terça-feira, 28 de junho de 2011

Era uma vez um país





Quando intervim numa palestra sobre o tema da GUERRA COLONIAL, com a presença do Sr. Professor Fernando Rosas, da Universidade Nova de Lisboa, decidi iniciar a minha intervenção recorrendo à Arte e à Poesia, concretamente, ao cartaz que, para mim, é dos mais lindos e mais expressivos sobre o 25 de Abril, de Vieira da Silva (aqui presente - A poesia está na rua), bem como, a excertos de um poema de José Carlos Ary dos Santos (que publico) e a um poema de Sofia de Mello Breyner Andresen.
Com Ary dos antos, o retrato, a história do nosso país durante o fascismo, a repressão, o medo, a miséria, a guerra, um povo amordaçado, injustiçado, lutador. Com Sofia, a alegria da madrugada sonhada que rompera, enfim, a noite vivida. 
Com a Revolução acontecida no dia 25 de Abril de 1974, a conquista da liberdade para o povo português, do respeito, do seu lugar na comunidade internacional, traçando desde logo um novo rumo na sua governação, procurando alicerces democráticos e impulsionando o país na senda da paz e da igualdade social.

De José Carlos Ary dos Santos:
Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.
Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.
Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.
Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.
Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.
Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.
Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.
Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação
uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.
Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.
Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.
Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.
Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite.
Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!
Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

domingo, 26 de junho de 2011

Não resisto!

Uma história de amor verdadeiro!


A disciplina de História é essencial.


Numa altura em que os meus alunos do 12º ano de História A se preparam para mais um exame nacional (amanhã), lembrei-me de rever as prioridades da Política Educativa no nosso pais, constatando mais uma vez como é e seria importante, efectivamente, colocar a educação no papel central que nunca lhe deveriam retirar para a modernização e desenvolvimento do nosso país.
Sobretudo, para a formação do nosso povo no âmbito de uma cultura política e social de responsabilidade, designadamente, na cidadania activa e  intervenção cívica, tão pouco visíveis e actuantes num país que viveu sob uma ditadura de 48 anos mas que já completou 37 de democracia.
Apesar da legislação referir que as principais prioridades da política educativa do  XVIII Governo Constitucional assumiam o papel central de educação e qualificação dos portugueses na coesão social, no crescimento económico e na modernização do país, que promoviam a igualdade de oportunidades no acesso à educação e ao conhecimento e o progresso do sistema educativo, estabelecendo objectivos que orientavam a acção governativa nos domínios da educação e do ensino, muita coisa não foi e devia ser repensada e levada à prática.
É o caso da disciplina de História: deveria ser obrigatória até ao 12º ano, quer nos cursos científico- tecnológicos quer nos científico-humanísticos.
Não seríamos os únicos a fazê-lo! Na vizinha Espanha, por exemplo, todos os alunos de todas as áreas têm exame nacional a História no fim do secundário. É fundamental a aprendizagem da História e fundamental o seu ensino.
Não podemos cair naquele discurso falsamente vanguardista de que o conhecimento das TIC & Cª Lda. são o passaporte para o sucesso do país e para a sua modernização no seio das nações. E que, embora no nosso país haja uma alta % de utilizadores de telemóvel ou utilizadores de Internet, isso não é sinónimo de desenvolvimento! Não. Não é por aí.
Escreve-se mal, fala-se pior e pensa-se menos.
De que vale tudo isso se o aluno, a pessoa, não interioriza a importância do conhecimento histórico, passado, presente, no plano político, económico, ideológico, cultural...se não tiver capacidade crítica de se auto analisar como peça importante no caminho traçado pelo seu país, reconhecendo também que é responsável pelo funcionamento das instituições democráticas, pela política, pelas questões transnacionais, pela sua identidade europeia?
O ensino da História é imprescindível e a  sua aprendizagem cada vez mais necessária nesta "aldeia global".
Sendo a disciplina por excelência da análise diacrónica do mundo, das sociedades e do Homem, numa abordagem privilegiadamente multidisciplinar, a História é mais do que útil na formação dos indivíduoa: é essencial na sua formação como cidadãos do Mundo.

Senhor Professor Nuno Crato, mãos-à-obra!

