions of drought-ravaged Somalia.




Mihag's sunken face brings new urgency to their efforts and raises concerns about how many children like him remain in Somalia, far from the feeding tubes and doctors at this Kenyan refugee camp.

His fragile skin crumples like thin leather under the pressure of his mother's hands, as she touches the hollows where a baby's chubby cheeks should be.


Sirat Amine, a nurse nutritionist with the International Rescue Committee, puts the little boy's odds of survival at just 50-50. Mihag weighs just 7 pounds, 8 ounces when a boy his age should weigh nearly three times that.

"We never tell the mother, of course, that their baby might not make it," the nurse says. "We try to give them hope."




Mihag is the youngest of seven children in his family. His mother brought him along with four of his siblings on the journey from Kismayo to northern Kenya after all their sheep and cattle died because of drought.

Like the tens of thousands of other Somalis fleeing starvation, the family traveled by foot, other times catching rides with passing trucks, cars or buses.

His mother, Asiah Dagane, isn't sure of her age but appears in her mid-30s. She sits at her baby's bedside with little to say: "In my mind I'm not well. My baby is sick. In my head I am also sick," she says softly.

The United Nations estimates that more 11 million people in East Africa are affected by the drought, with 3.7 million in Somalia among the worst-hit because of the ongoing civil war in the country.


Somalia's prolonged drought devolved into famine in part because neither the Somali government nor many aid agencies can fully operate in areas controlled by al Qaeda-linked militants, and the U.N. is set to declare all of southern Somalia a famine zone as of Aug. 1.

Aid organizations including the U.N. World Food Program have not been able to access areas under the control of the al-Shabab militants, who have killed humanitarian workers and banned the WFP.

The U.N. has said it will airlift emergency rations later this week in an effort to try and reach at least 175,000 of the 2.2 million Somalis who have not been helped yet.

The new feeding efforts in the four districts of southern Somalia near the border with Kenya and Ethiopia could begin by Thursday, slowing the flow of tens of thousands of people who have fled their homes in hope of reaching aid.

But the WFP hasn't operated there for more than two years, and must find and rehire former employees to help with distribution. Transportation is also a substantial obstacle, as land mines have severed key roads and a landing strip has fallen into disrepair.

Donations are also desperately needed to sustain the aid effort in the Horn of Africa: The U.N. wants to gather $1.6 billion in the next 12 months, with $300 million of that coming in the next three months.

On Wednesday, the U.N. Food and Agriculture Organization said a coordination conference is due to be held Wednesday in the Kenyan capital.

O problema mais importante e urgente


É à Escola e aos professores que, desde a Antiguidade, muitas sociedades, com destaque para as sociedades ocidentais, têm confiado a educação formal de crianças e jovens.

E porque é que o têm feito? Entendo que há uma razão fundamental que, curiosamente, vejo escapar em muitas discussões actuais sobre a função de tal educação e na qual vislumbro três pólos: o desenvolvimento de certas capacidades cognitivas, afectivas e motoras dos sujeitos; o funcionamento a níveis aceitáveis de comunidades e estados; e a transmissão e ampliação da herança civilizacional.

Na verdade, como humanos, cedo percebemos que a educação formal nos permite vir a desfrutar de capacidades que trazemos em potência ao nascer e que tal se faz com base em conhecimentos acumulados ao longo do tempo, conhecimentos que valorizamos e, nessa medida, transformamos em memória funcional.

Assim, transmitir conhecimentos, técnicas, valores, instruir, preparar para a cidadania, para a consciência do mundo, para o progresso, para o bem, para o belo, para a liberdade, até para a felicidade, são alguns dos grandes propósitos que têm conduzido o sonho e a acção educativa.

É certo que há muitos momentos em que a tais propósitos têm dado lugar aos seus contrários: regimes aberta ou disfarçadamente totalitários encarregam-se disso nas suas primeiras medidas.

