Um artigo muito interessante sobre o que se passou e tem passado no Brasil. Texto integral retirado do blogue http://fabiopestanaramos.blogspot.pt/ (clicar nas fotos para as ampliar)
A
mídia, os políticos, o Estado e as elites não entenderam ou fingem não entender
o real significado das recentes manifestações iniciadas pelo estopim
representado pelo aumento no valor das passagens púbicas.
Alguns
sociólogos, a todo momento apresentados pelos meios de comunicação de massa
como especialistas, ratificaram esta postura, afirmando que as manifestações
foram motivadas pela melhoria no padrão de vida da população mais pobre e o
surgimento de uma nova classe média.
Dentro
desta concepção, o governo teria propiciado a ascensão de milhares de
indivíduos a um novo patamar de consumo e, então, agora esta seria uma nova
etapa pedindo mais (escola, saúde, etc).
Outros,
ainda no dia de hoje, dizem que tudo acabou, pois as reivindicações do
“movimento passe livre” já foram atendidas, sendo revogado o aumento no valor
das passagens nos transportes públicos.
Algumas emissoras de TV continuam a alardear que os casos de violência foram apenas atos de vandalismo.
O
mesmo tipo de discurso construído durante outros momentos históricos em outros
espaços, tal como pelo Antigo Regime (a nobreza) quando aconteceu a Revolução
Francesa.
Vãs
tentativas de ludibriar a população, as manifestações não tem liderança,
representam um sentimento popular de revolta contra as mazelas brasileiras, por
isto estão ganhando cada vez mais força e mais adeptos pelo Brasil inteiro,
tornando-se mais violentas.
Vivemos
em um país onde a desigualdade social é histórica e perdura há séculos, onde as
elites ludibriam as massas com circo e nem sempre pão, contemporaneamente
manipulando a opinião publica através do controle dos meios de comunicação.
Por
esta razão, as elites e seus representantes, ainda não entenderam ou fingem não
entender que o aumento no valor da passagem nos transportes públicos foi só o
estopim, a gota da água que faltava para a passividade do brasileiro
transbordar.
A
despeito das manifestações serem compostas principalmente por jovens, o motivo
da revolta envolve as mazelas que indignaram a população de todas as faixas
etárias e segmentos sociais, excetuando é claro os beneficiados pelas
falcatruas.
As
elites pensaram que oferecendo o circo simbolizado por copa do mundo e
olimpíadas a massa iria se conformar com a pobreza e a exploração.
Foram
os romanos que inventaram a clássica formula: basta oferecer aos plebeus pão, o
mínimo necessário para que não morram de fome, e circo, a luta de gladiadores
onde o povo podia extravasar e canalizar a agressividade causada pela revolta
de ser miserável; para controlar e manobrar a população para que as elites
continuem no poder se beneficiando deste poder para ficar mais ricas.
A
formula é antiga e, no Brasil, a massa parece que finalmente entendeu que
estava sendo manipulada, ludibriada na cara dura.
Esta
manipulação deslavada é uma das causas que geraram as manifestações e que, a
medida que sofrem a repressão do braço armado do Estado e das elites (a
policia) tendem a se intensificar e tornarem-se mais violentas.
Também
é muito antigo a máxima que diz que violência gera violência, o que vale também
para a repressão policial violenta do Estado perante manifestações que reivindicam
causas justas e acumuladas durante séculos no Brasil.
Qual
outro país do mundo divide a classe média entre baixa, média e alta?
Somente
no Brasil, justamente por que o que existe aqui é uma maioria absoluta de
pobres contraposta a uma minoria de ricos que só são ricos porque tiram do
resto da população a parcela que lhes cabe da riqueza nacional.
Este
abismo entre ricos e pobres é que tem motivado os saques durante as
manifestações, visto que miseráveis, que não tem condições de consumir
eletrodomésticos e outros bens de consumo, percebem no tumulto a oportunidade
de ter aquele objeto do desejo tão almejado de forma rápida e fácil.
