quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

UCRÂNIA - Quatro anos de tanto sofrimento, tanta crueldade, tanta injustiça!



Chegamos a 2025-2026 esperando que o conflito entre numa fase final, pois as movimentações diplomáticas sucedem-se a grande ritmo. De momento, fica-se com a sensação de que a Ucrânia só precisa resistir. 


Ao fim de quatro anos, a guerra mais letal e sanguinária ocorrida no espaço europeu desde a II Guerra Mundial segue o seu curso. Ordenada por Vladimir Putin a 24 de fevereiro de 2022, já ceifou a vida a dezenas de milhares de civis e centenas de milhares de militares de ambos os lados. A verdade é que o Kremlin esperava que as suas forças assumissem o controlo total da Ucrânia em apenas 10 dias, conforme refere um estudo recente realizado pelo Royal United Services Institute (RUSI).

Ao longo destes quatro anos, esta guerra foi palco de inúmeras evoluções tecnológicas e outras tantas transformações na forma de planear e conduzir as operações militares. A criatividade e inovação têm vindo a alterar a face dos combates do presente e a influenciar a forma como se combaterá no futuro.

A 24 de fevereiro de 2022, a Rússia pôs em marcha a invasão em grande escala da Ucrânia crendo numa vitória relâmpago, com ataques aéreos e tentativas de “decapitação” do governo ucraniano. Falhou logo nos primeiros dias. Kyiv não caiu, Hostomel foi defendida e, mais grave ainda, a logística russa colapsou. Nestes primeiros dias da invasão, a liderança de Volodomyr Zelensky revelou-se absolutamente crucial para manter o país a combater. Ficará para a história a sua frase: “não preciso de nenhuma boleia, preciso sim de armas”. Em boa verdade foram mesmo as armas ocidentais, designadamente as armas anti-carro Javelin, e NLAW, e os drones aéreos Bayraktar e Switchblade que se revelaram decisivos no ataque às colunas blindadas russas, impedindo-as de progredir em direção à capital ucraniana.

Todos recordamos as extensas colunas blindadas provenientes da Bielorrússia tentando alcançar Kyiv por Leste e por Oeste do rio Dnipro. Pouco tempo depois, face ao insucesso, as tropas russas acabaram por bater em retirada, não sem antes deixarem para trás um rasto de morte e horrendos crimes de guerra, assinalando-se a primeira grande humilhação de Moscovo. Erros pagam-se caro: logística inadequada e ausência de apoio aéreo próximo revelaram-se fatores decisivos no descalabro russo. No espaço marítimo, a destruição do cruzador Moskva, navio-almirante da esquadra russa do Mar Negro, mostrou que a Rússia não estava convenientemente preparada para uma nova guerra naval.

Em 2023, a guerra passou a ser sobretudo de atrito e trincheiras, ou seja, o conflito entrou numa fase semelhante à I Guerra Mundial, caraterizada por combates estáticos, uso intensivo de fogos de artilharia e a ocorrência de um elevadíssimo número de baixas (mortos e feridos graves). A ofensiva ucraniana na frente Sul fracassou redondamente. Protagonizar uma operação ofensiva em grande escala contra posições ofensivas bem organizadas, procurando quebrar a continuidade da ponte terrestre russa estabelecida entre o Donbass, e a Península da Crimeia, passando por Zaporizhzhya e Kherson, sem o imprescindível apoio aéreo, redundou num fracasso colossal. Um erro de palmatória. Os tão desejados carros de combate ocidentais revelaram aqui uma utilidade limitada. Bakhmut acabou por ceder após vários meses de combates sangrentos e perdas russas gigantescas, enquanto Avdiivka se converteu na maior derrota ucraniana até então, muito agravada pela conhecida interrupção temporária da ajuda norte-americana. A Ucrânia adaptou-se e iniciou uma campanha sistemática e bem-sucedida de ataque à artilharia russa, utilizando drones e fogos de contrabateria, almejando reduzir a vantagem russa em artilharia de 30 para 1 para praticamente de paridade.

2024 pode ser caraterizado como um ano de crise e adaptação. A queda de Avdiivka abriu o caminho para novos avanços russos, tirando partido de falhas de comando e controlo ucranianos. A guerra eletrónica (GE) adquiriu uma importância capital e a Ucrânia pôs em marcha uma campanha bem-sucedida tendo como objetivo neutralizar e/ou destruir a maior parte de equipamentos russos desse tipo. No mar, os novíssimos drones navais – de superfície e de subsuperfície – concebidos e fabricados na Ucrânia, destruíram cerca de 40% da Esquadra Russa do Mar Negro, condicionando decisivamente a sua liberdade de ação. Um feito histórico que viria a transformar globalmente a doutrina futura de emprego de meios navais.