Porém, desde os esboços de democracia grega até ao presente, temos conseguido fazer face a esses regimes bem como a crises de toda a ordem. Por isso, a escola e os ideais que persegue, ainda que com inúmeras variantes, sobreviveram, o mesmo se pode dizer do ensino, a profissão que os concretiza. Mas isto não constitui qualquer garantia de que assim continue a acontecer.

Efectivamente, a educação é uma tarefa interminável, que requer, a cada momento, reconstituições com cada sujeito e para cada sujeito, de modo que este se aproprie de uma parte do humano, se conduza por ele e, eventualmente, o transmita a outros. Percebe-se que qualquer falha menor nessa tarefa, acarreta prejuízos incalculáveis: debilita-se a vocação e o entendimento que temos de “pessoa”; perece o passado e compromete-se o futuro.

Pela permanência e urgência de tal tarefa, muitos assemelham-na à de Sísifo, mas também pelo esforço que é preciso despender e pela vontade de a empreender, tendo por certo que nunca ela se concretiza por inteiro, que é sempre preciso recomeçar do nada ou de próximo do nada…

Esta é a consciência que acompanha os verdadeiros professores, aqueles que apreenderam o sentido de educar e que sabem que está nas suas mãos e só nas suas mãos cumprir tal desígnio.

São estes professores do Ensino Básico, Secundário e Superior, jovens e experientes, que eu vejo todos os dias desistir. Nas suas palavras, nem sempre explícitas, frequentemente sussurradas, percebo:

- Fadiga extrema, pelas inúmeras tarefas burocráticas que têm de concretizar sem falta ou falha e em tempo limitado mas nas quais não percebem qualquer sentido a não ser impedi-los de estudar, preparar aulas, dar atenção aos seus alunos.
- Desorientação absoluta, face aos discursos da tutela e de especialistas em educação, a que são continuamente expostos. Discursos que são, as mais das vezes, incompreensíveis e contraditórios, mas onde, no entanto, se vêem desapossados da sua função de ensinar e reduzidos a “meros” orientadores, acompanhantes das aprendizagens.
- Desencanto inquieto, por terem tentado tudo o que estava ao seu alcance para compreenderem esses discursos e, quando perceberam o seu alcance lesivo, para o filtrarem de modo que nas suas sala de aula causassem o menor impacto possível. Porém, não obstante os seus esforços, não podem negar que eles invadem, de modo incontrolável, as suas práticas, que sabem tornar-se erradas por não conduzirem a aprendizagens válidas.
- Apresentação insustentável de uma imagem socialmente favorável, pela necessidade de reproduzirem esses mesmos discursos, sob pena de serem mal interpretados, avaliados, julgados pelos seus pares ou outros. Assim, escondem a sua voz, sabendo que estão a atraiçoá-la e a atraiçoar os que dela podiam beneficiar.

Sublinhei as palavras extrema, absoluta e inquieto e insustentável para que se perceba o estado limite a que os bons professores, os professores que se interessam, chegaram: sabem bem que não fazem o que devem, e que é ensinar, ou seja, sabem bem que muito dificilmente conseguem levar o conhecimento que importa aos alunos, de modo que estes o amem e desenvolvam a sua inteligência. Em alguns percebo que esse estado é próximo do vegetativo, arrastam-se e cumprem, numa tentativa de sobrevivência pessoal, até terem coragem de mudar de profissão ou de pedir a reforma antecipada.

Infelizmente, a investigação que se faz na área pedagógica corrobora o que acabo de afirmar: o mal-estar dos professores vai além da mera insatisfação, torna-se num abandono incontornável ainda que indesejado.

