quinta-feira, 7 de julho de 2016

O confronto do olhar



Quando peguei no livro O CONFRONTO DO OLHAR1 senti-me desde logo motivada a lê-lo, uma vez que o subtítulo – o encontro dos povos na época das navegações portuguesas - deixava antever uma matéria particularmente interessante no âmbito do expansionismo marítimo do nosso país. De facto, muito para além de interesses religiosos, económicos e políticos, houve o interesse pelas gentes, pelo outro, pela novidade que o outro constituía, fosse pela fisionomia, pelos trajes, língua, rituais, alimentação, entre outros.
A descoberta dos outros era, também, a descoberta de si mesmos, pois, se há um mundo que “descobre” há outro que é “descoberto”.
Os autores deste livro, de uma forma muito interessante, levam-nos nesta viagem de descoberta das cores, sons e cheiros, ao encontro dos povos com os quais os portugueses contactaram ao longo da sua odisseia marítima quinhentista: africanos, asiáticos e ameríndios.  Numa escrita rigorosa, sob o ponto de vista histórico, articulam magnificamente os seus textos explicativos com excertos de grandes obras históricas, por exemplo, a “Carta” de Pêro Vaz de Caminha, e outro documentos,  fazendo-o de uma forma empolgante, despretensiosa  e com sentido crítico.
Levam-nos até lá e integram-nos nesse encontro. Olhamos e somos olhados. Retratamos e percepcionamos  toda uma realidade cultural e civilizacional diferente da nossa, enriquecedora, gratificante, ás vezes  assustadora, sobretudo quando estamos perante determinadas práticas, como por exemplo, a antropofagia, rituais religiosos ou outras. Como referem os autores, o que conta é o Homem,  como se soubéssemos  o que é o Homem, justamente num momento como o que vivemos, de uma sociedade profundamente desumanizada.  Consideram que esse encontro foi, por isso,  marcado por uma certa ambiguidade, uma vez que a alteridade humana é simultaneamente revelada e recusada.
Para quem gosta de História mas, sobretudo, para quem gosta de esclarecer dúvidas sobre particularidades daquele encontro de povos e de culturas, que  os livros nem sempre revelam ou  explicam, recomendo  este livro.

Alguns excertos do mesmo:

- “(…) a imagem do Africano, e particularmente do negro (…) enquadra-se (…) na visão do ocidente tardo-medieval coevo, em particular na iconografia. É marcada pela permanência de estereótipos (…) associados à cor negra e ao Negro – demónio negro (…)”.
- “(…) os povos africanos convidaram os portugueses para uma refeição. Acto que naquelas paragens significa bom acolhimento e amizade. Quando os nautas de Vasco da Gama desembarcaram e viram a comida, recusaram-na, o que originou um conflito (…)”.
- Sobre o encontro com o índio brasileiro:
 “Morto o triste levam-no a uma fogueira (…)”.Citação da obra cit. do Pe. Fernão Cardim. “(…) Algum braço ou perna ou outro qualquer pedaço de carne, costumam assar no forno e tê-lo guardado alguns meses, para depois, quando o quiserem comer, fazerem novas festas (…) renovar outra vez o gosto (…) como no dia em que o mataram (…)”. Citação da obra cit. de Pêro de Magalhães de Gândavo
 “Os buracos nos beiços, as tatuagens, eram a sua lei escrita – uma lei da igualdade. (…) A lei escrita sobre o corpo era uma recordação inesquecível – não terás o desejo de poder, não terás o desejo de submissão (…) estas marcas transformam-se na memória da igualdade”.
- “As boas mulheres são muito veneradas de seus maridos. Os maridos são mandados por elas”. (referência às mulheres japonesas).

           
Maria Nazaré Oliveira


1O Confronto do Olhar (1991) de Luís de Albuquerque, António L. Ferronha, José da S. Horta e Rui Loureiro, ed. Caminho.

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