Na
mente destes a ocasião faz o ladrão, diante de um contexto em que a justiça, o
poder público, não pune aqueles que roubaram milhões ou bilhões do próprio
povo.
Mesmo
quando a justiça condena estes corruptos e corruptores, mediante a pressão
popular, a punição é branda ou nunca chega, muitos são até mesmo reconduzidos
ao poder para continuar praticando as mesmas mazelas pelas quais foram
condenados.
As
leis são feitas pelas elites para elites, com brechas que somente podem ser
exploradas por aqueles que controlam a máquina judiciária.
Ocorre
que os valores roubados pelos corruptos fazem parte do dinheiro publico,
originado a partir dos elevados impostos.
Estes
impostos que extorquem a população são um dos mais elevados do mundo se não os
mais elevados.
No
entanto, muito pouco do dinheiro pago em impostos retorna em benefícios para
quem pagou, escorre quase tudo pelos diversos buracos representados pela corrupção
e elevados gastos do poder publico para manter a própria máquina do Estado,
principalmente com salários de marajá.
Gerando
mais cobranças indevidas que extorquem o povo e reduzem o poder de consumo,
empobrecendo ainda mais os pobres.
No
sistema Ecovias, por exemplo, formado pela Anchieta e Imigrantes, o usuário, o
trabalhador que já paga IPVA e outros impostos que deveriam ser dirigidos à
manutenção de um sistema viário de primeiro mundo, são obrigados a pagar 21,20
reais para transitar por uma via pública.
O
trabalhador que mora na Grande São Paulo e trabalha no litoral, é forçado a
gastar 42,40 reis diariamente, ao passo que já paga impostos justamente para
poder ter seu direito de ir e vir do trabalho garantido.
Durante
o período eleitoral, todos os partidos políticos sem exceção se valem de
discursos demagógicos e inflamados a fim de captar atenção, argumentam a
respeito das varias soluções para os problemas que envolvem a sociedade, tais
como educação, saúde, segurança, habitação e tantos outros.
O
fato é que, depois que ocupam as posições almejadas, tornam-se negligentes a
respeito das necessidades de quem os elegeu, necessidades essas que os fez
chegar ao poder, e dessa forma começam a praticar um tipo de violência, uma
violência que explora, que oprime e que nega direitos.
Os
movimentos sociais sempre atuaram de forma fragmentada para a cobrança e
respostas de suas reinvindicações, ou seja, cada um defendendo a sua causa
estando alheio a tantas outras. O
que possibilita a classe politica se valer do artificio de não atender a todos
os setores da sociedade, fingindo atender, satisfazendo apenas os interesses
das elites.
Podemos
dizer então que a massa popular, que sai às ruas, trata-se da unificação destes
vários movimentos sociais, que saíram do discurso e da diplomacia para uma ação
mais objetiva?
Não,
a massa que protesta não representa nenhum partido, nem no sentido de senso
comum, tampouco no weberiano.
A
massa não tem cara, faz-se notar por constituir um aglomerado de indivíduos
encurralando pelo Estado e pelas elites contra a parede, que passou a exigir o
que lhe é de direito.
As
cenas de vandalismo, tão enfatizadas pela mídia elitista, nada mais são que a
violência retribuída, ou melhor, devolvida para os símbolos de poder opressor,
prefeituras, câmaras, congresso nacional e até mesmo bancos e tudo aquilo que
representa a exclusão social.
Em
suma, o Estado e as demais formas de poder e opressão se acostumaram a
violentar o povo todos os dias durante anos, logo é totalmente plausível o
descontrole e a fúria do povo, que tem sede de destruição de tudo aquilo que
nunca os representou.
Quem são os manifestantes.
Observando
a massa de manifestantes em todos os pontos do país, salta aos olhos a
quantidade expressiva de jovens, estudantes e trabalhadores na faixa dos 16 aos
20 e poucos anos.
Mas
porque os jovens, justamente aqueles com perspectivas de futuro mais nebuloso e
mais distante, iniciaram as manifestações?
O
inconformismo é natural da idade, mas é a ausência da possibilidade de um
futuro melhor em longo prazo a motivação principal.