Termino este texto com as palavras de Eric Weil (1904-1977), na esperança de que elas sirvam para despertar a necessidade de se repensar a importância e urgência da educação para todos neste início século.
"O perigo futuro poderá traduzir-se numa ameaça muito maior: o perigo de uma humanidade liberta da necessidade e do constrangimento exterior mas impreparada para dar conteúdo à sua liberdade. Neste sentido, não seria exagerado afirmar que não existe nenhum problema mais importante, mais urgente, que o da educação. E os nossos sucessores podem vir a ser incapazes de o resolver se demorarmos demasiado tempo e se, desde já, não reflectirmos suficientemente sobre esse problema. Podem mesmo vir a ser incapazes de ver o problema e de tomar consciência daquilo que já vem mal de trás - exactamente da mesma maneira que a filosofia grega, nos seus últimos momentos, deixou de procurar uma resposta válida para todos os homens livres e para toda a comunidade de homens livres e apenas procurou encontrar consolação para os raros indivíduos que continuavam a pensar que tudo tinha acabado mal. Ela renunciou assim a perceber que era possível, ou teria sido possível, encontrar um remédio.”
Referência bibliográfica: Weil, E. (s.d). A educação enquanto problema do nosso tempo. Pombo, O. (2000) Quatro textos excêntricos. Lisboa: Relógio D´Água, páginas 70-71.
Imagem: Sísifo, por Max Klinger (1914).

Foi escrito dia 7 de Fevereiro de 2010! (Dra. Helena Damião in De Rerum Natura)

Século XX - 100 anos de genocídio

Desde os primórdios das civilizações que a brutalidade, as atrocidades e o extermínio de etnias faziam parte da formação dos impérios.
Os grandes impérios surgiram da dominação e conquista de vários povos e reinos menores e, a crueldade do povo dominante sobre o dominado não tinha limites, sendo vista como parte do mecanismo da conquista e, mesmo na antiguidade, costumava-se escravizar os povos dominados.

A colonização dos novos continentes foi feita à custa do extermínio de vários povos e culturas. Assim, assistiu-se aos extermínios dos índios do Brasil e da América do Norte, das civilizações andinas, de quase toda a população dos aborígenes da Oceania.
O flagelo dessas culturas era visto como um mal necessário para o desenvolvimento intelectual e religioso das novas terras conquistadas mas com a evolução da ética nas civilizações modernas, os conceitos morais foram revistos e a moral dominante dos estados reinventada (certos costumes morais de dominação de estado e poder passaram a ser vistos como vergonhosos e como crimes contra a humanidade).

O Conceito de Genocídio

Até à Segunda Guerra Mundial, que impulsionou o fim do colonialismo, a barbárie sobre um povo tido como inferior ou gentio era justificada e aceite moralmente.
Diante das atrocidades da Alemanha nazi, surgiu, finalmente, o conceito de genocídio. O termo genocídio, do grego genos, raça e do latim caedere, matar, que nos dicionários é descrito como “destruição metódica de um grupo étnico, pela exterminação dos seus indivíduos”.

Foi criado em 1944 por Raphael Lemkin, um judeu polaco especialista em Direito Internacional. Já o século XX ia longo em perseguições e extermínios quando Lemkin criou a palavra genocídio.
Na década de 1930 Lemki alertou o mundo para as intenções de Hitler, mas foi ridicularizado. Refugiou-se nos Estados Unidos em 1941, sem conseguir apoio da comunidade internacional que protegesse os judeus perseguidos na Europa.

Esta palavra serviu para enquadrar a terminologia adotada pelas Nações Unidas na Convenção sobre o Genocídio, de 9 de dezembro de 1948. Desde então, os crimes de genocídio foram tipificados e as punições para os mesmos foram previstas.

A convenção da ONU explicitou o genocídio:
são atos de genocídio todos os que sejam cometidos com a intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso.

Mesmo depois do genocídio ter sido tipificado como crime, a violência contra os que são ou pensam de modo diferente não deixou de existir.
O Século XX mal expirou e deixou como herança o estigma de ter sido o século dos genocídios, onde a evolução tecnológica e ideológica do estado moderno possibilitaram o requinte e o aprimoramento das técnicas de extermínio de povos vistos como diferentes e ameaçadores aos interesses do estado.
Académicos como Zigniew Brzezinski estimam que 187 milhões de pessoas foram mortas ou abandonadas à morte no Século XX - no total, 16 a 17 milhões de pessoas foram vítimas de atos de intolerância ideológica, étnica, racial ou religiosa.