Nazaré Oliveira

ver  também https://wcd.coe.int/wcd/ViewDoc.jsp?id=234237

Mikhail Gorbachov - político de causas nobres

Texto escrito a propósito do "Conselho de Estado" em Arcos de Valdevez para a Agência Lusa. Infelizmente, Milkhail Gorbachov não esteve presente por motivos de saúde:

"Os adversários políticos de Mikhail Gorbachov criticam-no quando faz publicidade a pizzas ou malas de viagem, mas o antigo Presidente da União Soviética responde que o objetivo é conseguir meios para apoiar causas nobres.
Depois de ter abandonado o cargo de Presidente da URSS, em dezembro de 1991, Gorbachov criou uma fundação com o seu nome, que realiza um intenso trabalho de investigação histórica, nomeadamente no campo da publicação de documentos relativos à história da “perestroika”, processo de reformas ocorrido na URSS entre 1985 e 1991.
Gorbachov, que este fim de semana é homenageado em Arcos de Valdevez, participa também numa série de programas humanitários e ecologistas na Rússia e no estrangeiro.
Em 1993, Gorbachov criou, na Suíça, a Cruz Verde Internacional, análoga da Cruz Vermelha, mas no campo da ecologia.
A organização coloca como objetivos: “prevenir e resolver conflitos que surjam devido à deterioração da situação ecológica, prestar ajuda às pessoas que sofram devido a consequências ecológicas de guerras, elaborar normas jurídicas e éticas que se tornem a base da criação de um mundo ecologicamente seguro”.
A mulher do reformador soviético, Raísa Gorbachova, morreu de leucemia. Gorbachov decidiu criar uma Fundação para financiar o tratamento de crianças com cancro e investigação no combate a essa doença.
Entre 2006 e 2010, conseguiu juntar mais de 10 milhões de euros que foram empregues na aquisição de aparelhos modernos para dois hospitais pediátricos em Moscovo e São Petersburgo (este último com o nome de Raísa Gorbachova).
Parte do dinheiro foi entregue à Fundação Marie Curie, organização que se dedica a combater o cancro.
Iniciador da liberdade de imprensa na União Soviética, Gorbachov apoia alguns órgãos de informação independentes na Rússia, nomeadamente o jornal Novaya Gazeta, onde trabalhou Anna Politkovskaia, conhecida jornalista assassinada em 2007.
Mikhail Gorachov está também na origem do Fórum da Nova Política, organização criada em 2010 com vista à análise informal dos problemas internacionais.
A primeira assembleia do FNP realizou-se em Outubro do ano passado na Bulgária."
 
Obrigada, Zé Milhazes, pela partilha - http://darussia.blogspot.com/

sábado, 25 de junho de 2011

João Abel Manta - cartoon de intervenção

Sempre admirei os seus cartoons.
Autênticas lições de História de Portugal, particularmente, sobre o Estado Novo e sobre a Revolução de 25 de Abril de 74.

Alguns desses trabalhos notáveis:




riachos

Sempre adorei pequenos riachos desde criança. Ficar ao pé deles, sentada, vendo-os correr e saltar por entre as pedras macias e o verde feliz à sua volta.
A água límpida e fresca que passava, num cenário sublime de beleza e poesia, ligavam-me cada vez mais à deusa-mãe e ao fascínio da terra. 
Nos meses de Verão, na minha infância, nas minhas férias grandes, sentir esta frescura, esta melodia, seguir até perder de vista os "barquinhos" que passavam, ouvir rãs, pássaros, o silêncio, sentir o cheiro dos pinheiros e da terra acabada de regar...foi um privilégio!

(foto de JP Nascimento in http://trasmontesdepaisagens.blogs.sapo.pt/)


 

Ética para um jovem

[etica_para_um_jovem.jpg] 
Fernando Savater e o seu livro ÉTICA PARA UM JOVEM, da Editorial Presença, é um livro que leio e consulto muitas vezes.
Sempre gostei de Savater. Da forma simples, mas séria, como aborda problemáticas variadas da VIDA, do HOMEM, do SER... orientando a nossa reflexão para o entendimento da realidade actual, de um modo crítico, construtivo e motivador.
 Sentimo-nos lado a lado a conversar com ele, tal a sensação de proximidade que a envolvência das suas frases provoca!
Um excerto desta obra:

Qual é a recompensa mais alta que podemos obter de um esforço, uma carícia, uma palavra, uma música, um conhecimento, uma máquina, ou de montanhas de dinheiro, do prestígio, da glória, do poder, do amor, da ética ou do que bem mais quiseres? Previno-te de que a resposta é tão simples que se arrisca a decepcionar-te: o máximo que podemos obter seja do que for é a alegria. (...) O que é alegria? Um sim espontâneo à vida que nos jorra por dentro, um sim ao que somos, ou, melhor, ao que sentimos ser.

Nazaré Oliveira