Ao
mesmo tempo, a juventude está há alguns anos diante de novos valores éticos
cultivados por um grupo pequeno e heroico de professores, que continuam na
profissão por puro idealismo, visto a desvalorização e desrespeito para com a
categoria por parte do Estado.
As
elites sempre manipularam a educação para deixar a população alienada,
sucateando a educação publica básica e confundindo os pais, forçando a
procurarem o ensino privado pensando falsamente em oferecer aos filhos conteúdo
de qualidade, quando na realidade também este setor foi segmentado para atender
de forma dualista ricos e pobres através da legislação educacional.
Althusser
ressaltou que existem mecanismo de controle social desenvolvidos pelas elites
capitalistas para ludibriar as massas, dentre os quais os Aparelhos de
Ideológicos de Estado, tal como a escola, montada para convencer as pessoas de
que a culpa pela pobreza é delas próprias.
Apesar
disto, lutando contra as engrenagens da máquina do Estado elitista neoliberal,
professores tomaram como sua missão de vida abrir os olhos das gerações
futuras, fazendo um trabalho de formiguinha que agora aparece, depois de anos,
materializado na figura dos jovens que manifestam a insatisfação apartidária.
A
ideologia destes jovens é simplesmente o ideal ético de busca da felicidade
coletiva, de ver a verdadeira justiça acontecer, aquela que faz um sujeito
querer para os demais o que quer para si mesmo.
Não
são desocupados, vagabundos ou baderneiros que estão se manifestando, são sim
jovens trabalhadores que buscam um futuro melhor para todos, pois os atos
começam apenas depois do expediente de trabalho.
Tantas
manifestações realizadas durantes mais de cinco horas cada uma, exige muita
disposição física e mental, o que não significa que somente os jovens são aptos
a elas, mesmo por que a classe trabalhadora mais madura se faz presente e de
forma igualmente eficiente. O
que explica os horários de encontro das manifestações que começa variavelmente
às 17 horas.
O
papel das redes sociais provou ser uma das principais ferramentas de
mobilização e alcance social da juventude, refletindo um pouco mais a
utilização da internet tornou-se mais legitimo e digno do que a comunicação das
outras mídias de massa, sejam elas televisiva, impressa ou radialista, que em
grande parte trata os protesto como uma espécie de “doença civil” ou estado de
anomia, conforme o modelo teórico de Durkheim.
A
doença esta presente entre as elites e segmentos que continuam sendo
manipulados, dentre os quais aquele que em nome da religião e de um Deus de
amor, pregam a intolerância a orientação sexual.
A
massa que manifesta é contra, justamente, os rótulos colocados pelas elites nas
pessoas, rótulos que desrespeitam a vontade de cada um e o que faz cada
individuo feliz sem ferir de forma alguma o espaço ou a busca da felicidade do
outro.
A
juventude respeita a diversidade e entende que é salutar a convivência entre
diferentes, caso contrário caminharíamos novamente para trás, veríamos Estados
totalitários de direita renascendo, tal como o nazismo hitlerista.
Concluindo.
Em
meio às manifestações as autoridades se calam, nada dizem e somente jogam a
policia, a tropa de choque com balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio,
para reprimir a massa.
Os
meios de comunicação de massa fingem não entender o que acontece ou usam de
sensacionalismo, gerando a irá de manifestantes que queimam automóveis de
emissoras de TV em demonstração da insatisfação com a maquiagem fantasiosa que
marra os fatos de forma distorcida.
Esperemos
que a juventude que tomou a frente nas recentes manifestações contra as mazelas
do Brasil mude a cara deste país.
A
massa amorfa finalmente acordou e ganhou vida como um corpo único e orgânico,
apartidário e sem liderança, mas com uma ideologia que prima pela ética e
representa todo o povo brasileiro.
Para
saber mais sobre o assunto.
Ajude a mudar o Brasil.
Nota:
texto integral da autoria de Fábio Pestana e Eliane Santos Moreira, no blogue supracitado.