As Grandes Chacinas*

Entre os cientistas políticos atuais há um grande debate entre o que deve ser considerado genocídio. Seguem-se as principais atrocidades do século XX, consideradas genocídios:

Hereros, 1904

Os hereros, povo banto da África Sudoeste (hoje Namíbia), revoltaram-se contra a colonização alemã. Os hereros viviam basicamente da pecuária. Passo a passo, o orgulhoso povo de pastores perdeu seus campos para os colonizadores alemães. Essa ocupação desencadeia uma revolta em janeiro de 1904. A repressão das tropas alemãs expulsou os hereros para o deserto de Omaheke, onde são condenados a morrer à fome e sede depois do exército liderado por von Trohta ter envenenado as fontes. A perseguição aos hereros foi condenada por grandes protestos na Alemanha, mas nunca cessou. Em 1911 apenas restavam 15 mil vivos, sendo na sua maioria mulheres e crianças. A existência dos hereros como entidade cultural extinguiu-se.

Arménios, 1915

Os armênios são cristãos da igreja ortodoxa da Armênia, que se instalaram há três mil anos na Anatólia, Ásia Menor, atual Turquia. Em 1913 formavam dez por cento da população turca e tinham contra si a discriminação e o ódio racial da juventude turca. Com a chegada desses jovens ao poder nesse ano, a questão Armênia surge no contexto da Primeira Guerra Mundial. Acusados de colaborar com os russos, os armênios foram alvo de extermínio perpetrado pelo Estado Turco e por sua população. Em 1915 foram deportados para o deserto sírio. Mais de um milhão de armênios morreram durante o êxodo ou em execuções sumárias.

Curdistão, 1919/1999

A etnia curda, cerca de 36 milhões de pessoas, nunca teve um estado, espalha-se pelos territórios da Turquia, Irã, Síria e Iraque, e o conflito com estes países custou milhões de vida ao longo do século XX . O problema persiste até aos nossos dias, com uma guerra velada e feita por guerrilhas, sem a premeditação que leva um grupo a querer exterminar o outro, o que faz com que não se prove o ato de genocídio. Os bombardeamentos com gás venenoso feitos pelos iraquianos sob as ordens de Saddam Hussein, mostram o ato de genocídio que os curdos vêm sofrendo. Somente na aldeia de Halabja, morreram quase 5 mil pessoas em conseqüência do efeito das terríveis armas químicas.

Ucrânia, 1932/1933

A Ucrânia fez parte da extinta União Soviética. A coletivização dos campos decretada por Stálin bateu de encontro à resistência dos kulaks (camponeses ucranianos). Dentro da dialética e da concepção do estado soviético os camponeses ucranianos foram classificados como inimigos de classe e contra-revolucionários, sendo alvo de implacáveis perseguições. Depois de se falhar o objetivo de produção da campanha de 1932, os armazéns de cereais foram esvaziados e os vilarejos sitiados. No inverno de 1932 a fome vitimou entre cinco a sete milhões de pessoas.

Alemanha, 1933/1945
                                                                                         
Com a ascensão do nazismo em 1933, o mundo assistiria por mais de   uma década  ao maior genocídio do século XX.                                                    
De início os nazistas preocuparam-se com a depuração dos 600 mil judeus alemães.
A ação dos Einsatzengruppen (esquadras móveis de assassinos das SS nazistas) e a estratégia da “Solução Final” concebida por Reinhard Heydrich, das SS, decidida no subúrbio de Wannsee, Berlim, em janeiro de 1942, com ou sem autorização direta de Hitler, matou entre 5 a 6 milhões de judeus.
Também foram vítimas dos alemães os ciganos e outras minorias religiosas (Testemunhas de Jeová).



