domingo, 21 de junho de 2015

A política de austeridade que também mata


Quando li esta notícia, não escondi nem a revolta nem a emoção.

Um casal matou-se, por causa das dívidas acumuladas.

Por dívidas, por vergonha, por problemas que certamente os atolaram em desespero e angústia, por incompreensão de outros, pela sua impotência face a uma sociedade cada vez mais cruel, mais intolerante, uma sociedade que cada vez mais não perdoa a muitos mas faz vista grossa a muitos mais, uma sociedade onde a conflitualidade e as tensões surgem cada vez mais ligadas à cruel austeridade que nos impuseram, a uma diferenciação social terrível, amargamente sentida e fortemente marcante na vida de quase todos nós.

Uma sociedade que não confia nas pessoas nem na sua palavra de honra, uma sociedade violenta, muito violenta, indiferente à compaixão e à clemência, indiferente à dor brutal de quem vê toda uma vida de trabalho penhorada, roubada.

Há cada vez mais casos destes porque as pessoas se sentem sós, muito sós, completamente trucidadas pelas instituições e pela impiedosa Justiça que não quer ouvir, muito menos sentir ou acudir, agarrada que está aos artigos, parágrafos e leis nas quais busca, quase sempre, não uma solução ou ajuda para as pessoas mas a sua sentença de morte.

Perdem o emprego, os amigos, a família, a alegria, a casa…

Perdem-se em gritos de dor, calada, bem calada lá no fundo de si mesmos, num lugar que só conhece quem assim passou e passa, tal o desespero com que se aguarda uma promessa, uma resposta, uma palavra, um fim. 

 Um casal matou-se.

Toldou-se-lhes o olhar com lágrimas de sangue e de revolta.
A saída foi-se fechando sobre si mesmos até sobrar um pouco de tempo para o tempo pararem. 

Um casal matou-se.
Já nada lhes aliviou a dor de se saberem completamente abandonados e de tudo terem perdido, até o teto que dolorosamente abrigava a sua dor profunda.

Na nossa sociedade, é tal a violência na vida das pessoas e a falta de ajuda que, para muitos, como este casal, só lhe restou partir. 
Partir para a morte.




Nazaré Oliveira

A mensagem de Attenborough para o mundo