quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Pois, pá!

Zé Povinho (de Rafael Bordalo Pinheiro)
 
 
É assim mesmo pá, vai para a praia, vai beber umas bejecas e não te preocupes, não penses em nada porque há milhares de gajos a pensar por ti, milhares e milhares de gajos, com computadores, comissões, redes de polícia secreta, comentadores políticos, jornalistas, eu sei lá.
Nem tens que te preocupar, não é pá? Estás de consciência tranquila, sempre fizeste o que tinhas a fazer, não é pá? Votaste no centro moderado nas regionais, votaste na direita moderada nas nacionais e votaste no palhaço moderado nas presidenciais, que mais querem eles? Que lhes ofereças a Europa no Natal? Ah não acham bem? Então para a próxima já nem vais votar, pronto, está decidido, queres lá saber, para safado, safado e meio, eles que se lixem, que é para isso que nós lhes pagamos, não é pá? E deixa-te de políticas, que a tua política é o trabalho, o trabalhinho, porreirinho da Silva. Ah não tens trabalho? Que queres tu que eu te faça? Faz-te à vida, arma-te em empreendedor ou então emigra, quem é que tu pensas que és? O Ulrich, não? E esses gajos que para aí andam a contestar tudo, esses esquerdistas de merda que só desestabilizam, deviam era passar uma semana na António Maria Cardoso, a levar porrada até criar bicho e depois despachavam-se para Caxias ou para Peniche por tempo indeterminado, para ver se acalmavam, como nos outros tempos, não é pá? Isso é que eram tempos, não era pá? A malta andava pianinho, não havia confusões, tudo caladinho, uma maravilha, não era pá? Agora esta porcaria da Democracia é só chatices pá, manifestações, greves, eleições e o caneco, uma treta isto da Democracia, não é pá? Uma trabalheira!
Tu é que tens razão pá, que se lixem todos e mais a Democracia, tu é que a levas direita, e aprendam que tu não vives sempre, não é pá?

 
 
Carlos Galvão (adaptado de “FMI” de José Mário Branco)