Crimeia e Volga, 1941

Em 1941 Hitler invade a União Soviética, forçando Stálin a entrar na guerra contra os alemães. Com a abertura da frente leste pelo exército alemão, Stálin decreta a deportação dos alemães do Volga e dos povos localizados em áreas estratégicas que se tinham oposto ao reforço do regime. Cinco milhões de alemães, tártaros, tchetchenos e inguches foram deportados para as estepes geladas da Sibéria ou para a Ásia Central. Não se sabe ao certo quantos desses cinco milhões pereceram.

Indonésia, 1965

A partir de outubro de 1965, cerca de 250 mil a meio milhão de pessoas, na maioria militantes do PKI (Partido Comunista da Indonésia) foram massacrados pela polícia, pelo exército e pela turba de populares. O PKI garantira por via eleitoral a participação na vida política do país, mas um golpe militar encerrou essa participação. Corpos flutuavam no Rio Brantas, sem cabeça e de estômago abertos. Para garantir que se não afundavam, eram amarrados, empalados em varas de bambu.

Nigéria (Biafra), 1967/1970

A Nigéria ficou independente da colonização britânica em 1960. É composta por várias etnias: haussa, ioruba, ibo, fulani, entre outros. Em 1966, eclodiu uma guerra civil pelo controle do poder central opondo os haussas aos ibos, sendo os últimos derrotados. O poder caiu nas mãos de um general haussa. Os ibos, concentrados no leste do país não reconheceram o governo central e proclamaram em 1967, o estado independente de Biafra, gerando uma guerra civil que se estendeu até 1970 quando os ibos de Biafra renderam-se e o território foi reincorporado a Nigéria. Cerca de dois milhões de pessoas, em sua maioria ibos, morreram nessa guerra.

Bangladesh, 1971

Quando a Índia ficou independente da coroa britânica em 1947, tinha uma população de maioria hindu, com uma minoria muçulmana. Com a independência, os territórios indianos de maioria islâmica formaram o país independente do Paquistão, que tinha duas áreas territoriais distintas: o Paquistão Ocidental era separado geograficamente do Paquistão Oriental por 1.600 km de território indiano. O Paquistão Ocidental foi composto pelas províncias de maioria muçulmana do Beluquistão, Sind, Punjab e a Fronteira Norte Ocidental. A Bengala Oriental, também de maioria muçulmana, formou o Paquistão Oriental, que fez a sua independência em 1971, passando a se chamar Bangladesh. A independência não foi aceita pelo Paquistão, gerando o extermínio de três milhões de habitantes do Bangladesh pelo exército paquistanês. A chacina causou protesto da opinião pública mundial. Um grande concerto musical de repúdio foi promovido por Ravi Shankar e George Harrison, o “Concerto pelo Bangladesh”.

Burundi, 1972

Uma revolta da maioria hutu a 29 de abril de 1972 provoca a morte de 2000 a 3000 pessoas da população tutsi, que controlava o poder. No dia seguinte o presidente Michel Micombero decreta a lei marcial, que suscita uma onda de terror que culmina na morte de 100 a 200 mil pessoas da etnia hutu. Todos os intelectuais hutus foram mortos ou exilados em outros países.

Camboja, 1975/1979

O Camboja perdeu cerca de 150 mil pessoas vítimas dos bombardeios norte-americanos na Guerra do Vietnã. Com a ascensão dos Khmer Vermelhos ao poder liderados por Pol Pot, o Camboja tornou-se um imenso campo de morte e atrocidades. Em quatro anos 1,7 milhões de pessoas (20 por cento da população) sucumbiram à fome, às doenças e aos trabalhos forçados. Pol Pot faz milhões de pessoas abandonar as cidades em migrações forçadas para os campos. Seu objetivo utópico era recriar a grandiosidade do Camboja medieval à custa do sacrifício coletivo.

Timor, 1975/1979

Timor Leste foi colonizado pelos portugueses. Com a Revolução dos Cravos em abril de 1974, inicia-se a descolonização portuguesa da África e da Ásia. Com a saída dos portugueses de Timor, a Indonésia, com a cumplicidade dos EUA, decide, em 1975, invadir o território leste daquela ilha, anexando-o ao seu território. A anexação foi feita de forma brutal, matando mais de 200 mil timorenses entre 1975 e 1979.