O remanescente desta Esquadra acabou por se retirar da base naval russa de Sebastopol, na Crimeia ocupada, e procurar abrigo mais longínquo e seguro num porto mais oriental do Mar Negro, em Novorossisk. A incursão ucraniana em Kursk foi politicamente motivada e militarmente muito arriscada. Pese embora o sucesso inicial, terminou de forma desastrosa. Tal ficou a dever-se a vários fatores: a Rússia passou a utilizar uma nova geração de drones First Person View (FPV) guiados por extensos carretéis de fibra ótica e sensores infravermelhos; recebeu apoio de tropas norte-coreanas e por fim, a Ucrânia deixou de receber informação estratégica norte-americana durante cerca de 10 dias. De facto, o advento dos drones guiados por fibra ótica voltou a alterar a forma de fazer a guerra. Este tipo de drones passou a ser incólume às ações de GE. A Ucrânia voltou a adaptar-se e rapidamente copiou o conceito, passando também ela a inundar o campo de batalha com este tipo de veículos aéreos não-tripulados.

Chegamos a 2025-2026 esperando que o conflito entre numa fase final, pois as movimentações diplomáticas sucedem-se a grande ritmo. Em 2025, a Rússia conseguiu mobilizar 406.000 soldados, enquanto se estima que as perdas totais entre mortos e feridos tenham atingido aproximadamente 418.000. Esta é a primeira vez que tal situação ocorre desde o início da invasão em grande escala. Como consequência, a Rússia deixa de ser capaz de colmatar as perdas através das operações de recrutamento. Diariamente a Ucrânia e a Rússia mobilizam 6.000 a 8.000 drones FPV, além de centenas de unmanned aerial vehicles (UAV) de reconhecimento. Ao mesmo tempo, a Federação Russa detém uma vantagem aérea devido às bombas e mísseis guiados. Apesar das alegações de Moscovo sobre a aventada captura de 97% do território de Kupyansk, a cidade continua sob controlo ucraniano. A situação em torno de Pokrovsk é difícil; no entanto, a cidade mantém-se igualmente em mãos ucranianas. Os carros de combate, as viaturas de combate da infantaria e outros veículos blindados praticamente desapareceram das linhas da frente. As formações blindadas e mecanizadas são progressivamente substituídas por pequenos grupos de infantaria que, embora mais difíceis de destruir, são constantemente atacados por drones. As trincheiras deixaram de ser eficazes e necessitam de robustas coberturas superiores. A linha de contacto, antes materializada por uma faixa de terreno de cerca de 400 metros para cada lado – no fundo o alcance das armas de tiro direto das forças em contacto – transformou-se, com o advento dos drones FPV, progressivamente mais eficazes e autónomos, numa espécie de “zona cinzenta” de cerca de 25 a 50 km.

A Ucrânia utiliza agora: enxames de drones dotados de IA; drones anti-drone igualmente geridos por IA; robôs terrestres cada vez mais sofisticados e letais, e pontos fortes defensivos escalonados em profundidade, sobretudo na região de Donetsk. A automação do campo de batalha passou a ser uma realidade em todas as componentes. A Rússia perde a sua artilharia como o “deus da guerra”; passa a depender largamente das bombas planadoras; sofre gigantescas taxas de atrição e um desmedido desgaste logístico; e enfrenta corrupção dentro do aparelho militar, doenças e moral baixo. Os ataques ucranianos a refinarias, depósitos de combustíveis e locais de exportação de ramas petrolíferas estão a estrangular a economia russa.

As sanções reforçadas começam finalmente a surtir efeito. A Rússia parece não ter muitos mais argumentos militares ou económicos para vencer. De momento, fica-se com a sensação de que a Ucrânia só precisa resistir. Uma “paz” implicando a cedência graciosa do Donbass e sem garantias de segurança para Kyiv, apenas beneficiaria Moscovo, que precisaria, ao ritmo atual, de pelo menos mais 2 a 3 anos e 800.000 a 1 milhão de homens para conquistar o que resta dessa região do Leste ucraniano.

Zelensky referiu numa entrevista à Agence France Press (AFP) na passada sexta-feira, 20 de fevereiro, que “o seu país não está a perder a guerra, que a Ucrânia retomou centenas de quilómetros quadrados numa nova contraofensiva na região de Zaporizhzhya”. "Não podemos dizer que estamos a perder a guerra… a pergunta é se a venceremos", disse aos jornalistas desta agência. 

Assim como em 1991 a URSS acabou por colapsar economicamente, perdendo a Guerra Fria, também à Rússia de Putin poderá suceder algo similar. Quanto mais tempo a economia russa irá suportar um tal esforço de guerra? É bem possível que o cronómetro já tenha entrado em contagem regressiva.


in https://sapo.pt/artigo/quatro-anos-de-guerra-na-ucrania-licoes-aprendidas-699ce3d913624b792fec7ef6?utm_source=Partilha&utm_medium=web&utm_campaign=sharebutton&fbclid=IwY2xjawQMUAZleHRuA2FlbQIxMQBzcnRjBmFwcF9pZBAyMjIwMzkxNzg4MjAwODkyAAEePGNVZbyBWHZfbKZvlU4RC9edVj5wt8Y53czpI5b7rZeJSN7WWtxyNlqTGD8_aem_KEtc58UcfyQTUqfc24hvrA

Major General//Escreve no SAPO sempre à sexta-feira