quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Grande José Régio!


De um dos primeiros livros de poesia que li, ainda adolescente.
Um dos poemas mais fantástico de um dos mais fantásticos poetas que existiram (e continuarão a existir) - CÂNTICO NEGRO de José Régio.

 


Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces

 Estendendo-me os braços, e seguros

 De que seria bom que eu os ouvisse

 Quando me dizem: "vem por aqui!"

 Eu olho-os com olhos lassos,

 (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

 E cruzo os braços,

 E nunca vou por ali...

 

 A minha glória é esta:

 Criar desumanidade!

 Não acompanhar ninguém.

 - Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

 Com que rasguei o ventre à minha mãe

 

 Não, não vou por aí! Só vou por onde

 Me levam meus próprios passos...

 

 Se ao que busco saber nenhum de vós responde

 Por que me repetis: "vem por aqui!"?

 

 Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

 Redemoinhar aos ventos,

 Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

 A ir por aí...

 

 Se vim ao mundo, foi

 Só para desflorar florestas virgens,

 E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

 O mais que faço não vale nada.

 

 Como, pois sereis vós

 Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

 Para eu derrubar os meus obstáculos?...

 Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

 E vós amais o que é fácil!

 Eu amo o Longe e a Miragem,

 Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

 

 Ide! Tendes estradas,

 Tendes jardins, tendes canteiros,

 Tendes pátria, tendes tectos,

 E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

 Eu tenho a minha Loucura !

 Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

 E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

 

 Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.

 Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

 Mas eu, que nunca principio nem acabo,

 Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

 

 Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

 Ninguém me peça definições!

 Ninguém me diga: "vem por aqui"!

 A minha vida é um vendaval que se soltou.

 É uma onda que se alevantou.

 É um átomo a mais que se animou...

 Não sei por onde vou,

 Não sei para onde vou

- Sei que não vou por aí!

 

 

José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'