Antiga Jugoslávia, 1991/1999

Com o fim da guerra fria, vários foram os países que se desintegraram. A Iugoslávia de Tito dá passagem para os países independentes da Eslovênia Croácia, Bósnia-Herzegovina, Macedônia, Sérvia e Montenegro. A luta entre sérvios, croatas e outras etnias religiosas deu origem às maiores atrocidades que a Europa assistiu após a Segunda Guerra Mundial. Grupos étnicos diferentes foram mortos e expulsos na Bósnia, na Eslavônia e na Krajina. O conflito vitimou cerca de 326 mil pessoas de 1991 a 1996. Em 1999 o território do Kosovo, na Sérvia, cuja população é de maioria albanesa, sofreu a perseguição dos sérvios que gerou mais um conflito na região, a guerra do Kosovo, logo sufocado pela intervenção da comunidade internacional.

Ruanda, 1994

Os tutsis ruandeses refugiaram-se no Uganda após uma insurreição mal sucedida em 1959/62. Os seus filhos invadem o
Ruanda nos anos noventa. Os hutus são 85 por cento da população e organizam a defesa. Os hutus possuíam desde 1992 um complexo aparelho de extermínio. O Burundi, país vizinho do Ruanda, tem o seu primeiro presidente hutu Malchior Ndadaye, assassinado em 1993. O Ruanda mergulhou no horror da carnificina étnica em abril de 1994, depois que o avião que levava o presidente Juvenal Habyarimana, da etnia hutu, foi abatido a tiros em Kigali. Em três meses mais de 700 mil tutsis foram chacinados.

China (Tibete)

O Tibete foi invadido pela China em 1949. Nos primeiros dez anos de invasão, cerca de 6000 mosteiros são destruídos e é feito um número indeterminado de mortos, obrigando o seu líder espiritual Dalai Lama, a fugir do país.
A destruição sistemática da cultura tibetana não costuma constar dos anais do genocídio.

Também na China aconteceram os atos de fuzilamento em massa perpetrados na seqüência da invasão japonesa dos anos trinta. O objetivo era o aniquilamento dos chineses e coreanos, considerados inferiores pelos invasores.
300 mil pessoas foram mortas no massacre de Naking em 1937.

*Fonte: Revista Pública, nº 193

Aqui, links fabulosos para quem se interesse em saber mais sobre este tema:

