domingo, 5 de julho de 2015

L’été - «L’exil d’Hélène», de Albert Camus

Albert Camusonar legenda



Quando preciso de alento (a que outros chamam esperança) releio Albert Camus. Há nos seus textos, e até mesmo nos mais tardios, uma combinação benfazeja de propriedades apaziguadoras dos inquietos, o sopro da verdade profunda que apenas a arte diz, a voz dessa sabedoria sem época. Um dos seus livros que prefiro é L’été (O Verão), originalmente publicado em 1959. Trata-se de uma compilação de pequenos textos, e num deles, intitulado O exílio de Helena, Camus detém-se no lugar da Grécia na Europa.
Há nos territórios (e numa certa e relativa medida também nos seus passados) da Grécia e de Portugal uma espécie de insuportável beleza do Mundo que aproxima os seus povos: gentes nascidas na angustiante superlativa beleza de lugares que se habituaram a abandonar, para procurar noutras partes do Mundo os modos de vida que nos seus países não têm aparente vontade de erguer. Bastará dizer que, no caso da Grécia, foi um país que teve retornados (em significativa quantidade, comparável à de antigos impérios) sem ter sido colonizador.
Quando Camus refere «o nosso tempo», é evidente que o seu tempo (dele Camus) não é o nosso, mas ao mesmo tempo é, nesse pós-guerra em que escreve Camus que é em certa medida o nosso também. Outros textos dessa recolha chamada O Verão foram escritos antes da Segunda Grande Guerra, outros ainda muito depois do seu término, mas na essência não importam as datas: em pano de fundo está a guerra, e a supremacia pragmática e impositiva da razão técnica sobre a vontade, que é o que vivemos por estes dias. | S.A.


Albert Camus, L’été, «L’exil d’Hélène», 1948



«O Mediterrâneo tem a sua própria tragédia solar, que não tem nada a ver com a das névoas. Certos fins de dia, no mar, junto ao sopé das montanhas, a noite cai na delineação perfeita de uma pequena baía e, provinda das águas silenciosas, emerge então uma plenitude angustiada. Apenas estando lá podemos compreender até que ponto os gregos conheceram o desespero através da beleza, e do que ela tem de opressivo. É nessa infelicidade dourada que a tragédia culmina. (…)

Forçámos a beleza ao exílio, e os gregos limpam as armas para defendê-la: eis uma primeira diferença, que no entanto vem de longe. O pensamento grego escudou-se sempre por detrás de uma ideia de limite. Não foi até ao fim de nada pelo princípio de não ir, fosse relativamente ao sagrado, fosse à razão, porque nada negou: nem o sagrado nem a razão. O pensamento grego discerniu a importância da parte no todo, equilibrando a obscuridade por intermédio da luz. A nossa Europa, pelo contrário, lançada na conquista da totalidade, é filha da desmedida. (…)
Acendemos num céu irado os sóis que nos apetecem. Mas os limites existem, e sabêmo-lo bem. Nas nossas mais extremas demências, sonhamos com um equilíbrio que há muito escolhemos abandonar, mas que ingenuamente acreditamos poder reencontrar ao cabo dos nossos erros. Presunção infantil, e que justifica que povos ainda imaturos e herdeiros das nossas loucuras conduzam hoje a nossa História. (…)
Desde há muito tempo que os esforços dos nossos filósofos se focam na substituição da noção de natureza humana pela noção de situação, e na substituição da antiga harmonia pelo ímpeto desordenado do acaso ou pelo impiedoso movimento da razão. Enquanto que os gregos conferiam à vontade a prerrogativa de definir os limites da razão, nós acabámos por pôr o ímpeto da vontade no centro da razão, que entretanto se tornou assassina da vontade. Para os gregos, os valores pré-existiam a toda e qualquer acção – cujos limites eram determinados pelos valores. A filosofia moderna põe os seus valores no termo da acção. O que pressupõe que eles não são mas que se tornam, e que apenas poderemos conhecê-los no seu todo uma vez concluída a história. (…)
E no entanto, a Natureza continua presente, contrapondo à loucura dos Homens os seus céus calmos e razões próprias. Até ao dia em que também o átomo se incendeie, e que a história acabe no triunfo da razão e na agonia da espécie. Contudo, os gregos nunca disseram que os limites não podiam ser ultrapassados. Apenas disseram que eles existiam, e que quem ousasse ultrapassá-los seria atingido sem dó nem piedade. Nada na História de hoje pode contradizê-los.
O espírito histórico e o artista querem ambos refazer o Mundo. Mas o artista, porque a sua natureza a isso o obriga, conhece os seus próprios limites, que o espírito histórico grandemente desconhece. Eis porque o fim deste último é a tirania, enquanto que a paixão do artista é a liberdade. Todos os que por estes dias lutam pela liberdade, combatem em última instância pela beleza. (…) A nossa época obstina-se em atingir o absoluto e o império, quer transfigurar o Mundo antes de o ter esgotado, quer ordená-lo antes de o ter compreendido. (…)
“Odeio a minha época”, escrevia Saint-Exupéry antes da sua morte. (…) Por mais que nos perturbe esse grito, vindo dele que amou os Homens no que têm de admirável, não o assumiremos como nosso também – apesar de em certas horas a tentação ser grande, isto é, o impulso de virar costas a este mundo mortiço e desolado. Mas esta época é a nossa, e não podemos viver a odiar-nos. Se chegou tão baixo foi tanto pelo excesso das suas virtudes como pela grandeza dos seus defeitos. Lutaremos pela sua virtude mais antiga: (…) a amizade (…) E no final está a vitória (…).
No reconhecimento da ignorância, na recusa do fanatismo, na assumpção dos limites do Mundo e do Homem, no rosto de quem amamos, na beleza, enfim, eis o lugar de reencontro com os gregos. O sentido da História de amanhã não é aquele que julgamos. Reside antes na luta entre a criação e a inquisição. Apesar do preço que as mãos vazias dos artistas custarão aos próprios, podemos contar com a vitória. Uma vez mais, a filosofia das trevas dissipar-se-á por cima do mar resplandecente. (…)»


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