sábado, 23 de julho de 2011

A indecisão eleitoral nas democracias recentes

Este artigo analisa a indecisão eleitoral nas democracias recentes. Vários estudos têm evidenciado que a lógica de voto deste segmento do eleitorado se diferencia de forma significativa dos eleitores mais estáveis, sem todavia alcançarem conclusões definitivas acerca do fenómeno. Depois de caracterizar o perfil dos indecisos em Espanha, Grécia e Portugal, examinam-se os factores mais importantes que contribuem para interpretar as opções deste segmento do eleitorado. Os resultados indicam que as predisposições ideológicas desempenham um papel fundamental, enquanto os factores de curto prazo têm um peso secundário, sobretudo para os eleitores de direita.
Palavras-chave: tempo da decisão eleitoral; indecisos; comportamento eleitoral; Europa do Sul.
INTRODUÇÃO
O fenómeno da indecisão eleitoral tem assumido uma relevância crescente nas democracias contemporâneas. A maior distância entre eleitores e partidos, a diminuição do peso das clivagens tradicionais sobre o comportamento dos eleitores e, paralelamente, o aumento da importância dos factores de curto prazo são elementos que tornaram cada vez mais central este segmento do eleitorado. Os indecisos convertem-se no alvo principal da acção dos partidos, na tentativa de influenciarem e condicionarem as escolhas dos eleitores durante a campanha eleitoral. A maior difusão dos meios de comunicação e a introdução das novas tecnologias constituem, porém, fortes incentivos para a mobilização e a persuasão dos eleitores indecisos durante as campanhas. O facto de os actores políticos concentrarem os esforços — financeiros e organizativos — nas últimas semanas que antecedem o voto demonstra não apenas a convicção de que é possível persuadir este grupo de eleitores, mas também que as escolhas destes eleitores determinam de forma crucial o desfecho da competição eleitoral. É frequente, de facto, que durante as campanhas eleitorais a atenção dos partidos e dos media se concentre sobre os indivíduos que ainda não decidiram a sua opção de voto.
Na maioria das democracias consolidadas, a tendência para o aumento da indecisão eleitoral é confirmada por recentes estudos baseados em inquéritos de opinião (Dalton, McAllister e Wattenberg, 2000, p. 48). Em geral, nas democracias contemporâneas regista-se uma maior “disponibilidade” eleitoral através da crescente proporção de eleitores que não dispõem de uma orientação de voto estável e ponderam a sua escolha durante a campanha1. Este fenómeno reflecte-se na tendência para o aumento da volatilidade eleitoral, quer a nível agregado, quer a nível individual (Mair, 2002; Dalton, McAllister e Wattenberg, 2000, p. 44).
Para além da crescente importância quantitativa, a indecisão eleitoral é um fenómeno que do ponto de vista qualitativo apresenta também características interessantes. De facto, estudos empíricos têm sublinhado a particularidade deste segmento do eleitorado e a sua importância nas dinâmicas eleitorais (Chaffee e Choe, 1980; Gopoian e Hadjiharalambous, 1994; Hillygus Shields, 2008). Por isso, a análise da indecisão contribui para compreender melhor o comportamento dos eleitores e a estratégia de mobilização dos partidos.
Quais são os factores que podem explicar o fenómeno da crescente instabilidade eleitoral? Segundo a literatura, são dois os processos que estão na origem da relevância assumida pela indecisão eleitoral. O primeiro relaciona-se com a maior importância dos factores de curto prazo como determinantes do comportamento dos eleitores, aumentando assim a disponibilidade eleitoral. O segundo baseia-se na influência dos mass media e no processo de modernização das campanhas eleitorais.
Os factores tradicionais que contribuem para formar as predisposições dos indivíduos, limitando assim as opções de voto disponíveis, tornaram-se mais débeis, acabando por exercer apenas um impacto reduzido sobre os eleitores. É o caso, por exemplo, da identificação partidária ou das tradicionais clivagens sociais que tiveram um papel importante na estabilização do eleitorado pelo menos até à década de 70 do século passado (Lipset e Rokkan, 1967; Thomassen, 2005). Deste ponto de vista, os eleitores tornaram-se progressivamente “livres de escolher”, para parafrasear o título de um importante contributo publicado em meados dos anos 80 (Rose e McAllister, 1986). A principal consequência destas transformações ao nível dos comportamentos eleitorais é o maior peso adquirido pelos factores de curto prazo, sobretudo através do papel desempenhado pelos líderes e pela percepção da situação económica. O segundo processo que afecta o fenómeno da indecisão eleitoral refere-se às transformações das modalidades de comunicação adoptadas pelos actores políticos. Os eleitores estão cada vez mais expostos à influência dos meios de comunicação, sobretudo durante a campanha eleitoral, pela multiplicação dos recursos de informação e pela maior eficácia por parte das forças políticas na identificação dos “alvos” eleitorais (Farrell, 1996; Norris, 2000). O declínio organizativo dos partidos é acompanhado por um uso mais sofisticado dos meios de comunicação, de acordo com a estratégia eleitoral dos actores políticos (Bowler e Farrell, 1992; Rohrschneider, 2002). A crescente importância das ligações directas entre líderes e eleitores — muitas vezes baseadas apenas nos traços pessoais — e a utilização das técnicas de marketing contribuem para aumentar a ambivalência e a incerteza dos indivíduos.

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Javali atirado pelo penhasco por montanhistas (vídeo)

Montanhistas, em Espanha (Picos da Europa), a atirarem um javali de um penhasco abaixo! Criminosos! No seio da Natureza, no habitat do pob...